DAS ABJECTAS PRAXES – Sobre as praxes e outros estragos

Sobre as praxes e outros estragos

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O ritual da praxe está a ser apresentado como uma tradição universitária de muitos anos. Também há os que defendem a teoria de que há praxes boas e praxes más. Nada mais falso. As universidades têm centenas de anos de existência. As praxes não existem há centenas de anos. O mais antigo Código da Praxe que se conhece é o da Universidade de Coimbra e data de 1957. E, como é sabido, mesmo nesta universidade, as praxes aplicadas durante a “longa noite da ditadura” eram ocasionais e sem a natureza humilhante e violenta das actuais. A prática da praxe era encarada como reaccionária e salazarenta e considerada inaceitável por várias gerações. Durante a chamada Crise Académica de 1969 foi mesmo proibida, bem como o uso de capa e batina, situação que perdurou muitos anos após o 25 Abril 1974 porque não se coadunava com a criação de uma sociedade nova que se pretendia livre e igualitária. Ou seja, a verdade que o mundo universitário tenta esconder é que as praxes actuais datam da década de 80, por coincidência (ou talvez não) os anos de ascensão da actual fase do capitalismo, paradigma de uma sociedade globalizada e profundamente competitiva e hierarquizada. E isto é um estrago.

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Mas há mais. Praxe vem do latim praxis que significa prática. Ora a instituição universitária não é suposto ser uma prisão ou um quartel, nos quais a existência de práticas ritualizadas de violência, humilhação, submissão e dominação fazem parte integrante dos seus códigos de existência. A universidade devia ser o culminar de um processo educativo destinado a formar indivíduos livres, com espírito crítico, fraterno e solidário. E não o início de uma vida de “integração”, de submissão aos valores de um capitalismo selvagem, de aceitação de uma sociedade dominada por valores hierárquicos e de competitividade. A universidade devia formar indivíduos livres e não carneiros dispostos a aceitar tudo para se “integrarem”, para terem um “canudo” e conseguirem assim fazer parte da chamada “elite intelectual”, que, na realidade, de elite e de intelectual não tem nada. Hoje, nas universidades, submetidos às praxes de dux…ezinhos e aos dogmas dos professores, amanhã na vida pública, aceitando a lógica perversa e castrante do poder político e do funcionamento das máquinas partidárias, finalmente, na vida profissional, acomodando-se aos ditames de um qualquer patrão e de uma hierarquia empresarial. Tudo sem questionar. Sem pôr em causa os sagrados princípios de um colectivo, mesmo que pautado por valores comportamentais nojentos. E isto é outro estrago.

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Mas ainda há mais. Tenta-se também fazer passar a ideia de que as praxes são coisas de adultos, que só aceita quem quiser e que, portanto, só os abusos é que devem ser impedidos. Curiosamente (ou talvez não) a mesma lógica de pensamento que as classes dominantes tentam impingir às pessoas nesta época de “crise”. O capitalismo não é mau. O que foi mau foram os abusos. A desregulação dos mercados (como se esta tivesse caído do céu e não sido feita pelo poder político em consonância com o poder financeiro), a corrupção, a ganância. Reciclemos o capitalismo e tudo se resolve! Só que… não há crises no capitalismo. É o capitalismo que é a própria crise. E permanente. Com as praxes passa-se exactamente a mesma coisa. As praxes não são más. Más são as práticas abusivas. Os rituais mais violentos. As humilhações. Reciclemos as praxes e tudo se resolve! Só que… não há abusos nas praxes. As praxes é que são um abuso. Físico e psicológico. E não é por acaso que elas se desenvolvem e são globalmente aceites numa época de ascensão de um capitalismo selvagem e de uma nova direita política. Porque a questão de fundo é só uma: o mundo universitário está podre e corrupto. Falhou na sua missão de formar indivíduos livres, rendeu-se ao capitalismo, à necessidade de facturar para sustentar todo um aparelho dominado por pequenos poderes. Que vão dos reitores aos agora tão conhecidos Dux (expressão latina que significa “líder”, sinónima da também expressão latina Duce, o epíteto utilizado pelo ditador Mussolini), passando por associações de estudantes, muito interessadas na manutenção do seu estatuto, e por professores mais empenhados em manter o seu lugar em tempo de corte orçamental do que em transmitirem conhecimentos. Reitores, como o da Universidade Lusófona, que afirma que as praxes não passam de brincadeiras inocentes e que o ataque às praxes é movido por interesses obscuros, nunca poderia estar à frente de uma universidade se esta fosse pautada por valores de ética comportamental e educativa. Só é reitor para facturar. Mas o problema não fica por aqui. A elite intelectual que vem sendo “formada” nas universidades portuguesas deixa muito a desejar em termos dos seus valores de referência, sejam estes culturais, ideológicos ou comportamentais. Em vez de se revoltar contra esta decadência educativa, em vez de se revoltar contra os pequenos poderes da academia, aceita-os sem contestação e ainda participa activamente na sua manutenção. Quando o artista mais desejado em festas de finalistas se chama Quim Barreiros é toda uma cultura que se revela. Uma cultura pimba, de boçalidade, de ausência de quaisquer valores. Este exemplo pode parecer ridículo, certamente que existirão outros bem mais importantes, mas para mim é muito revelador e significativo. E isto ainda são mais estragos.

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Como escreveu Antero de Quental “a universidade só iluminará o povo quando lhe deitarem fogo”. Acrescentaria eu de preferência com alguns pequenos ditadores lá dentro. Isto já não seriam estragos.

 MR

 

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da actividade bancária…

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O paradigma da actividade bancária alterou-se substancialmente nos últimos 30 anos, coincidindo expressamente com a actual fase da globalização capitalista assente na desregulação dos diversos mercados e no predomínio do capital financeiro. Os bancos deixaram de ser instituições que guardavam poupanças, emprestavam dinheiro ou trocavam moeda estrangeira em operações controladas e com taxas de juro pré-definidas, para passarem a especular gananciosamente nos mercados bolsistas, com produtos e negócios novos, mas duvidosos, que prometiam taxas de rentabilidade elevadas. Para aumentarem a sua base de clientes e melhorarem artificialmente os seus rácios de actividade, começaram a oferecer crédito ao desbarato a pessoas sem qualquer cultura financeira que, depois de pressionadas, o aceitavam sem perceberem minimamente no que se metiam. Os resultados estão à vista e são conhecidos de todos. Bastou o sector imobiliário nos EUA ruir para o sistema entrar em colapso. Tudo isto não seria grave se tivessem sido os especuladores a pagar. Mas não foi assim. Como tem sido norma desde a década de 80, o sistema político veio em auxílio do capital financeiro e, com a sempre prestimosa ajuda dos media, encetou uma lavagem ao cérebro do cidadão comum, massacrando-o dia e noite com a teoria de que estávamos perante uma greve crise porque “gastámos de mais e não trabalhamos o suficiente”. A necessidade de austeridade tornou-se palavra de ordem. E como se isto não bastasse, ainda aparece uma “esquerda” com resíduos de marxismo a concordar com a teoria da crise e a apregoar o princípio de um ciclo que terminará com a implosão do capitalismo. Ora nada disto cola com a realidade.

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Quando bancos e grandes grupos empresariais anunciam lucros de milhões, enquanto o desemprego atinge 18%, no caso de Portugal, não há crise do capitalismo! Quando a arrogância patronal e a violência do Estado alastram, enquanto os trabalhadores perdem conquistas sociais e laborais, não há crise do capitalismo! Quando os ricos estão cada vez mais ricos, enquanto os trabalhadores são roubados no seu salário, não há crise no capitalismo! Quando os prejuízos são colectivizados, mas os lucros continuam privados, não há crise do capitalismo! O capitalismo é a própria crise! E temos de ser nós a acabar com ele!

A realidade é que o capitalismo está, muito simplesmente, a passar para um novo patamar de exploração sobre os indivíduos, através de uma aliança fortíssima entre capital financeiro e classe política. Não é por acaso que o Estado não se preocupa com a falência de empresas e consequente aumento do desemprego, mas acorre de imediato a “resgatar” bancos, muitos deles administrados por ex-políticos, vítimas apenas da sua própria ganância e que beneficiaram de uma desregulação promovida pelo poder político. Perante isto, não é crível que o capitalismo acabe algum dia por implosão, devido aos efeitos de uma grande crise final motivada pelas suas contradições internas. Aliás, estas sempre existiram ao longo da sua história, aquando das diversas passagens de um determinado tipo de capitalismo dominante a outro – agrário para o industrial, por exemplo, ou deste para o financeiro – e das respectivas lutas intestinas que as acompanharam. Mas, no seu todo, o capitalismo saiu sempre reforçado destas pretensas crises, alargando o seu domínio de influência territorial e intensificando o grau de exploração sobre os indivíduos. As actuais medidas da chamada austeridade, que alastram sobretudo nos países do Sul da Europa, fazem parte deste novo patamar de exploração. Em nome da tal hipotética crise e do seu combate, a aliança político-financeira adoptou um caminho de extrema violência laboral e social, procurando acabar com regalias e conquistas alcançadas depois de muitos anos de duras lutas contra o capital. A questão da “refundação do Estado”, colocada recentemente em cima da mesa pelo governo português, só procura reforçar este caminho, aproveitando a maré para vender a imagem de que a existência de muito Estado, gastador e incompetente, é um dos factores que está na génese da crise. A solução é a privatização de tudo o que é lucrativo, restando ao Estado assegurar apenas a gestão dos sectores de apoio ao “bom” funcionamento do sistema, nomeadamente a vertente policial e repressiva.

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O problema não é gastarmos de mais ou trabalharmos de menos. O problema vem do modelo que a economia portuguesa herdou do fascismo: isolacionismo, ruralidade, indústria pouco desenvolvida e concentrada em sectores tradicionais, baixa escolaridade, ausência de vias de comunicação. Com o 25 de Abril nasceu um país mais moderno, mais de acordo com os padrões de vida e de consumo europeus, mas com todos os problemas de um desenvolvimento territorial desigual e submetido à lógica do capitalismo liberal, que mandou acabar com alguns sectores da já de si reduzida actividade económica em nome da globalização, ou seja, em nome de acordos comerciais estabelecidos com países emergentes que só beneficiaram os países ricos do Norte. Com uma classe empresarial que sempre viveu à sombra da protecção do Estado, a economia portuguesa nunca teve uma base de sustentação interna, sendo completamente dependente do exterior. A adesão à moeda única fez acabar o mecanismo da desvalorização cambial como recurso para melhorar a competitividade das exportações e, consequentemente, as dificuldades das empresas portuguesas aumentaram, empurradas para uma economia global galopante para a qual poucas estavam ou estão preparadas.

Muitos defendem que os problemas actuais foram motivados não pelo sistema capitalista, que é um bom sistema, mas apenas pela eliminação da regulação e pela ganância e corrupção de gestores e políticos. Tudo se resolveria com uma reformulação do capitalismo, mudando o paradigma para um crescimento sustentado e para o retorno dos mecanismos de regulação. Ora o objectivo do capitalismo globalizado é a maximização do lucro à escala planetária. Capitalismo sem lucro não é possível. Para isto, o capitalismo precisará sempre de maximizar a exploração irracional de recursos, numa espiral desenvolvimentista alimentada pelo consumismo, pela ganância, pelo lucro e pelo progresso tecnológico, que estão a conduzir esta sociedade ao esgotamento dos recursos naturais não reprodutivos, situação que põe em causa o futuro das próximas gerações. O capitalismo não pode ser sustentável porque isto é incompatível com o seu modelo de funcionamento. Preservar a natureza e os ecossistemas não faz parte do seu código genético, por mais sustentável, verde e humano que se rotule. Também a solução do regresso dos mecanismos de regulação dos mercados, vulgo Keynesianismo, está completamente ultrapassada e deslocada da realidade, em resultado da própria evolução do capitalismo, hoje completamente globalizado, incontrolável e irreformável. Como alguém escreveu “tentar reformar o capitalismo é como perfumar merda: não vale a pena”. Para além disto, como já referido, está poderosamente apoiado num poder político que lhe tem aberto portas e legislado à medida das suas conveniências. A desregulação dos mercados não foi um facto económico. Foi um facto político, patrocinado por políticos.

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Não tenhamos ilusões. Ninguém sai das cadeiras do poder por vontade própria. O capitalismo é poder e só sairá quando o empurrarmos para fora desta história.

 

Mário Rui