ainda sobre poetree

poetree – texto de josé bivar

faro-alameda1

álvaro mendonça – o autor do projecto-instalação “poetree”

João de Deus e Manuel Bivar, o patrono e o criador de um dos primeiros jardins botânicos do País rejubilaram no “além túmulo”, com esta brilhante iniciativa do artista plástico e poeta Farense, Álvaro Mendonça.
No jardim da Alameda, junto ao antigo matadouro, hoje Biblioteca Ramos Rosa (outro grande vate Farense, celebrado na mesma semana pelo seu aniversário), Álvaro Mendonça apoiado pela Drª Margarida Agostinho do Laboratório da Escrita Lusa, apresenta o Poetree, uma instalação poética que celebra a Árvore e a sua presença transcendente nas nossas vidas, em textos gravados em placas de acrílico, suspensas nas arvores distribuídas aleatoriamente pelo jardim.

faro-alameda3

josé bivar observa a obra poética em processo

Que melhor lugar que este fabuloso espaço verde da cidade para celebrar a natureza e as arvores tão ameaçadas pelo falso progresso. O projecto, para lá do seu valor artístico, é uma extraordinária forma de educação ambiental, para todas as idades.
Todas as Quartas das 10 às 12h e das 15 às 18h e aos Sábados e Domingos das 10h as 13h e das 15 as 17 realizam–se oficinas de leitura e escrita criativa onde o público é levado a participar e criar com base nesta proposta poética e ambiental. Mais informações em www.laboratoriodaescritalusa.pt
Há cerca de 120 anos um dos primeiros engenheiros Agrónomos da região e do país teve a brilhante iniciativa de fazer este jardim botânico, com árvores exóticas, entre as quais a recém chegada Aroucaria trazida do continente Americano para a Europa via Açores pelo mentor do parque Terra Nostra, o celebre Yankee Hall, Thomas Hickling, trisavô do Eng.º Manuel Bivar, e do Tomás Cabreira curiosamente também ali ao lado….
Enquanto bisneto do criador do primeiro espaço verde de Faro, defensor como ele da arte e ambiente, (quem sai aos seus não degenera), sinto-me especialmente gratificado pela iniciativa destes meus companheiros, o ambiente é uma prioridade e a poesia é a forma mais directa de despertar a sensibilidade ambiental.
Penso que esta exposição de ÁLVARO MENDONÇA deveria ser permanente, valorizaria em muito a Alameda, devendo os poemas ter também tradução em Inglês, (fica a sugestão, para quem pode e manda), a proximidade com a biblioteca facilitaria o enquadramento e o apoio a iniciativas futuras de educação ambiental, que é o maior e melhor legado que podemos deixar às novas gerações, o melhor antídoto contra a barbárie e a relação cada vez mais pobre com a “ordem natural”, com o mundo da Criação.

um verso abraçando a pequena palmeira

um verso abraçando a pequena palmeira

Poetree está aí para contrariar a tendência e, inaugurar um novo modo de estar na Arte e no Ambiente, de investir no espaço publico, de bulir interactivamente com o incauto e distraído transeunte por demais esquecido da problemática ambiental, carente de inspiração poética; para consciências demasiado coladas às rotinas do trabalho e da vida de todos os dias.
As nossas companheiras, ÁRVORES, esquecidas só por “estarem sempre ali”, dão agora de vaia, sob a batuta de um poeta maestro de Poemas Sinfónicos, dos silêncios gritantes que só alguns ousam e sabem escutar, Poetree está aí e recomenda-se!

Anúncios

nunca é demais repetir este poema do renato suttana – publicado pelo domador de sonhos há uns anos

tribunal

OS SANTOS

Os santos movem processos
contra o anjo mau dos excessos?

Levam (eles) à justiça
o demônio que te atiça?

Os santos pedem, coitados,
a ajuda dos advogados

e às orelhas dos juízes
vão dizer o que tu dizes?

Pedem (eles) ao bom Deus
cadeia para os ateus

ou que, à força de razão,
paguem a indenização?

E, se lhes falha a milícia
celeste, vão à polícia?

E farão no tribunal
se sentar o anjo do mal

e, depois, com ar contrito,
escutar o veredicto,

amarrando bem nas atas
os cadarços que desatas?

Os santos, de cara triste,
vão dizer que os extorquiste

e, então, levar-te – coitados –
à garra dos magistrados?

Renato Suttana

um poema e desenho de vasco câmara pestana

câmara

AS RUÍNAS, AS GAVETAS, OS MUROS

Citarei alguns pormenores das cidades arruinadas pelo fogo, pela passagem dos anos, e também pela ambição desmesurada dos homens.
Cidades que o desconhecimento nos mapas empresta a grandiosidade do inacessível.
A marca de uma suposta existência das casas num terreno agora vago e varrido pelas sombras sufocantes das encostas adjacentes e do vento. Erosão. O Belo. Nada mais.
Cinzas pairando sobre o quadrado penetrante dos alicerces vazios.
A Casa. O resplandecer de dias e dias consecutivos. A fadiga.
O olhar abarcando ingloriamente as ruínas, as gavetas, os muros.
Templos atulhados de aves pressagiosas. Corvos, gaivotas, milhafres rasgam com o bico a régua e compasso um Círculo Perfeito de Atrocidades. Sofrimento reconheço.
As noites sucedem-se. E fazem-se sentir no peso expectante de uma infinita ameaça !