da poesia de Joaquim Morgado

SOU FACTOTUM DA RAINHA

 

Sou factótum da rainha
De sinhàzinha criado
Sou da moça servidor
Da mulher sou impedido

Como um soldado ou um rei
De uma princesa estrangeira
De uma nobre prisioneira
Sou de uma deusa guerreiro
De uma louca carcereiro
Escravo e senhor de uma fêmea
Desse encanto alucinante
Penhorado delirante
Ofuscado no esplendor
Amante adão prisioneiro
Do seu amor companheiro
Sou um servo cumpridor.

 

Nunca discuto o encanto
De tão louco encantamento
Tão esplendorosa raiz
Tão linda é minha rainha
Boca olhos e nariz
E sobrancelhas
Todo o seu rosto sorri
Seus olhos rindo
Os lábios
A testa o queixo as orelhas
Tudo brilha de alegria
De um brilho que queimaria
Milhões de milhões de sóis
Queimariam de querer
Continuariam a arder
E não brilhariam tanto.

 

negra

A MINHA PRETINHA TEM

 

A pretinha tem as pernas
E entre as pernas tem o sol
Tem umas bocas que faz
Quando lhe dá mais vontade
O corpo todo lhe treme
E a pele do corpo tem
Uma doçura que toca
Sem que pareça tocar
Os seus lábios sabe dar
Esticados para a frente
Como que q’rendo pegar
Agarrar o mundo ardente
Inteiro naquele esgar
Que pede… que quer beijar
E então beija alegremente
Beija tanto e faz tão bem
Beijando sofregamente
Não meus lábios mas também
A minha língua as bochechas
Por dentro da boca aberta
E do interior da carne
Chama-me a carne p’ra dentro

– faz delirar

Toda a carne me sufoca
O sangue ferve nas veias
Como a lava de um vulcão
Dá vontade de engolir
Aquele corpo suado
Aquele suor salgado
Todos os líquidos sãos
Que da buceta lhe correm
Sabem a Índias a mar
Sabor de especiarias
Cheira-me a caril vermelho
O entre das suas pernas
Onde no fundo das pernas
Tem o mundo tem o sol
E no sol que encanta o mundo
Tem um laço envidraçado
Que a minha boca comove
E o meu laço faz ousado.

 

O VERSO GALHO

 

Quarenta versos direitos
E um catuto verso galho
Que fazem estreitos perfeitos
Os caminhos do caralho.

 

Quarenta versos inteiros
De santa verdade insana
De saúde e de prazer
De uma tesão desumana
Que tresloucada chegando
Se entre dentes devorando
Duas loucuras irmana.

 

De tesão ser um ou uma
Não chega a ser necessário
Verificar a pureza
Consultar o dicionário
A litúrgica mensagem
Pode ser na sua imagem
Da doutrina o seminário.

 

Não chega a ser português
O tesão da brasileira
Nem brasileira a tesão
Que do português se abeira
Só fica acesa e se inflama
Do espírito puro a chama
Que o mundo quer que se queira.

 

Essa minha pitonisa
Que se besunta de azeite
Que se unta que se unge
Mar de sonhos e deleite
Que longinquamente ruge
Que goza e grita de noite
E do mais fundo dos olhos
Com que transida me olha
Exala luz.

 

Dança torpe o verso galho
Nos pensamentos vadios
Nos tão clamorosos cios
Que deixam a alma puta
Fazem-me ao peito agasalho
As ganas com que me chupa
A cabeça do caralho.

 

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