beba (poema de renato suttana)

vinho

BEBA

Beba o vinho do presente
e ache a porta, ache o caminho:
encontre o modo — excelente —
de ir mais árduo, de ir sozinho.

Beba o álcool de ser agora
o inacessível da Altura,
de ser o instante, ser a hora,
ser o contorno e a figura.

Beba. E esqueça o enfado de ontem
e os monturos do talvez,
que à sua frente despontem,
que não bastam desta vez.

Beba o vinho do presente,
como um dom do esquecimento,
que ocupa o espaço da mente –
e é distância e pó no vento.

(RS – para MAS)

a língua portuguesa é, de facto, muito complicada – ora vejam…

ao que parece grupos de direita, em s. paulo – brasil, manifestaram-se contra a presidente dilma batendo panelas… a extrema direita sul americana gosta de bater panelas… pois.

tendo em conta o facto, resolvemos inserir no “gripe das aves” algumas imagens retiradas >> daqui  << para além de um belo soneto do nosso colaborador renato suttana inspirado numa das notícias – não mais dizemos par evitar polémicas desnecessárias ou… que sejamos acusados de “politicamente incorrectos” ou, ainda, de homofóbicos…

tijolaço 1 tijolaço 2 tijolaço 3

PANELEIRO SOLITÁRIO

Imitando o Menino Maluquinho,
com a panela a cobrir o entendimento,
lá fui acompanhar aquele evento,
ao qual compareci, bravo e sozinho.

Faltou ovo (se viu) naquele ninho
onde não choca o tal do impedimento.
(E “meuzovo” me dói no pensamento,
fazendo da gramática um moinho.)

Só máscara não basta; e a própria Folha,
que lá esteve, a buscar melhor assunto,
não tem como soprar aquela bolha.

Aonde foram os outros? — me pergunto,
parado aqui, como um futuro artista,
enquanto este repórter me entrevista.

(RS)

bicicletas I – poemas de renato suttana (imagens de m. de almeida e sousa)

bicicleta-008

BICICLETAS (I)

são aparelhos que usamos
para voar são cordas
são remédios que tomamos à noite
antes de adormecer
são frutas caçarolas sirenes
que colhemos à tarde gárgulas
ao pé das grandes árvores pejadas
são os cabelos de Maria os olhos de Maria
os dois seios de Maria e os seios das outras
são instrumentos com que medimos o tempo
com que medimos o espaço também
com que calculamos a quilometragem dos pássaros
são folhas brotando das formigas asas crocodilos
que ainda sonham dinossauros
o estrume dos elefantes a mosca e o cacto
os dentes postiços do avô
que não os tira para rezar

Bicicletas são os teus pensamentos
quando se encontram com os meus
nalguma esquina de julho.

bicicleta-004

BICICLETAS (II)

bicicletas
para medir estrelas
para medir o roxo
a rosa do deserto
a fome

teu coração atravessa o país
numa velocidade de luz
vem construir no meu quintal uma paz
que reúne outubro resgata
as estruturas de outubro numa pequena forma
que não é vidro nem carrossel
mas é prazer espuma salto
coisa que se leva para casa
sono que se leva para a noite
a noite

bicicleta-012

BICICLETAS (III)

Ainda cantam
as bicicletas?

Ainda se usam
as bicicletas
como aparelhos de produzir música
como ônibus como aviões
como torres?

Ainda existem bicicletas
em vossos cérebros
em vossas veias
em vossos pensamentos de cada dia
em vossa métrica
em vosso gozo?

Enquanto comeis o pão
enquanto bebeis o vinho
ainda pensais em bicicletas
ainda pedalais vossas bicicletas
quando vos dedicais ao amor?

Como se explica
que as bicicletas ainda habitem as vossas vozes
ainda saltem de vossos cabelos
e jorrem de vossos olhos
quando ides à farmácia
comprar o vosso suprimento diário
de sobrevivência?

bicicleta-001

BICICLETAS (IV)

Bicicletas
não são casas
não são íntimas
não são de água

(Uma bicicleta de água
te faria chover
sobre a Tailândia)

Não são luas
não são axiomas
não são beijos
não são asas nem pássaros

(Uma bicicleta
que tivesse asas
te levaria
para o outro lado do mundo)

Não são vidros
não são de álcool
não são árvores
não são pedras

(Uma bicicleta de pedra
te manteria em silêncio
por pelo menos dez anos)

“Como conquistar a eterna bem-aventurança?…

hugo ball e emmy hennings

hugo ball e emmy hennings

“Como conquistar a eterna bem-aventurança? Dizendo Dadá.

Como ser célebre? Dizendo Dadá.”
(Hugo Ball)

Digo (ou grito) Dadá e deito-me na cama
disposto a conquistar a bem-aventurança
com um pé descalçado e uma mão sobre a pança
com um olho fechado e o outro que se derrama.

Pronuncio Dadá como quem já se inflama
como quem sobre um crespo oceano se balança
como quem não perdeu o estilo ou a confiança
e salta para a rua e não sucumbe ao drama.

Cheio de uma emoção que muito certamente
não vem de ser verão ou de eu estar somente
deitado a me lembrar do vento que cessou

pronuncio Dadá com cuidado e minúcia
sempre atencioso às sutilezas da pronúncia
(pois me falta a ventura e célebre não sou).

(Renato Suttana)

guarda chuva

chuvas

os homens que usaram guarda-chuvas
como para-quedas
foram os mais sábios
os que usaram guarda-chuvas como asas
foram os mais hábeis
os que usaram guarda-chuvas como rodas
como automóveis como lanternas
como poltronas
foram os mais valentes
os homens que usaram guarda-chuvas
como bisturis
foram os mais nobres e os mais belos.
os guarda-chuvas se abrem como flores
quando todas as tardes de janeiro.

renato suttana

nunca é demais repetir este poema do renato suttana – publicado pelo domador de sonhos há uns anos

tribunal

OS SANTOS

Os santos movem processos
contra o anjo mau dos excessos?

Levam (eles) à justiça
o demônio que te atiça?

Os santos pedem, coitados,
a ajuda dos advogados

e às orelhas dos juízes
vão dizer o que tu dizes?

Pedem (eles) ao bom Deus
cadeia para os ateus

ou que, à força de razão,
paguem a indenização?

E, se lhes falha a milícia
celeste, vão à polícia?

E farão no tribunal
se sentar o anjo do mal

e, depois, com ar contrito,
escutar o veredicto,

amarrando bem nas atas
os cadarços que desatas?

Os santos, de cara triste,
vão dizer que os extorquiste

e, então, levar-te – coitados –
à garra dos magistrados?

Renato Suttana

um soneto de renato suttana

Urubu-1

O PRÍNCIPE E A IGNORÂNCIA

Em mais uma entrevista, incomparável,
o Príncipe me chama de ignorante.
Diz ser uma atitude de tratante
ir pedir voto ao pobre e ao miserável.

E mais: que por essência, inconsignável,
esse eleitor não sabe do bastante
e vota às cegas, como se, tateante,
palmilhasse na treva impenetrável.

Lendo a ‘Privataria’ e a ‘Operação’,
entendo o que ele diz, e me aventuro
a sugeri-los a quem vai no escuro;

pois quem os lê, se o próprio juízo o aguça,
no Príncipe e na sua agremiação
não põe sufrágio nem que a vaca tussa!

(RS)