NOITE ALERTA

aves-1

arranco das veias abutres dementes
pelos caminhos tortos dou de cara na ferrugem do portão fechado
mensagens perdidas levam embora guantanameras ilusões
na sucumbência dos reinados criminais
porque a princesa se mostra messalina
e a navalha é podre
malgrado o homicídio obedeça agenda

estou vazio de sonhos demônios
mas nem por isso bebo chopp à beira-mar
amores arrependidos celebram amizades cafajestemente eunucas
escolho a incorreção do cachimbo e o vento gelado meu último amigo
diz a que veio mostrando o lado sombrio da terra do nunca
nada confesso a única herança deixo ao sol na canção derradeira

vilipêndios ecoam nos becos
aonde ando agora a nova ceita celebra mortes infames
voz nenhuma denuncia a grandeza do pobre
aonde ando agora que a noite é o único refúgio
aonde ando agora que a vaca foi p’ro brejo
não é da conta de quem perdeu brio e cobre
aonde ando agora
trabucos nas costas aniquilam aventuros
aonde ando agora na esgueira da última demora
meu vulto antagônico salpica brasas
na noite alerta da solidão que rosna

ERICO ALVIM

3 poemas de renato suttana – 3 imagens de m. almeida e sousa

série-pe13

Que tolice esta tarde,
com os cajados e os corvos,
com as surpresas da pedra
e o azul das distrações.

Que estúpida esta voz
que escutamos, devotos,
já quase acreditando
que há de chegar a carta.

(E são só engrenagens –
pássaros-engrenagens –
esses pássaros cegos
que vigiam o caos.)

Ai! Avanço e me lembro,
ergo os braços e apanho
uma fruta de vento
que sequer me ofereces –

eu, o irmão deserdado,
o filho de janeiro,
o fingido, o pirata
que as máquinas destroçam.

série-pe14

O sonho desse pássaro
é entender o teu nome,
é dizer o teu nome
mesmo entre os labirintos.

A ilusão desse pássaro
é pousar no teu ombro,
é levar-te, madura,
para um país de granito.

(As máquinas destroçam
meu inútil perfil:
e levam para longe
tua pele de seda.)

Ai! pudera – esse pássaro –
pronunciar o teu nome
à sombra de um carvalho,
sobre um galho do sol.

Mas não. É só dezembro.
É deserto em dezembro.
E, além do mais, tranquila,
lá puseste uma rosa.

série-pe15

Cego, porém atento,
através da janela,
é que perscruto, triste,
os sinais do verão:

suas ondas de fogo,
suas três mil janelas,
seus mares de silêncio,
sua musculatura.

É sozinho, num quarto,
que desenho, no verde,
o mapa do teu corpo
que doma a tempestade.

(Que sei eu de tudo isso,
assim, tão preso à pedra,
de onde não vens, não surges,
onde não plantas nada?)

É fechado entre muros
que avisto o teu perfil:
na paisagem de vidro
que um pássaro vigia.

ansiedade IV

ansiedade4

in: ansiedades – poemas de Renato Suttana

 

X

As horas em setembro
são bússolas quebradas,
são águias aleijadas,
são leopardos de vento.

Nos círculos da brisa
corvos fazem piruetas:
e cantam, com voz rouca,
hinos que ninguém ouve.

Também eles não sabem
(porque a tanto não chegam),
dos esquemas das nuvens,
que não lhes dão a mínima.

Sobem alto no vento,
com uma voz mentirosa. –
E, omitindo passagens,
cantam um hino vão.

XI

Ao circo de setembro
falta o melhor artista:
falta um malabarismo
que o vento (o mais inepto)

nunca soube fazer,
que o vento, preocupado
com as coisas da luz,
não se esforçou jamais

sequer por aprender.
Ao circo de setembro
a que quase não falta
nada, falta um artista,

falta quem, sob as nuvens
e o azul (sempre ocupado
com seus próprios assuntos),
saiba fazer o truque.

XII

Passa ao longe um menino
a quem encarregamos
de uma tarefa simples
que ele negligenciou,

quando, absorto do verde
e do engodo das nuvens,
resolveu calmamente
trocar isto pelo erro

e pela estranha ideia
(e entanto sedutora)
de desaparecer –
livre de compromissos

e esquecido o mandado –,
como se a nossa voz
tivesse dito nada,
no fundo da distância.

XIII

No circo de setembro
as horas são leopardos,
são águias em silêncio,
calculando o desastre.

E as ansiedades são
esses corvos que o vento
omite, calmo e fresco,
meticulosamente:

trocando-os pelo vasto
silêncio em que naufragam
as pretensões do negro
e as ilusões do azul.

(E cantam hinos bobos
nos círculos do vento,
de que ninguém se ocupa
e a que faltam passagens.)

3 poemas de renato suttana – 3 imagens de m. almeida e sousa

série-pe10

Um abismo de conchas
e palavras insípidas
(que os ouvidos recusam)
tem ali seu início,

tem ali sua borda
e é ali que, começando,
tão perigosamente
convida à distração.

Mas tu não dás ouvidos
e segues adiante:
senhora do futuro
e do nácar do sono.

Ai! quebra-se a palavra!
Ai! minha boca, exangue,
meu estilhaço rubro,
meu doido acontecer –

que lentamente escorre
sobre coisas de não
e a raiva de ser noite
e de ser só verão.

série-pe11

O granito da sombra
modula o teu perfil,
escrevendo um aviso
sob o sol de dezembro:

e é ao longe que te vejo,
ajustada ao silêncio,
carregando o teu fardo
para um longe de cinzas.

Um silêncio devoto
no entanto te circunda
e forma ao teu redor
essa moldura preta,

onde cresce um lagarto,
onde cresce um carvalho,
onde cresce, entre espigas,
o segredo da noite.

Que sei eu de tudo isso?
Sei nada: estou aqui
parado, a meditar,
enquanto vais, fugindo.

série-pe12

Perdi o teu reflexo,
trocado por um grito,
quando, esmiuçando, cego,
a superfície da água

em que se refletia,
servindo-lhe de espelho,
minha voz se partia
sobre arestas de gelo.

E eras tão simples! Eras
anterior ao reflexo,
caminhando, segura,
à sombra dos rochedos.

Porém, na tarde cinza,
de longe é que eu te via,
levando para longe
teu nome e teus tesouros:

para um longe de cinzas
que o silêncio aprovava
e a noite já sabia
como petrificar.

poemas e desenhos de fernando grade

grade2

CILINDRO NOS OLHOS  
Curvada sobre os olhos uma mulher
onde brilha o seu (deles) cilindro, árvore física
de um rosto destruído pelas mãos.
Um corpo de cidra e de saibro
onde dorme — já cansada — a mula mais veloz
do povoado: a neve, o coração de neve
há-de chegar em forma de guitarra,
nas letras espantadas de um jornal qualquer.

Amanhã no Rossio à hora do almoço
um homem pacato compra o jornal ao coxo:
“Olha lá em Bragança a neve já chega ao tecto?
Já roeu os pássaros?”
 

NOTÍCIAS DE UM MUNÍCIPE

LAGAR DO AZEITE

à memória do grande pintor        
                                                   Joaquim Rodrigo

A azeitona desloca-se para cima,
torna-se luz, candelabro de
noivos desnudos.
O azeite esmagado por lábios
de medusa. Circo
de muitas pedras romanas.
Passagem do tempo e
muitos vírus, bactérias musgosas.
Língua de pedra
(onde meses alguns antes)
Oeiras via
pintores
a pintarem
a cor dos ventos.
As tintas e as borras
eram carne d’
aves.

grade1

O SOM E A PALHA

Ouço todas as tardes em Amsterdam
um martelo de plástico
a destruir um muro feito de pedra rija.
Música repassada de água
como os bichos no meio do feno
ou apenas uma romã.
Gesto polaco
algures nas floresta do Norte.
E todas as tardes o martelo vai e
vem sobre o musgo seco.
A pedra, sim, está por baixo e contente,
na sua felicidade de ser pedra

eternamente.

 
Amsterdam — 1971

ÀS VEZES FICO A PENSAR QUE

Ás vezes fico a pensar que
a música vai morrer à tarde
ao fundo da casa. Britten será apenas
(ou ainda?) uma recordação muito leve
como um pardal embalsamado
um lenço a cheirar a rosas
ou sete cabelos loiros
que a namorada deixou
nas pedras do cais.

Tenho medo
que substituam a música
pela máquina de despir formigas.

Oeiras e São Julião da Barra
 13 de Junho de 2011