da poesia de renato suttana

quando o incêndio….

fogo

Quando o incêndio começar

é para a porta

que deves te dirigir

Não penses na deliciosa nudez

da tua noiva

no teu setembro chuvoso

no teu castelo

de nuvens

nos teus gerânios

nos teus pratos nas tuas

abotoaduras nos teus

caminhos de Santiago

nas tuas meias nos teus pratos

nas tuas aventuras sexuais

nos teus gerânios

nas tuas

realizações mais expressivas

no livro que não chegaste

a ler na tua gota

nas tuas calças

nos teus amigos no teu

castelo de nuvens

nas tuas abotoaduras

nos teus irmãos

no que não perdeste

nas tuas asas nos

teus amuletos

nas tuas abotoaduras

nas tuas irmãs

no teu jardim

no teu desejo

de ir à Grécia na tua

raiva no teu relógio

no teu grito

É pela porta

que deves sair

quando o incêndio começar.

 

este poema de renato suttana foi publicado em “bicicleta” nº 10

fumar es un placer….

os “ex” são sempre “ex” e não mais que “ex”… subdivididos, claro está, em grupos específicos.
o grupo de “ex” mais vulgar, o mais conhecido, é o dos ex-fumadores. todavia os outros “ex” apresentam características similares – todos eles travam, ou estão empenhados em travar, uma luta titânica contra o mal.
e o mal é, sem dúvida, aquilo que eles foram antes de se tornarem aquilo que os enche de orgulho – uns “ex”.

o ex-fumador, por exemplo, apresenta uma característica invulgar: o olfato.
o olfato apurado do ex-fumador é algo espantoso.
se há alguém a fumar no passeio (frente à casa onde reside) o “ex” sentirá, por certo, o cheiro do cigarro num dos quartos interiores… e, é bem capaz de sair porta fora, dirigir-se ao primeiro transeunte que exiba um cigarro entre os lábios e, sobre o “infeliz”, despejar a sua cólera.

o ex-fumador (típico) recusa sempre, mas sempre, uma boleia no carro de um fumador e se, por acaso, vai a uma festa ou a um bar onde haja quem fume… tudo se torna mais complicado – o ex-fumador, durante uma semana ou mesmo um mês reclamará, de forma sistemática, que o cabelo e a roupa cheiram a fumo.

ainda que haja vários tipos de “ex”, todos apresentam características comuns:… todos se consideram superiores, vencedores, exemplos de uma moral elevada, melhores (muito melhores) que aqueles que não aderem ou aderiram à sua causa… os outros.
e os outros são os viciados, os fracos, os derrotados e, logicamente, incapazes /  medíocres.
para o “ex”, todo e qualquer “ex”, os outros são os inimigos a abater. os outros são tão só marginais. logo há que os denunciar – caso recusem o bom caminho.

aves-cigarros

há, portanto, várias subespécies de “ex”.
o estatuto de “ex” não se confina aos ex-fumadores.
podemo-nos cruzar na rua com um ex-maoísta, um ex-stalinista, um ex-comunista, um ex-socialista, um ex-trotskista ou até um ex-anarquista…  que, por artes mágicas, se transformaram em cidadãos exemplares. 
enfim, o espetro político nacional está repleto de bons e menos bons exemplos – basta  consultar as redes sociais e os blogues que por aí proliferam…
podemos ainda constatar a existência de ex-ateus, ex-católicos e dos impagáveis “neo”evangélicos…
precisamente. uma praga.

um “ex” é simplesmente um “ex” e não mais que um “ex”.
um “ex” jamais poderá perder a oportunidade de se exibir com inflamados discursos ou escritos (frente aos amigalhaços ou… aos seus inúmeros heterónimos e pseudónimos que, à socapa, enchem espaços com deliciosos comentários nos blogues).
com efeito, o “ex”, tem de cumprir o ritual de forma a que os outros tomem conhecimento dos seus méritos.

cumprir a tarefa é obrigatório…
e a tarefa será desancar, arrasar, denunciar (precisamente) todo aquele que se aventure aconchegar um cigarrito entre os lábios.

… disse-me que sim!?

“A fumaça disse-me que sim” é um monólogo escrito e encenado por Manuel Almeida e Sousa e interpretado por Cláudio Henriques.
O ambiente sonoro é o resultado de uma experiência em estúdio de Ricardo Mestre.

 

tudo podia começar assim, mas não. 
a cena representa um espaço rectangular flanqueado por enormes lápides, alinhadas e apoiadas sobre um muro lateral… não demasiado alto. 
as da esquerda, brilhantes e metálicas; 
as da direita, de um leitoso branco marmóreo.
no passeio central, fragmentos de ossos e uma cadeira onde estou sentado a fumar este cigarro
há um jornal no chão. 
já o li. 
esse jornal possui o gérmen da luz… 
é uma semente que, para frutificar… terá de morrer. 

“A fumaça disse-me que sim”, retrata estados (vários) de uma personagem masculina que se perde (e se encontra) no absurdo. A paixão, o desejo e o prazer são alguns dos sentimentos com que a figura joga em palco. Um jogo em cena que o transporta a um estado de quase desespero. O ridículo e o “sem sentido” das situações, marcam uma presença constante no percurso da acção que se pretende teatro 

foram vocês que escreveram a mensagem na tampa da caixa? não percebi nada… mas pode ser que sim. que tenham alguma sorte…
de qualquer forma deixarei a caixa “destampada” para que possam respirar melhor…

 

 

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA 

Produção:Mandrágora e Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul

Interpretação:Cláudio Henriques

Encenação e texto de Manuel de Almeida e Sousa

Sonoridades: Ricardo Mestre

Iluminação: Tiago Pereira

“mensagem” do actor Ruy de Carvalho

ruy-carvalho

 

com alguma surpresa lemos esta mensagem que nos chegou via mail. o actor ruy de carvalho assina o texto que tomamos a liberdade de divulgar aos nossos seguidores

 

Senhores Ministros: 

 

Tenho 86 anos, e modéstia à parte, sempre honrei o meu país pela forma como o representei em todos os palcos, portugueses e estrangeiros, sem pedir nada em troca senão respeito, consideração, abertura – sobretudo aos novos talentos -, e seriedade na forma como o Estado encara o meu papel como cidadão e como artista. 

Vivi a guerra de 36/40 com o mesmo cinto com que todos os portugueses apertaram as ilhargas. Sofri a mordaça de um regime que durante 48 anos reprimiu tudo o que era cultura e liberdade de um povo para o qual sempre tive o maior orgulho em trabalhar. Sofri como todos, os condicionamentos da descolonização. Vivi o 25 de Abril com uma esperança renovada, e alegrei-me pela conquista do voto, como se isso fosse um epítome libertador. 

Subi aos palcos centenas, senão milhares de vezes, da forma que melhor sei, porque para tal muito trabalhei. 

Continuei a votar, a despeito das mentiras que os políticos utilizaram para me afastar do Teatro Nacional. Contudo, voltei a esse teatro pelo respeito que o meu público me merece, muito embora já coxo pelo desencanto das políticas culturais de todos os partidos, sem excepção, porque todos vós sois cúmplices da acrescida miséria com que se tem pintado o panorama cultural português. 

Hoje, para o Fisco, deixei de ser Actor…e comigo, todos os meus colegas Actores e restantes Artistas destes país – colegas que muito prezo e gostava de poder defender. 

 

Tudo isto ao fim de setenta anos de carreira! É fascinante.

Francamente, não sei para que servem as comendas, as medalhas e as Ordens, que de vez em quando me penduram ao peito? 

Tenho 86 anos, volto a dizer, para que ninguém esqueça o meu direito a não ser incomodado pela raiva miudinha de um Ministério das Finanças, que insiste em afirmar, perante o silêncio do Primeiro-Ministro e os olhos baixos do Presidente da República, de que eu não sou actor, que não tenho direito aos benefícios fiscais, que estão consagrados na lei, e que o meu trabalho não pode ser considerado como propriedade intelectual. 

Tenho pena de ter chegado a esta idade para assistir angustiado à rapina com que o fisco está a executar o músculo da cultura portuguesa. Estamos a reduzir tudo a zero… a zeros, dando cobertura a uma gigantesca transferência dos rendimentos de quem nada tem para os que têm cada vez mais. 

É lamentável e vergonhoso que não haja um único político com honestidade suficiente para se demarcar desta estúpida cumplicidade entre a incompetência e a maldade de quem foi eleito com toda a boa vontade, para conscientemente delapidar a esperança e o arbítrio de quem, afinal de contas, já nem nas anedotas é o verdadeiro dono de Portugal: nós todos!

É infame que o Direito e a Jurisprudência Comunitárias sirvam só para sustentar pontualmente as mentiras e os joguinhos de poder dos responsáveis governamentais, cujo curriculum, até hoje, tem manifestamente dado pouca relevância ao contexto da evolução sociocultural do nosso povo. A cegueira dos senhores do poder afasta-me do voto, da confiança política, e mais grave ainda, da vontade de conviver com quem não me respeita e tem de mim a imagem de mais um velho, de alguém que se pode abusiva e irresponsavelmente tirar direitos e aumentar deveres.

É lamentável que o senhor Ministro das Finanças, não saiba o que são Direitos Conexos, e não queiram entender que um actor é sempre autor das suas interpretações – com diretos conexos, e que um intérprete e/ou executante não rege a vida dos outros por normas de Exel ou por ordens “superiores”, nem se esconde atrás de discursos catitas ou tiradas eleitoralistas para justificar o injustificável, institucionalizando o roubo, a falta de respeito como prática dos governos, de todos os governos, que, ao invés de procurarem a cumplicidade dos cidadãos, se servem da frieza tributária para fragilizar as esperanças e a honestidade de quem trabalha, de quem verdadeiramente trabalha.

Acima de tudo, Senhores Ministros, o que mais me agride, nem é o facto dos senhores prometerem resolver a coisa, e nada fazer, porque isso já é característica dos governos: o anunciar medidas e depois voltar atrás. Também não é o facto de pôr em dúvida a minha honestidade intelectual, embora isso me magoe de sobremaneira. É sobretudo o nojo pela forma como os seus serviços se dirigem aos contribuintes, tratando-nos como criminosos, ou potenciais delinquentes, sem olharem para trás, com uma arrogância autista que os leva a não verem que há um tempo para tudo, particularmente para serem educados com quem gera riqueza neste país, e naquilo que mais me toca em especial, que já é tempo de serem respeitadores da importância dos artistas, e que devem sê-lo sem medos e invejas desta nossa capacidade de combinar verdade cénica com artifício, que é no fundo esse nosso dom de criar, de ser co-autores, na forma, dos textos que representamos. 

Permitam-me do alto dos meus 86 anos deixar-lhes um conselho: aproveitem e aprendam rapidamente, porque não tem muito tempo já. Aprendam que quando um povo se sacrifica pelo seu país, essa gente, é digna do maior respeito… porque quem não consegue respeitar, jamais será merecedor de respeito!

 

RUY DE CARVALHO