infrações – design

INFRACÇÕES OU O DESIGN COMO DENÚNCIA

O grupo Infracções criado por Luísa Coder e José Russell em 1987 traz como marca de nascença o de ser um projecto com um activo posicionamento ético, filosófico e político. Se procurarmos o significado de Infracção, iremos encontrar como sinónimos “transgressão”, “contravenção” e “desobediência” ou até mesmo “crime” e “delito”. Evidente é a matriz de contestação que caracteriza Infracções desde a sua génese. Como Luísa Coder e José Russell sublinham, o projecto nasceu de uma vontade de desenvolver um trabalho manifestamente experimental que partisse de ecléticas referências e recusasse qualquer ortodoxia estética ou cultural.

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INFRACÇÕES OU O DESIGN COMO DENUNCIA

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Obra após obra, vão exaltando uma atitude crítica e afirmativamente politizada, quase sempre associada a gestos de grande ironia e sentido lúdico. Criticam com frontalidade, ironia e mordacidade o excesso de consumismo, as falsas ideias de conforto e progresso, a falta de qualidade de vida, a desinformação causada pela publicidade e marketing… O alvo principal é a ideologia e o modelo económico capitalistas, geradores de um racionalismo economicista e de um consumismo gritante. Partindo de desperdícios industriais e de um trabalho que recupera o sentido da manualidade, procuram colocar a nu as consequências nefastas deste modelo de desenvolvimento (da produção à distribuição/consumo), nomeadamente a massificação, a opressão e a guerra, a criação de um batalhão de excluídos do sistema produtivo, a alienação e as clivantes desigualdades sociais. Para esta dupla, o design é indissociável da sua dimensão social, da sua capacidade transformadora da sociedade e do modo como pode concorrer para um futuro mais sustentável, igualitário e justo. Estamos assim perante um trabalho que se apresenta como uma alternativa aos ditames do modo de produção capitalista, guiado pelo lucro e pelo consumo. Opondo-se à natureza padronizada e monótona deste modelo, considerado gerador da padronização do próprio homem, respondem com uma atitude sistemática de resistência e desobediência. E fazem-no através de uma acção respigadora. As peças resultantes da reciclagem, construídas a partir de peças velhas, obsoletas ou fora de moda, recolhidas no lixo, na rua ou em depósitos de ferro-velho, trazem ao presente as memórias de épocas passadas e estilos diferentes. Com a (re)utilização de materiais e elementos pré-existentes da sociedade industrial, fazem renascer cada velho objecto encontrado, fazendo-o viver uma nova vida, em diálogo com tantas outras referenciais culturais. Ao faze-lo, reflectem sobre o tempo de vida de cada objecto e imprimem uma poética a cada proposta que assim transcende a (estreita) objectividade e funcionalidade do design, afirmando-se sobretudo enquanto mensagem. Face ao carácter impessoal dos objectos produzidos em série e à globalização da economia, estamos perante peças que procuram estabelecer com o utilizador uma ligação mais pessoal e intensa. Em última instância, cada peça apresenta uma alternativa a um mercado que dá sinais óbvios de esgotamento e é um exemplo de um diferente estilo de vida. O resultado é a transformação da natureza dos objectos comuns, que frequentemente adquirem uma certa performatividade, levando-nos a reflectir sobre o seu estatuto e dimensão. Cada objecto real torna-se matéria de dúvida e questionamento.

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“Respigar” é o termo usado por ambos para designar a reciclagem ou a recuperação de peças velhas, primeiro gesto em muitas das suas obras. Mas este termo pode e deve ser empregue não só para a sua obra enquanto designers, mas também e sobretudo para o seu olhar e atitude perante a vida e as coisas. Estamos, sem dúvida, perante dois respigadores urbanos contemporâneos. Esta atitude é tomada por preocupações éticas, pela indignação perante o desperdício dos excedentes da superprodução, pela procura de um modo de vida alternativo, pela consciência da necessidade urgente em reformar mentalidades e estilos de vida, mas também por prazer e hábito cultural. Luísa Coder e José Russell partem sempre do “real”, recuperando os “detritos”, “restos” e “sobras” da sociedade contemporânea, aquilo que os outros (todos nós) já não querem ou deixam para trás. Mas esses detritos não são apenas vestígios materiais da nossa sociedade. Eles respigam também imagens, sons e referências com os quais não nos queremos confrontar. É no âmbito deste gesto de recolha e denuncia que podemos ler a instalação vídeo “Blood Cast”. Não sendo artistas vídeo, nem possuindo qualquer formação nesta área, Luísa Coder e José Russell realizam uma obra que crítica o real, esse mesmo real que sempre enformou e continua a enformar o seu trabalho. E fazem-no sem pretensões artísticas ou cautelas formais.

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Todos os seus objectos são edições limitadas, (aparentemente) simples, mas com um forte impacto visual e evocativo. O poder destas propostas advém da sua estruturada significação, bem como do exercício de decifração que desencadeiam. A este propósito é da maior importância os títulos escolhidos. Eles são parte integrante de cada objecto e concorrem decisivamente para a sua leitura. A contundência e a afirmatividade das palavras fá-las serem ataques directos a uma série de problemas políticos e sociais. Nesta galeria, destacam-se por exemplo, “Bullet”, “Desorganigrama”, “as Barbies, as Cindies e os telemóveis delas” ou “Fuck 117”.  Recorrentes são também as referências ao cinema, à música e à banda desenhada, evidentes nas formas e designações de muitas peças, como “Asas do Desejo”, “Batman” ou “Blade Runer”, “Madona”, “Barbarela”, “The King of Rock&Roll” e “Marlowe”.

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As peças seleccionadas para a exposição FACTORY MANUFACTORY sublinham uma leitura do design que apela a uma alteração das mentalidades e a uma intervenção cívica mais activa que passa pela adopção de pequenos gestos que podem diminuir as disparidades sociais existentes. Ao longo da sua obra, Luísa Coder e José Russell questionam a ideologia do novo, restituem a cada objecto um valor cultural perdido, debatem a ideia de luxo, reinventando-o com notas de humor e absurdo, provocam a surpresa e valorizam a liberdade do gesto criador, fazendo do design uma acção de denuncia.
Bárbara Coutinho
Junho 2009

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