o meu país

bandeira

 

 

o meu país é a lei da aparência
uma simulação ateada nos corredores da política
com a inspeção em dia certificada
pelos agentes do mercado financeiro
neste tempo em que todos os problemas
boiam entre a merda da culpa em que vivemos
acima das nossas possibilidades

 

o meu país é onde eu nunca andei de submarino
onde as novelas ensinam que há patrões e empregados
para que o cidadão pequenino do meu país perceba
que deus põe sempre a mão por baixo

 

o meu país é um país moderno
é um país que abraçou a união e o progresso
com vários políticos muito bem sucedidos
e muitos e bons empreendedores activos
e eu tenho muito orgulho no meu país
que é muito livre e democrático

 

o meu país é o país onde se diz
que há falta de liberdade de expressão
quando se manda calar um criminoso

 

o meu país é uma caldeirada
leva pouco peixe e muita batata

 

o meu país é o da turma da gravata
onde há vergonha de cantar o que nos mata

 

o meu país é onde é necessário
trabalhar mais e receber menos salário
onde é preciso pagar tudo mais caro e aguentar
porque os heróis são aqueles que mais aguentam
em nome do bem e da virtude que é
viver assim num país feito de miséria

 

o meu país é o país dos quatro efes
fado futebol fátima e que se fodam
aqueles que não aguentam a austeridade boa

 

o meu país é uma questão de família
o pai a pátria o partido
estás aqui e aguentas porque és preciso
vais trabalhar uma vida e ser enterrado vivo
mas descansa que é o céu e p’rós teus filhos
hão-de vir os filhos deles p´ra lhes mostrar o caminho

 

o meu país é uma fronteira que arde sem se ver
que é funda e que dói e não se sente
pois p’ra sentir é preciso ser mais que gente
que ganha roubando dizendo que tem de ser

 

o meu país é o que trago vestido
é o sono que não tenho dormido
a chuva ácida que dissolve as cidades
o flagelo da consolidação a factura
que declara o imposto

 

o meu país é aquilo que eu não posso ser
porque ser feliz agora seria contrariar
o psi 20 o preço da gasolina e as promoções
com que os jerónimos martins ajudam o pobrezinho

 

o meu país é o que exporta as pessoas
que não conseguem pagar a sua vida

 

o meu país é o do trabalho
onde a vida é mercadoria p’ra vender ao desbarato

 

o meu país é o da esperança
onde qualquer puta dança ao som do bom dinheiro

 

o meu país tem uma voz
a que está hoje nas ruas do meu país inteiro

 

joão bentes