os porcos & a civilização

a oxford university press que, ao que parece, é uma editora (muito grande) avisou os autores de livros escolares para banirem a palavra “porco” (suíno) ou qualquer referência ao animal:… salsichas, chouriços, lombinhos, costeletas do cachaço, entrecosto e o que mais navegar na nossa fértil imaginação de devoradores de carne do bicho.
mas isto foi apenas um aviso – importante – para evitar ofender judeus e muçulmanos, uma vez que – para ambas as religiões – o porco é considerado um animal impuro…

porreiro pá!…

só que já tínhamos escrito um texto com imensos porcos e alguns leitões. achamos portanto que, após dias e dias a chafurdar pelas pocilgas da nação, não divulgar a nossa obra literária é um desperdício. desta forma, ainda que arriscando uma punição severa da oxford university press, vamos divulgar o nosso texto.
claro que já consultámos os nossos amigos abdul e david que – quer um quer outro – se pronunciaram favoravelmente sobre a “coisa” escrita. mais; disseram-nos – quer um quer outro – que apesar do porco ser um bicho impuro, ele é uma criatura de deus e se deus o fez…
…fê-lo na perfeição – uma vez que deus é perfeito e só faz coisas e animais perfeitos. logo o porco é a perfeição suína tal como as vacas são a perfeição bovina (há que lembrar, no caso das vacas, que até as há sagradas). e, como diz o francisco jesuíta, as criaturas de deus vão todas para o paraíso.
plagiando o meu amigo joão: “- a oxford university press é má, os nossos amigos abdul e david são bons.”

porcos

os porcos assados (história pedagógica)

Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde habitavam alguns porcos e, os porcos, foram assados pelo fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir dai, sempre que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque… Até que descobriram um novo método.

Mas o que quero contar aconteceu quando tentaram mudar o SISTEMA para implantar um novo. Há muito que as coisas não iam lá muito bem: às vezes, os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. O processo preocupava muito a todos, porque se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram muito grandes – milhões eram os que se alimentavam de carne assada e também milhões os que se ocupavam com a tarefa de os assar. Portanto, o SISTEMA simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, quanto mais crescia a escala do processo, mais parecia falhar e maiores eram as perdas causadas.
Em razão das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas. Já era um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA. Congressos, seminários e conferencias passaram a ser realizados anualmente em busca de uma solução. Mas parece que não acertavam com o melhoramento do mecanismo. Assim, no ano seguinte, repetiam-se os congressos, seminários e conferencias.

As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram atribuídas à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deviam, ou a inconstante natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou ainda as arvores, excessivamente verdes, ou a humidade da terra ou ao serviço de informação meteorológica, que não acertava com o local, o momento e a quantidade das chuvas.

As causas eram, como se vê, difíceis de determinar – na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Foi montada uma grande estrutura: maquinaria diversificada, indivíduos dedicados exclusivamente a acender o fogo – incendiários também especializados (incendiários da Zona Norte, da Zona Oeste, etc, incendiários nocturnos e diurnos – com especialização matutina e vespertina – incendiário de verão, de inverno etc). Havia especialista também em ventos – os anemotecnicos. Havia um director geral de assamento e alimentação assada, um director de técnicas ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores), um administrador geral de reflorestação, uma comissão de treinamento profissional em Porcologia, um Instituto Superior de Cultura e Técnicas alimentícias (ISCUTA) e o bureau orientador de reformas igneo-operativas.

Fora também projectada e encontrava-se em plena atividade a formação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação – utilizando-se regiões de baixa humidade e onde os ventos não sopravam mais que três horas seguidas.

Eram milhões de pessoas a trabalhar na preparação dos bosques, que viriam a ser incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a importação das melhores arvores e sementes, o fogo mais potente etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno.
Foram formados professores especializados na construção das instalações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades para formar os professores, especializando-os na construção das instalações para porcos. Fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as universidades – as que preparavam os professores especializados na construção das instalações para porcos – etc.

As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus e posicionar ventiladores gigantes na direção oposta à do vento, de forma a direccional o fogo. Não será preciso dizer que os poucos especialistas estavam de acordo entre si, e que cada um fundamentava as suas idéias nos dados e pesquisas específicos.

Um dia, um incendiário de categoria AB/SODM-VCH (ou seja, um incendiário de bosques especializado em sudoeste diurno, matutino, com bacharelato em verão chuvoso) chamado João Bom-Senso, resolveu dizer que o problema era muito fácil de ser resolvido – bastava, primeiro, matar o porco escolhido, limpar e cortar adequadamente o animal, colocá-lo então numa armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor – e não as chamas – assasse a carne.

Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o director geral de assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete, e depois de ouvi-lo pacientemente, disse-lhe: 

– “Tudo o que o senhor disse esta muito bem, mas não funciona na pratica. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotecnicos, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? Onde seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?”. 

– “Não sei”, disse João. 

– “E os especialistas em sementes? Em arvores importadas? E os desenhistas de instalações para porcos, com suas maquinas purificadores automáticas de ar?”. 

– “Não sei”. 

– “E os anemotecnicos que levaram anos a especializar-se no exterior, e cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou manda-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têem trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo? Heim?”. 

– “Não sei”, repetiu João, encabulado. 

– “O senhor percebe, agora, que a sua idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução ha muito tempo atrás? O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotecnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas! O que o senhor espera que eu faça com os quilómetros e quilómetros de bosques já preparados, cujas arvores não dão frutos e nem tem folhas para dar sombra? Vamos, diga-me?”. 

– “Não sei, não, senhor”. 

– “Diga-me, nossos três engenheiros em Porcopirotecnia, o senhor não considera que sejam personalidades cientificas do mais extraordinário valor?”. 

– “Sim, parece que sim”. 

– “Pois então. O simples facto de possuirmos valiosos engenheiros em Porcopirotecnia indica que nosso sistema é muito bom. E o que faria eu com indivíduos tão importantes para o pais?” 

– “Não sei”. 

– “Viu? O senhor tem que trazer soluções para certos problemas específicos – por exemplo, como melhorar as anemotecnicas actualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (nossa maior carência) ou como construir instalações para porcos com mais de sete andares. Temos que melhorar o sistema, e não transforma-lo radicalmente, o senhor, entende? Ao senhor, falta-lhe sensatez!”. 

– “Realmente, eu estou perplexo!”, respondeu João. 

– “Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia daqui dizendo que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e complexo do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia – isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo. Não para mim, entendido?… Eu digo isso para o seu próprio bem e porque eu o compreendo, entendo perfeitamente o seu posicionamento, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo, não é verdade?”.

João Bom-Senso, coitado, não abriu mais a boca, não disse nem mais um “a”.

Sem despedir-se e meio atordoado, meio assustado com a sensação de estar a caminhar de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém mais o viu.

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Autor desconhecido ou ignorado in: As Mais Belas Histórias Budistas – e outras histórias…” 

sobre os II encontros de arte contemporânea algarve-andaluzia (tavira)

a arte é a arte. não mais que a arte.
a arte é uma festa em movimento – livre e embriagadora. ali. em tavira. estávamos preparados para dias de festa…
perfeito? “perfeito só o divino mestre, pecadora” (escreveu miguel torga in “o mar” – poema dramático) .
e nos dias de festa… pintamos o corpo, diferenciamo-nos dos demais.

gonçalo mattos em tavira

gonçalo mattos em tavira

os actos poéticos sucederam-se. ocuparam espaços. um espaço poético para cada um dos intervenientes.
e os intervenientes eram os bastantes.
os intervenientes serviram “um caldo” onde as estéticas contemporâneas cumpriram o seu dever. irromperam, em liberdade, no interior dos muros de um aquartelamento – ex-libris do burgo – atalaia.
no comando, um coronel – um homem de outras artes, as castrenses. um homem que, como poucos, soube abrir as portas de uma fortaleza militar às artes. as outras. as da criação estética.
e isso foi, se não curioso, gratificante.
e isso foi marcante para os mais descrentes – um quartel, espaço de ritos bélicos, será compatível com actos de espontaneidade e criatividade que irrompem sem lei e sem ordem…?
ali foi.
ali… aconteceu

aconteceu um ritual – outro.

e aconteceu um convívio entre gentes que, na sociedade, cumprem rituais distintos (opostos?).

o algarve e a andaluzia estavam ali. aquartelados. não para cumprir um projecto provinciano (como é vulgar. demasiado vulgar) mas, tão só, um projecto.

e isso foi história.

e isso foi extremamente importante…

e quem lá esteve?

– adão contreiras, fernando grade, joão viegas, paulo serra, milita dorè (galeria margem). 
manuel almeida e sousa e gonçalo mattos (mandrágora).
álvaro de mendonça.
fernando bono, miguel ángel concepción, rocio lópez zarandieta (colectivo atlantida del sur (?)).
antónio d. ressureiccion, fernanda oliveira, luis cruz suero, virginia ogalla. marisa duran. angel tirado, kaprax (lacajahabitada).
luísa soares teixeira, maria cañas, maria clauss e juan vidal

atalaia (quartel) foi rebaptizada de artalaia. uma artalaia capitaneada pelo josé bivar e pela joana rego.

tingir cabelos
e
pintar o corpo são manifestações culturais – actos comuns. a pintura do corpo foi prática em celebrações de fertilidade e cerimónias fúnebres. um rito à beleza. ao erotismo. à guerra. e um rito, também, destinado a aplacar a ira dos demónios…
pois.

a pintura corporal protege o corpo
dos raios solares
das picadas de insectos
e
o padrão da pintura e sua localização – no corpo – pode revelar o “status” de seu detentor.

a pintura corporal foi, em tavira, o acto final da nossa acção “performance” (nossa – de mandrágora).
aqui estivemos por acreditar, desde início, no acto.

e o acto chamou-se: “II encontros de arte contemporânea algarve-andaluzia”.

“Como conquistar a eterna bem-aventurança?…

hugo ball e emmy hennings

hugo ball e emmy hennings

“Como conquistar a eterna bem-aventurança? Dizendo Dadá.

Como ser célebre? Dizendo Dadá.”
(Hugo Ball)

Digo (ou grito) Dadá e deito-me na cama
disposto a conquistar a bem-aventurança
com um pé descalçado e uma mão sobre a pança
com um olho fechado e o outro que se derrama.

Pronuncio Dadá como quem já se inflama
como quem sobre um crespo oceano se balança
como quem não perdeu o estilo ou a confiança
e salta para a rua e não sucumbe ao drama.

Cheio de uma emoção que muito certamente
não vem de ser verão ou de eu estar somente
deitado a me lembrar do vento que cessou

pronuncio Dadá com cuidado e minúcia
sempre atencioso às sutilezas da pronúncia
(pois me falta a ventura e célebre não sou).

(Renato Suttana)