BALADA DA MADRUGADA

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Estou certo do que busco
e não volto atrás

Enrosco os pés nos cipós de fogo dos delírios
ficou o sol além dos arquivos
quero a companhia da madrugada
e dos exageros, soltos os pássaros da cólera

Enfio nos bolsos polvos e luas-fraturadas
alheio ao passado
oferto as flores da minha carne baleada
pois só quero viver no limite
arranco a alma com saca-rolha
ponho fogo no céu da boca e mato os beijos
é o fim dos anjos ninfomaníacos que cravam setas na orgia
rosnados revoltosos do motor

Porém, na madrugada levanto da cova
do telhado vibro a voz
ecoando nas crateras do lado escuro da lua
aonde as fogueiras provam: quem ama
procura o deserto,
sim, o olho vazado do mendigo ficou azul
para dizer: o céu não me quer por perto
mas é da minha sina: chego de surpresa
carregando guerras e saudades loucas na bagagem
como um tigre molhando o silêncio
no olho da caçada

ERICO ALVIM

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NOITE ALERTA

aves-1

arranco das veias abutres dementes
pelos caminhos tortos dou de cara na ferrugem do portão fechado
mensagens perdidas levam embora guantanameras ilusões
na sucumbência dos reinados criminais
porque a princesa se mostra messalina
e a navalha é podre
malgrado o homicídio obedeça agenda

estou vazio de sonhos demônios
mas nem por isso bebo chopp à beira-mar
amores arrependidos celebram amizades cafajestemente eunucas
escolho a incorreção do cachimbo e o vento gelado meu último amigo
diz a que veio mostrando o lado sombrio da terra do nunca
nada confesso a única herança deixo ao sol na canção derradeira

vilipêndios ecoam nos becos
aonde ando agora a nova ceita celebra mortes infames
voz nenhuma denuncia a grandeza do pobre
aonde ando agora que a noite é o único refúgio
aonde ando agora que a vaca foi p’ro brejo
não é da conta de quem perdeu brio e cobre
aonde ando agora
trabucos nas costas aniquilam aventuros
aonde ando agora na esgueira da última demora
meu vulto antagônico salpica brasas
na noite alerta da solidão que rosna

ERICO ALVIM