cadernos do Levante lançados em Olhão

DO LEVANTE

Enquanto a Serra sagrada do Algarve ardia, os animais sucumbiam ou fugiam, as famílias rurais lutavam com a guarda da República, defendendo bens mais que vidas, noutro Algarve dito o ”centro do mundo”, Olhão, terra de piratas honrados, reunia a tertúlia do levante na velha recreativa, vetusto bastião das memórias do simbolista João Lúcio e outras excelsas figuras do Algarve novecentista.

Viemos de Cascais, de Lisboa, de Cádis, Sevilha, do barlavento, … , viemos para celebrar o momento do nascimento de uns pequenos cadernos do LEVANTE que, doravante, trocam de mão em mão as vozes sussurrantes do fértil abandono.

Crédulos, apesar de tudo, que um grito colectivo pare a máquina, dois Manueis, um de Sousa e outro Neto de Santos fizeram soar o clamor sob onomatopeias e guturais sopros primordiais.

Inicio de novo canto resistente? Extintos os Marítimos! Os do Levante voltaram para perguntar: ainda há MAR?!

José Bivar (in “crocodarium” revista de Mandrágora)

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acordámos com o acordar do acordo & sempre em desacordo

bloco-tijolo

 o que queremos dizer hoje, depois da academia das ciências de lisboa ter promovido um colóquio intitulado “ortografia e bom senso”, é que acordamos sem no entanto discordar da “coisa”. isso… escrita
a coisa-escrita
para o efeito divulgaremos as fotografias do grande evento cultural e, só depois, reescreveremos “os lusíadas” em acordo com todos os acordos – e… em simultâneo
com quaisquer letras navegaremos a bordo de uma escrita ambígua, omissa e, porque não, lacunar. logo e, definitivamente, não estabeleceremos uma ortografia única e tão pouco inequívoca. o nosso percurso será – mesmo – outro
para o efeito consultámos o senhor ministro e também o cronista rui tavares para além do historiador rui tavares, o ex deputado rui tavares, o pensador-livre rui tavares e outros grandes cérebros da nação – ainda vivos
propomos, portanto, a defesa intransigente de um registo adequado à variante portuguesa e a todas as outras variantes (desde o minho ao algarve, do brasil a timor – sem esquecer o estreito de magalhães – espaço geográfico hoje colonizado pela língua castelhana)
tal acto implicará certo espírito conciliatório. e tal espírito, como será normal, virá a esclarecer que esse propósito não significa (jamais significará) rejeitar a nova ortografia. antes aprimorá-la ou expropriá-la das regras mais elementares da ortografia – retocá-la-emos com pincéis apropriados em determinados pontos – com o único objectivo de fixar a nomenclatura do vocabulário nos muitos dicionários da academia
importante será dar um (ou muitos mais) forte contributo para a sistematização de critérios e orientações, em prol de uma maior regularização e, em consequência, atingir uma escrita escorreita – aos lados, por cima e por baixo daquilo que entendamos correcto
em conclusão: as ideias expostas propõem, de facto, aproximar o escrevente ao uso de canetas de bicos achatados. só assim, a cultura nacional (logo ocidental) poderá subir às videiras e afirmar-se com uma escrita cada vez mais ao sabor-do-vento e um atento olhar sobre os nossos guarda-roupa para melhor suportar a pressão excessiva e, logicamente, arrancar tijolos dirigidos a quaisquer críticos do sistema

um quase manifesto (artístico/poético qb)

as casas roubadas deixam sempre os livros com tinta radioativa

para mudar a linguagem, necessário será – utilizar outros tipos de letra para uns, livros transparentes para os que gostam de ler e estabelecer ritmos internos, escrever regulamentos e manifestos com sangue, mergulhar com armas de fogo e escrever um poema e traduzi-lo (para línguas não usuais) várias vezes até que a obra flutue numa piscina infantil infestada de tubarões martelo
assim:…

“quando mudas de idioma, podes ler e definir rimas transparentes e, escrever regras ou manifestos. expressar-te num mergulho em rios ensanguentados. escrever com ou sem armas. escrever no corpo nu. traduzir piscinas de fogo, sem ser preciso usar livros flutuantes. fomos, sim, martelados pelos sonhos infantis dos tubarões” (1)

ou ainda:…

“quando mudas o linguajar, poderás ler ou definir todas as causas – mesmo as mais nuas. mesmo as que invadem a tua transparência. mesmo as que disparam regras – ainda que internas. então escreves sangue, fogo, arma e, mudas de vida como livros estrangulados – os que flutuam nas piscinas para domesticar os sonhos de tubarões martelados por crianças” (2)

pés-frasco

começámos
ou não começámos
não será (nunca) essa a questão
a questão é outra e é nobre
mas não devemos – decididamente – ter água nas asas e tão pouco deixarmo-nos seduzir pelo mundo que nos cerca
temos de satisfazer algumas necessidades aristocráticas no que toca ao conforto e, trazer à tona mais desordem e a ilusão que, muitas vezes, nos invade
há que escrever cada palavra de um longo poema – ao acaso – em autocolantes (ou nos tradutores automáticos que invadiram o nosso quotidiano e traduzi-los várias vezes). para que, depois, possamos colar a coisa nos carros estacionados na nossa rua
para o efeito, podemos usar linhas d’água como versos, pisos como estrofes, árvores como sonetos e, senhas-refeição (fora de prazo) para uma entrada triunfal na ópera de milão
há os que argumentam ser, estas propostas, ousadas ou mesmo notoriamente desequilibradas e, assim, virem a tornar-se – provavelmente – objectos passíveis de provocar tumultos, gestos obscenos, gritos, pragas ou outras quaisquer maldições
os autores de tais acções correm (sempre) o risco de que os espertos na crítica literária considerem o seu trabalho como lixo – claro que não será grave uma vez que o lixo é, muitas vezes, um luxo e haverá sempre um escriba disponível para carregar o fardo da verdade institucional

compilar listas de linguagem corporal ambígua pode ser importante para o criador destas acções poéticas – uma vez que nunca se sabe da possível presença de outro operador estético portador de uma navalha (no bolso) ou mesmo de um anúncio gratuito visível na internet. será sempre importante tirar fotos dos actos individuais ou colectivos para que possam ser inseridas em mostras mais ou menos provocadoras – nunca descartar a hipótese de utilizá-las em planos de publicidade com velhas lâmpadas néon

nós optamos por soletrar textos construídos pela via do processo de foto-colagem nas paredes do estúdio e/ou também na estrutura do livro em processo – de acordo com os sonhos projectados ou pintados no divã

nunca construímos réplicas mesmo que vestidas. somos pelo nu original – ainda que em pedaços, ainda que gravado. as nossas obras estão organizadas por graus (de insignificância) uma vez que os nossos arados esgatanham estéticas amargas – as que provoquem o desapontamento de lápides fúnebres – muitas vezes, perscrutamos odores artísticos. os mais obsoletos
escrevemos a itálico (inclinado para a esquerda – sempre para esse lado) sobre folhas de papel alongadas, as frases do momento em que a história fez sentido. é por isso que alimentamos o papel com tinta, com manchas de café, com o terminal de fax e, com a impressora que abraça o ordenador com os cabos – as extremidades desses cabos, penetram (com algum prazer) as máquinas, formam uma espécie de cinto que tortura e cobre superfícies – apenas para que se sinta o ritmo das palavras em queda (sobre as pedras da calçada). por vezes prodigalizamos o enterrar letras em frascos para que as suas células germinem – como colmeias de palavras – que expressam todas as idas e regressos das sobremesas – as que deliciarão as gerações vindouras
a questão que se põe (a seguir) passará pela escolha dos bolsos. num deles está o porta-chaves, no outro uma navalha. com o porta-chaves abrimos o nosso estúdio, com a navalha cortamos um naco de pão que nos permitirá manter o encanto de um jantar frugal
todos os dias removemos torres. as que cimentam a nação. com tal tarefa, impediremos que essas construções matem a palavra que esvoaça (quer esvoaçar) em liberdade
sem muros, criaremos colagens-cadáver. escreveremos em todos os rodapés da casa e, em seguida, desenharemos paredes forradas de letras tão só para soletrar os muitos tons de pele pastosa infestados de frases que aquecerão os invernos dos próximos seres da nossa espécie

escrevi, na língua, a poesia falada nos recantos do velho bairro
escrevi, nos minutos que se cruzam, quadrados traçados
foi à noite
e
de manhã…
escrevi, nos cabelos, poemas incrustados de goma e parafusos
e
assaltei a iluminação urbana

só depois, vomitei megafones para reproduzir fotografias sepia
e, com tochas de butano, queimei imagens sagradas – claro que as fotografei
para que se pudessem prenunciar em conferência
para que fornecessem as instruções precisas
para que gerassem obras de arte

as mãos estão soldadas a placas comemorativas de latão
e tu, portador de certa importância filosófica, transportas contigo o teu velho guarda-chuva disfarçado de sarcófago voador

“escrevi poemas no canto dos meses
escrevi minutos crucificados
na noite
e
em todas as manhãs
escrevi cabelos nas gengivas
e mergulhei nos fogos da cidade

muito depois disso, impermeabilizámos os livros
e
fotografámo-los com rosas apodrecidas nos moinhos de vento
queimei o cachecol – e pensei. e falei. e reuni
tudo estava (ou parecia) certo

então, as mãos associaram-se a memórias de outras memórias
e tu, transportando as economias filosóficas que arrecadaste, tiveste tempo para devorar os antepassados em caixões carregados por negros guarda-chuvas” (1)

______________

(1) o texto base foi traduzido pelo google-tradutor 5 vezes (em línguas que não utilizam alfabetos latinos) antes de voltar à língua original – neste caso o português

(2) o texto base foi traduzido pelo google-tradutor 6 vezes (em línguas que utilizam alfabetos latinos) antes de voltar à língua original

nota: apenas foram optimizadas expressões e/ou trechos de forma a criar alguma harmonia poética

um plágio (bem feito)

— és poeta
perguntaste
— um plagiador
respondi

— plagiei todos os poetas que li
naveguei o único poema que a(ssa)ssinei

um poema-cavalo-branco a galopar nas minhas veias
a ensaiar saltos-precipícios

um poema-sexo-lâmina-de-duas-faces
um poema-em-fuga (foge todas as noites da minha cama para foder com outros)

uma masturbação (como muitas outras)

sanitário

— és poeta
perguntaste
eu, vazio de lembranças, assolado pelas consternações do teu corpo despejado (a esmo) nos lençóis, encalhado nas ruas de barcelona, sem música, sem geografia, sem ir à horta onde as raízes pensam e o vinho escorre por entre

fábulas de almanaque…

eu que não existo

mesmo antes de estar morto, não existo

só disse
— tu… há muito que dormes comigo. na minha cama. tudo começou muito antes de te conhecer.
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer – fui surpreendido pela arquitectura do teu corpo-prazer-ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio – que me mantém vivo

sem vestígios de arrependimento

— és poeta
perguntaste
e eu…
só disse
— os malditos espreitam canções impossíveis. entregam os braços ao espelho da hipocrisia para não interromper os devaneios da tua boca

e, aos portadores de bandeiras, adiantei

— num campo nublado devemos reclamar a nossa capacidade

de amar

sem bater os calcanhares

rodemos em torno de nós próprios…

disparemos a revolta

incendiemos a praia numa dança

sonhemos horizontes de pássaros nos ombros

praguejemos

mergulhemos na doce e desejada decomposição do quotidiano

e

no chão dos sonhos

sintamos o soprar do vento que nos queima a pele

o loiro vento dos mortos fez ninho nas planícies do teu peito

quero descansar nas ruínas do maldito império
enamorar-me do rio que as atravessa
casar com ele

passearemos por entre as velhas pedras
os nossos véus de noivado (negros) serão suportados por dois adolescentes
ele de marinheiro
ela desnuda

sou, todo eu

um plágio

uma janela aberta por onde transparecem milhares de imagens roubadas

premeditadamente

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à mesa do café gelo – 1972

(foi publicado numa revista no algarve – completamente degradado)