as laranjas ganharam bicho…

... senhor, são rosas...! apenas rosas...

… senhor, são rosas…! apenas rosas…

 

hoje acordámos com o mapa cor de rosa.

o laranjal diluiu-se e…  foi-se (até no jardim ilhéu). ficaram, no entanto, meia dúzia de árvores. mas ao que parece, reportando-nos à opinião dos agricultores, nem vale a pena apanhar laranjas.

laranja

não é rentável…

então, as laranjas cairão por si, vítimas da praga neo-liberal.

os dinossauros, esses, extinguiram-se. irão pregar para outras freguesias.

entrementes, a igreja da laranja tentou criar alguns pomares de tangerina independente… fruta pouco fértil – podemos ler na última edição do “borda d’água”.

borda

quem se saiu relativamente bem foi a melancia ao reconquistar a planície alentejana e a península de setúbal para além de invadir timidamente lisboa.

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o roseiral é que se superou a si próprio…

precisamente.

todos ganharam com a maquilhagem, porém seria vantajosa uma depilação à erva daninha, mas isso é de não esperar.

nunca.

prejudica imenso os interesses mais obscuros do nosso quintal

 

do poeta… fernando grade

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À PORTA DE RIMBAUD

“Um novo corpo amoroso veste os nossos ossos”

                             (Jean-Arthur Rimbaud)

 

À porta de Rimbaud arde um chocalho 
como flautas rasgadas de beleza, 
e as musas são despidas no soalho 
– o pão: espezinhado sobre a mesa.

Sibila de uma França galinácea
que semeia rosinas e chacais
entre os cravos, os goivos e as acácias.
Um corpo masturbado nos pinhais…

Por trás da neve, foste um bom profeta, 
morango, sangue de cadela ruiva, 
astros, astros, cidades de cal preta.

Quiseste ser em ti a própria noiva. 
Boca de morsa velha – o teu desejo… 
À porta de Rimbaud é que me vejo…   

  

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RUA FERNANDO PESSOA

                                

VlVI no Bairro dos Poetas um ano e cinco e dois meses, mais sete dias — quantas horas de treva? —, e as ruas eram sempre pequenas, esmagadas por flores.
Havia dois homens que amolavam facas, punham chapéus-de-chuva aptos e joviais para com eles se descer à cidade do Rocio.
Um dos homens era novo e gordo; o outro bebia, dizia ser de Cintra quais morangos frenéticos, e tinha colado às veias o fulgor da chuva.
Era o seu vinho cimentado em angústias.
Estavam combinados como a dádiva do vento ou fungos de astros com sarna: de quinze em quinze tardes, o primeiro homem (às quintas-feiras) e o segundo (aos sábados) assobiavam como cântaros rachados por tesoiras.
Às portas e janelas chegavam rostos, vinham do almoço tecido de nêsperas, garfos ou maracotos,
olhavam para o amolador de sonhos minúsculos, e sorriam.
Alvalade ainda não era a época dos números a rua Fernando Pessoa tinha pedras por trás dos prédios bom vinho, coelhos a crescer, leite.

Ao tempo eu gostava dos cabelos sedosos de Mathilda fazia brindes ao seu cheiro fêmeo a invadir pomares; João tinha regressado do Egipto com retratos de amores brejeiros; Mitchell escrevera a dizer que o vento molhado sabia mais a frutos, isto é, queria fazer as pazes com Rodessa; e a Kathie e a Kathleen e o Marcos bebiam a três licor — à noite — numa escaldada cama de feltros: eram um sexo triplo e submerso, um fogoso cérebro volúvel.

Eu lia Fernando Pessoa, à minha volta cresciam as ervas rasas tinha no sangue então o conflito de ainda não ter ido à Grécia acreditava que os olhos não voavam, queria-os cordeiros mas passava as noites a contar os desastres, os incêndios que traziam sustos, toalhas sangrentas e fungos.
O tempo era, ao tempo, um toiro de Sevilha e um verme, o aroma intenso das raparigas.
O rosto à vista tinha dentro de si muitos rostos.
O mesmo acontecera com a rosa brava que beijava os próprios monstros. Assim todos os becos sagazes dispunham de um triturador de bolachas.

Era uma época de bailes submarinos.
As casas queimadas fascinavam-me. Como sei que — mesmo agora — os livros cínicos fazem-me bem.
Foi nessa época que a lã pacífica dos dedos de Benny caiu sobre o corpo de Rogan.
E os ingleses mais velhos não gostaram.
Porque os dedos direitos de Benny dispararam navalhas e o coração de Rogan não era feito de granito.
Por muitas horas que, então, eu lesse os versos de Pessoa os sítios não mudavam.
A Cheryl não se deixava seduzir por anéis ou retratos.
O Quim odiava o Benny que exibia um carro da cor do céu.
Era tenebroso ser português em Lisboa, e jovem.
Mesmo depois de ter saboreado as ilhas gregas, os cheiros do Mar Egeu invadiam os meus nervos com lacraus e pólvora.

Entre mim e a Grécia houve sempre muitas facas.

(in “PHILOSOPHUS PER IGNEM, poemas”,  Edições Mic, Colecção Salamandra/19)

 

a intolerância é, tão só, intolerância e não mais que intolerância

o controlo das igrejas, ditas “evangélicas”, no brasil avança perigosamente. um novo movimento de cariz inquisitorial espreita – controla já alguns estados e ao que parece forças militarizadas. 

tudo isto enquanto sapientes comentadores da coisa política se entretêm a discutir sobre “esquerda”, “direita” e os perigosos muçulmanos… 

o próprio papa, quando no brasil, atreveu-se a defender um estado laico (coisa que nenhum outro defenderia), ele que é do “clube de roma” terá as suas razões ou previsões…

a intolerância é, tão só, intolerância e não mais que intolerância. e a intolerância terá de ser combatida – venha ela de onde vier.

então… lemos aqui:

“A Polícia Militar de Brasília lançou neste mês um curso para policiais aprenderem a criar seus filhos e a ter um casamento em acordo com princípios bíblicos.

A “tropa de eleitos” está liberada de trabalhar durante as aulas: as reuniões são em horário de expediente, nas dependências da PM e os custos são bancados pelo órgão.

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A ideia do chamado “Programa Educação Moral” é “aplicar princípios bíblicos” na educação financeira e no relacionamento familiar dos policiais militares…”

lemos ainda no facebook, acompanhado da imagem anexa, isto:

“Para saber
O Christian Araujo, médiun do Circulo de Irradiações espirituais de São Lazáro, chegando em casa com suas vestes brancas (pois não esconde sua religião), foi passear com seu cachorro na rua onde mora, por habito conversa com seu cachorro. (papai chegou tarde do terreiro, etc….)
Sua vizinha evangélica escancara a janela e começa a insulta-lo: Seu viadinho macumbeiro “frajuto”, vai trabalhar… (detalhe, Cristian não é gay e esta em um relacionamento sério e apaixonado) desfiando o rosário de ofensas. Crhistian preferiu entrar, foi cercado no corredor que leva a sua casa pelo marido da moça que tem deus no coração, que sem motivos começou a agredi-lo.
Christian começa a gritar e sua mãe ainda de branco tenta apartar o agressor, que lhe deu vários murros na CARA.

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Dona Marilena uma senhora tranquila de 63 anos teve que levar pontos no rosto além dos outros machucados e passou a noite em observação no hospital.
Os vizinhos chamaram a palicia que conduziram eles ao hospital e depois a delegacia.
O agressor não foi conduzido até a delegacia. Foi aberto um boletim de ocorrência e apesar das constantes manifestações de Cristian de que o motivo era intolerância religiosa e discriminação sexual (apesar de Crhistian não ser gay) nada disso constou no boletim.
Para o escrivão acabou como uma briga de vizinhos.
Postarei este texto com a foto de Dona Marilene e de como esta o seu rosto após a agressão.
Novamente peço, algum Advogado poderia abraçar a causa?
Amigos da imprensa vou passar o telefone do Cristian inbox.
Revolta….
Malafaias, Waldomiros, Felicianus, Edires, escrotos nazistas, vocês são o cancro de nosso país.”

e um comentador revoltado escrevia: – O Apocalipse não será Zumbi, Walking Dead é besteira infantil…… O Apocalipse será Evangélico….. Apocalipse Evangélico!!!! Peguem suas armas já! Mirem na cabeça!

afinal o “grande irmão” está aí – transporta a bíblia na mão esquerda e armas de repressão na mão direita.

ritos domingueiros:… “vai votar malandro!…”

cuidado!... este produto está fora de prazo

cuidado!… este produto está fora de prazo

domingo cumpre-se o ritual

os profissionais da política contam já as espingardas e lá vão encarneirando os seus correligionários e os incautos

as praxes serão cumpridas de forma a que todos saiam democraticamente vencedores

uns votarão outros nem por isso

todavia domingo – ao fim do dia – contar-se-ão os votos introduzidos com delicadeza na ranhura da urna e tudo ficará na mesma

afinal de contas se o voto expresso alterasse alguma coisa já teria sido proibido (pelos democratas de serviço)

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ainda assim fazemos votos para que estas delicadas damas (as da imagem) levem uma boa coça e percam um número considerável de autarquias

assim seja

António Victor Ramos Rosa (Faro, 17 de Outubro de 1924 – 23 de Setembro 2013)

ramos rosa

faleceu um poeta do al andaluz

António Ramos Rosa, morreu hoje, com 88 anos, ao início da tarde.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

A Palavra – António Ramos Rosa

 

Ramos Rosa estudou em Faro, não tendo acabado o ensino secundário por questões de saúde. Em 1958 publica no jornal «A Voz de Loulé» o poema “Os dias, sem matéria”. No mesmo ano sai o seu primeiro livro «O Grito Claro», n.º 1 da colecção de poesia «A Palavra», editada em Faro e dirigida pelo seu amigo e também poeta Casimiro de Brito. Ainda nesse ano inicia a publicação da revista «Cadernos do Meio-Dia», que em 1960 encerra a edição por ordem da polícia política.

Fez parte do MUD Juvenil.

O seu nome foi dado à Biblioteca Municipal de Faro.

as premonições de natália

As citações, aqui divulgadas, foram retiradas do livro “O Botequim da Liberdade” . de Fernando Dacosta.

Natália Correia nasceu em Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 e faleceu em Lisboa, 16 de Março de 1993

 

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escreveu Natália Correia:

“A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista”.

“A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!”

“Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente”.

“Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica”.

“Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão”.

“Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?”

“As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir”.