DISCURSO SOBRE A REABILITAÇÃO DO REAL QUOTIDIANO

m-cesariny-01

no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno
e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço
e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma – ora ai está
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)
diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

Mário Cesariny

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“Manual de prestidigitação”, Assírio e Alvim, 1981

ana hatherly 1929-2015

ana hatherly 1929-2015

ana hatherly 1929-2015

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades”

"pela leonor verdura" imagem do espectáculo de "mandrágora" sobre a poesia esperimental portuguesa. com bruno vilão e iris santos. encenação de m. almeida e sousa

“pela leonor verdura” imagem do espectáculo de “mandrágora” sobre a poesia esperimental portuguesa. com bruno vilão e iris santos. encenação de m. almeida e sousa

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura
Vai formosa e não segura

CAMÕES

quando leonor pela manhã estava nua
acorda e sente essa verdura irmã da
formosura das fontes e da verdura
estende o pé e pisa o chão descalça
e treme de verdura pela formosura da
manhã primeiro jacto da fonte da verdura
seu pé descalço treme de frio como tremem
as faces da verdura abrindo suas bocas
à aragem fria da manhã segura como a
fonte segura da verdura da aurora e nua
como leonor fremente pela verdura e tão
formosa como a fonte que irrompe de
súbito como o dia estende o pé descalço
para fora do leito da fundura da noite
em que dormem as fontes a verdura a
formosura e leonor insegura ergue-se a
caminho pela verdura e na verdura colhe
formosura vai para a fonte nua

ana-h1 Ana-Hatherly2

Ana Hatherly

poemas e desenho de vasco câmara pestana

EM VIAGEM COM UM ENGENHEIRO NAVAL !
(a pensar talvez na Joana Pestana engenheira “naval” ( ! ? ) de profissão…)

Emblemático creio no Álvaro de Campos
com tacho ao lume num quarto da baixa lisboeta…
para a eternidade redimeste-te em efabulações épicas de transatlânticos
visitados num quarto (de que hotel?) da baixa
sobre uma inconfidente drogaria de esquina

E mais tarde lá para o fim da tarde
a vida a bordo descrevias em instântaneos poemas
ouvidos por amigos e irmãos
nas mesas dos Cafés do Degelos…

Ali para o Rossio
ou caminhando pela Rua do Carmo acima
parecia alto e fino
como uma espécie de vento o empurrasse
e uma marreca presentia-se de tão alto e fino

E ele o engenheiro naval
a lado algum teria chegado
e quanto a mares estamos falados só interiores
vistos de uma secreta escotilha
com um mar batendo
numa gutural ressurreição através de palavras
dos poemas

Penso que todos
os heterónimos de Pessoa são poetas ?
Ou estou enganado ? Só faltou reinventar-se piloto
de um hidrovião !

vasco-câmara
Estão os Hóspedes
Dos Hoteis Sobrenaturais !

Quem o escreveu foi um hóspede
Agora falta-lhe o ar
Depois de andar entre terras e gentes
Vê-se compositor de uma Suite
Barroca e Mineral !

Sarabandas ó Hóspede
Numa conexão espacial !

PARTI EM BUSCA DE FUTURO PARA O OESTE 
PORQUE TINHA NAS NARINAS O ODOR DA CAÇA !

A piedade é dominadora !
A agonia faz sarar as feridas !
Visões esvoaçavam atrás de mim nas ruas
E sei da raça secreta que me costuma entrar pela casa…
Interpreto este papel… !

Saí das vossas divagações
pois um vento subterrâneo faz rodar um catavento.
Explorei cataratas de rios
acabei a contar minhas aventuras
parti em busca de futuro para o Oeste !
E deixei por lá uma Anunciação !
Sou responsável pela elevação das estruturas muradas !

Eternidade errai pelas capas rijas dos livros
máquinas alucinadas !
Eu o louco, adivinhem o lobo na pele de outro indíviduo
quando em bandos pássaros descem para o Inverno
e não voltam !

Fica entre mim e os outros uma Zona de Ninguém
uma coutada de caça !

Não se encontrava nenhuma povoação
andam-se quilómetros sem encontrar um homem
vim-me refugiar neste “monte”
num lugar próximo da Penha !

Percorrida por fios azulados de Alta Voltagem
uma escrita despedaça-me os sentidos !
A frase tornara-se longa e insustentável !
Mas era tarde para eu parar
porque tinha nas narinas o Odor da Caça !

memórias —–> BOLS – poesia

revista/pacote de poesia ——> bols um projecto dos anos 60 <——– recordemos

o pacote

1-bols

do conteúdo poético (menu para hoje: antónio barahona da fonseca, josé alberto marques, álvaro neto, edgard braga, pirre garnier, pedro xisto, salette tavares, ana hatherly, antónio aragão e herberto helder )

antónio barahona

antónio barahona

josé alberto marques

josé alberto marques

álvaro neto

álvaro neto

edgard braga

edgard braga

pierre garnier

pierre garnier

pedro xisto

pedro xisto

salette tavares

salette tavares

ana hatherly

ana hatherly

antónio aragão

antónio aragão

herberto helder

herberto helder

num só voo

uma vontade enorme
a de voar

vergado sob a carga da vontade
mas já sem vontade nenhuma
ergue-se com um só pé
e
canta áreas de opera ao ritmo dos martelos
que pairam nos seus degradantes pensamentos

o abismo era pedra
e
o soalho aproximava-se
mais
mais
mais
e
mais

com um segredo no olhar
esfregou as pontas dos dedos na face enrugada
sorriu frouxamente
e
contornou os ossos

as formigas devoravam-lhe o estômago

degrau por degrau
desce a escadaria

em frente
deixa entreaberta a porta da revolta

que há para além da imagem?
perguntava-se envolto por sonos profundos.

o mundo foi revisitado por muitos olhos
e
pelos pensamentos que navegavam os lençóis

tudo converge directamente para o exterior

porque a vontade é enorme
a de voar

salto

em queda livre

mas

raízes – (algarve)

fotos de filipe da palma – recolha de imagem algarve

leio-me…

série-pe19

 

 

Leio-me nos outros pela palavra

Como arma de combate

 

Levo a água ao meu moinho

De velas que não tem.

A paz e as pás que me revolvem,

Desde a infância,

A água turva cujo fértil lodo

Amamenta a lezíria do meu sonho.

 

imagem de m. almeida e sousa – poema de manuel neto dos anjos

 

A ENGENHARIA DA MORAL

eu-ave

 

um aldrabão diz para o outro:
– oh sr doutor, o que é o psi20?
o doutor responde – é uma manobra!
– kum caraças! – exclama o aldrabão – e eu pensava que era alguma coisa da psique!
– aqui não há psiques – acrescenta o doutor – aqui time is money! não percebes nada de engenharia – time is money!… se não há time, não há money!
o aldrabão fica calado. pensa para si próprio que de facto o doutor tem razão.
– ah, se eu fosse tão inteligente quanto o doutor… já não precisava ser aldrabão… bastava ser engenheiro e não ter moral… sim… moral… a não ser que…
e vislumbra-se na sua mente uma ideia genial – hum! – se time is money… o que será a moral?
vira-se de novo para o doutor e pergunta: – oh doutor! quanto à moral… não se pode arpoveitar uma parte da engenharia e fazer com que a moral também seja money?… já que o tempo o é?

o doutor fica meio pensativo meio surpreendido com a conversa do aldrabão e decide esmiuçar o conceito por detrás de tal pensamento – moral is money! – até sôa bem! – o aldrabão até é capaz de ter razão… é um misto de engenharia e moralidade financeira!… um novo paradigma para os mercados, certamente!… o indício de uma nova era em que a moral vale alguma coisa!… moral 20, moral 50, moral 90, etc… afinal trata-se apenas de uma questão de quantificar a moralidade e passar a olhar para ela como quem olha para um expressivo gráfico de barras colorido… podemos até introduzir uma engenharia de conceitos como moral de sucesso!… moral plataforma!… moralidade exacta!… moral competitiva!… moral de mercados!… moral estatística!… moral efectiva!… moral soberana!… moral is money, sem dúvida…
o doutor vira-se para o aldrabão e diz: – oh engenheiro!… olhe que é capaz de ter razão!.. a moral é um nicho de mercado por explorar.

com isto o aldrabão fica surpreso a olhar para o doutor. afinal não é assim tão ignorante. tem ideias… que é o que falta no país… se desenvolvesse o projecto de forma inteligente até poderia vir a ser uma mais-valia: – um nicho de mercado ainda por explorar!… e decide não avançar muito com a conversa por enquanto… não vá o doutor plagiá-lo e dizer que foi ele quem criou o novo conceito e descobriu o nicho.

como quem não quer a coisa, muda de conversa e interpela o doutor:
– oh doutor!… o doutor já ouviu falar da dívida soberana?
– oh engenheiro… não sabe o que é a dívida soberana? – surpreende-se o doutor – a dívida soberana é tudo aquilo que nós temos!… é uma espécie de pecado original… quer dizer, já nascemos com ela!
– eh!… já nascemos com ela? – surpreende-se o aldrabão – como é que é isso?
– é fácil!… nós somos uma nação. a nação, como qualquer pessoa, tem dívidas… ora se a nação tem dívidas, nós também temos… há muito tempo… é mesmo assim!
– então… e para que é que serve a dívida soberana? – indaga o aldrabão.
– ora essa é boa oh engenheiro!… para que é que há-de servir?… para vender!
o aldrabão fica surpreendido. nunca tinha pensado nisso. tinha sido aldrabão toda a vida e a coisa tinha-lhe passado ao lado. pois é claro. é uma aldrabice perfeita, embora difícil de perceber a la prima. no entanto fácil de manobrar. faz-se mal entendido e questiona o doutor:
– então, mas… oh doutor!… e como é que se sabe quanto vale a dívida?… quero dizer, como é que a dívida tem valor?… e já agora, quem é que descobriu o nicho?
– qual nicho? – surpreende-se o doutor.
– o nicho da dívida soberana!
– ah… hum… isso… é já muito antigo… nem se sabe bem… devem ter sido os chineses, ou então d. joão v!… mas isso não interessa, o facto é que ela existe!… e se existe… absorve tempo… tendo tempo… vale dinheiro!… não é oh engenheiro?…
– ah claro!… time is money!… então, vende-se o tempo? – pergunta o aldrabão.
– isso mesmo. vende-se o tempo… o tempo é que é o money!… o tempo é que é o money! – exclama o doutor.
– entendi, entendi… mas, mesmo assim… afinal, como é que se sabe quanto vale a dívida?
– ora!… que pergunta!… oh engenheiro!… a dívida vale o que se deve e o que não se deve!… o resto é o juro!…
– jura?
– juro!
– ahah ahahah!… ri-se o aldrabão – parece perfeito!… então a mais-valia é o que não se deve?
– exacto!… o que vale money é o que não deve!… pois de facto o que se vende é o que não de deve!… por isso vale dinheiro, money… é tempo.

o aldrabão fica mais uma vez surpreendido com esta engenharia de conceitos abstractos que aparentemente se transformam em banalidades. apesar da crueldade… afinal é bem claro que a dívida soberana é uma espécie de pecado original e como todas as coisas que existem no tempo valem dinheiro-money.
mas isso é um nicho antigo… já gasto… pensa o engenheiro. o aldrabão quer é coisanova… como o nicho da moralidade que acabara de descobrir.
mantendo-se à defesa por causa do plágio do doutor o aldrabão dá por terminada a conversa.
– ora bem, oh doutor!… já aprendi alguma coisa útil por estar aqui a falar consigo. pode ser que a gente se venha a entender!… eu sou um gajo porreiro, e nunca aldrabei ninguém… sou um tipo com moral!
– o nicho! – exclama o doutor.
– ah!… shit!… – sem querer o aldrabão falou da moral e o doutor topou logo – não se esqueça do nicho!… – relembra o doutor.
– ah… sim… sim… o nicho!… pode ser que dê alguma coisa-nova… com o tempo, com o tempo…
e o aldrabão despede-se do doutor com um vigoroso aperto de mãos.
ambos convencidos acerca da moralidade não agendam sequer uma reunião.
sabem que estão feitos um para o outro… e quando o mercado da moral estiver no seu tempo, eles hão-de aparecer… cada um, a reclamar o seu nicho de moralidade.

[in TRILOGIA APOTEÓTICA, Antares Editores, Março de 2012 – álvaro de mendonça]