ERRATA de Fernando Aguiar

Fernando Aguiar numa performance

Fernando Aguiar numa performance

 

ERRATA (em forma de soneto com rabo)

 

    • Logo na primeira página, precisamente na primeira linha, onde se lê era uma vez…, leia-se finalmente…
    • Na página catorze, na linha quatro, onde se lê quadro, leia-se quarto.
    • Na página seguinte, na linha oito e meio, onde se lê por meio de, leia-se no meio que.
    • Quase na página trinta, na linha férrea, onde se lê tanto mar, leia-se pouca terra.
    • Na página rasgada, na linha de fogo, onde se 1ê forca, leia-se força.
    • Numa página inexistente, na linha do horizonte, onde se deveria ler, leia – – se mesmo.
    • Na página do meio, na linha do equador, onde se lê em paralelo, leia-se em diagonal.
    • Na página obscura, nas entrelinhas, onde se lê fode-se, leia-se pode-se.
    • Na página solta, na linha terra, onde se lê chão, leia-se cãho.
    • Numa página distante, na linha do pensamento, onde se lê não penso, leia-se mas existo.
    • Ao virar da página, na linha do infinito, onde se tem muito que ler, leia-se o muito que se tem.
    • Na página em branco, na linha do imaginário, onde não se lê, não se leia.
    • Numa página perdida, numa linha ao acaso, onde se lê mesmo assim, leia- – se assim mesmo.
    • A páginas tantas, na linha com que cada um se cose, onde se lê entrevista- – se, leia-se entredispa-se.
    • Na última página, mesmo na última linha, onde se lê finalmente…, leia-se era uma vez…

 

FERNANDO AGUIAR

 

soneto ecológico de fernando aguiar

soneto ecológico

I – PROJECTO

Em 1985 criei o projecto de um soneto sobre o ambiente que intitulei de “SONETO ECOLÓGICO”. E achei que a melhor maneira para o “escrever” não seria com palavras, mas com as próprias árvores.
Assim, criei um soneto constituído por 70 árvores, distribuídas por 14 filas com 5 árvores cada uma (4+4+3+3), que representam 2 quadras e dois tercetos, a estrutura do soneto.

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Para que o soneto também tivesse rima, as árvores com que começa e termina cada fila alternam, de modo a resultarem na rima tradicional (alternada) do soneto: A , B, A, B (por exemplo, Cipreste, Ulmeiro, Cipreste, Ulmeiro).

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O projecto deste soneto foi exposto no 1º Festival Internacional de Poesia Viva, que teve lugar no Museu Municipal Dr. Santos Rocha, na Figueira da Foz, em 1987, e só no final de 2004, depois de algumas tentativas e de muitos contactos,
a Câmara Municipal de Matosinhos se propôs realizar este projecto, o que aconteceu já em 2005,
20 anos depois de ter sido concebido.
A Câmara de Matosinhos sugeriu o aproveitamento de uma nova zona residencial, perto do centro da cidade,
que me pareceu um local adequado para a concretização do projecto.

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O soneto seria realizado com 10 variedades de árvores tradicionais portuguesas, num total de 70 árvores, às quais se poderiam acrescentar mais 14 árvores para dar uma maior “largura” ao soneto, (6 árvores por cada “verso”) se fosse o mais adequado ao espaço onde este se ia inserir.
Mas devido à largura do terreno tal não foi necessário. Foram seleccionadas 70 árvores das seguintes 10 espécies: Pinheiro Manso, Vidoeiro, Cedro do Buçaco, Sobreiro, Cipreste, Carvalho Alvarinho, Amieiro, Ulmeiro, Azevinho e Freixo.
A ideia era que fossem plantadas árvores de folha caduca e de folha perene para que em qualquer estação do ano
o soneto tivesse árvores com folhas e, ao mesmo tempo, para que houvesse uma permanente modificação de formas,
de cheiros e de cores em relação à folha, flor e fruto dessas árvores.
E tendo em atenção esses factores, as árvores foram organizadas da seguinte forma:

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Infelizmente, pela pouca disponibilidades de verbas e também pela urgência em realizar o projecto para o Dia da Árvore,
houve necessidade de se recorrer ao horto municipal e comprar apenas as árvores que faltavam para completar as “rimas”.
As árvores disponíveis eram todas “jovens”, isto é, de pequenas dimensões e com copas pouco significativas,
o que faz com que só daqui a alguns anos o “Soneto Ecológico” esteja na sua forma mais visível.
O “SONETO ECOLÓGICO” é um soneto vivo, que respira e está em permanente crescimento.
E deve ser a única obra poética onde se poderá literalmente entrar, passear, descansar, etc.
É também uma obra de “Land Art”,
provavelmente a maior que já se realizou em Portugal.

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Para resolver a questão da pequena envergadura das árvores, foi decidido que cada uma tivesse atados cerca de 30 balões verdes (de preferência de 2 ou 3 tons de verde) para que visualmente ficassem mais “encorpadas”, e assim dar uma ideia mais real do que será o Soneto quando as árvores crescerem.

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No dia 21 de Março de 2005, logo de manhã, começaram a chegar as pessoas convidadas para o happening, 
em muitos casos famílias inteiras com os netos, pais e avós.
Depois de explicado todo o procedimento e que a plantação das árvores seria realizada em 4 fases,
as pessoas dirigiram-se para as árvores que lhes correspondiam e que estavam deitadas no chão,
junto a buracos abertos no dia anterior por funcionários da Câmara.
 Com o sinal dado pelos primeiros acordes musicais, as crianças 
(algumas ajudadas pelos pais e por funcionários municipais)
 começaram a plantar as árvores.
A seguir foram os jovens…

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Depois os adultos…

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E finalmente os mais velhos…

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Com o quarteto de cordas a interpretar  “As Quatro Estações” de Vivaldi.

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Até que a plantação das árvores foi concluída…
E assim foi “escrito”um soneto com cerca de 110 metros de comprimento, por 36 metros de largura
que é, concerteza, o maior soneto do mundo.

III – CONCLUSÃO

Nos primeiros meses de 2007 procedeu-se finalmente ao arranjo paisagístico do “SONETO ECOLÓGICO”,
com a colocação de trevo na “página” onde está o Soneto, a colocação de alguns bancos de jardim e caixotes de lixo
(o Soneto é também um Parque), passeios que fazem a demarcação do soneto e das respectivas estrofes.
E também a construção do “Recanto da Poesia”, a cerca de 15 metros do Soneto,
um espaço onde se poderá ler e escrever.
Foi ainda colocada uma sinalética que contém uma breve explicação sobre o conceito e a estrutura
deste“SONETO ECOLÓGICO”, e com o nome de cada árvore utilizada.

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No dia 21 de março de 2007, para comemorar o Dia da Árvore e início da Primavera, o Dia Mundial da Poesia e o 2º Aniversário da plantação do “SONETO ECOLÓGICO”, foi promovida pela Câmara Municipal de Matosinhos uma sessão se poesia intitulada “DA NATUREZA DA PALAVRA”, com a participação de José-Alberto Marques, Fernando Aguiar, Ana Luísa Amaral, Manuel Portela, Rosa Alice Branco e Casimiro de Brito.

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Após as leituras procedeu-se ao descerrar da sinalética e à inauguração simbólica do arranjo paisagístico
do “SONETO ECOLÓGICO”.

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O Soneto na sua versão definitiva quanto ao enquadramento,
e na sua evolução permanente em relação ao crescimento, renovação sazonal, modificação cromática e visual:

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 Sobre a  plantação do “SONETO ECOLÓGICO”, o poeta Clemente Padin fez, em 2005, a seguinte referência:

“En puridad su obra es una instalación con elementos naturales. Resulta sintomático el compromiso de Fernando Aguiar con lo “natural”, tal vez opuesto a lo “virtual” o “digital”, en una rotunda afirmación por el arte con “dimensión humana real”, en un esfuerzo notorio por acercar y llevar la poesía, allí, donde está la gente. En los tiempos presentes, las tecnologías digitales son y serán supuestamente las más usadas en casi todas las ramas de arte, incluyendo la poesía. Pero, al igual que cualquier otra tecnología, no asegura ni anticipa el nivel estético ni la funcionalidad de las creaciones. Sin embargo, el instrumento “interactividad”, que supone el Soneto de Aguiar, parece asegurar la comunicación directa entre el “escritor” y el “lector”: la funcionalidad del poema depende de la participación del “lector” quien, al usufructuar del mismo, le da su sentido, es decir, el sentido que “logre” o “consiga”, de acuerdo a su repertorio de conocimientos y experiencias personales.”,
acrescentando: ” El poema es autorreferencial no sólo por su contenido “ecológico”, puesto que está escrito con árboles; también lo es desde un punto de vista formal: la manera en la que están dispuestos los árboles equivalen a diagramar la estructura del soneto como un metalenguaje que se detiene por encima del texto y le examina críticamente con una suerte de rayos X poniendo en evidencia su forma. Pero lo autorreflexivo no es suficiente para dar fe de la poesía, el texto también nos debe ofrecer la oportunidad de ejercer nuestra libertad a optar por la significación que nuestro intelecto decida de acuerdo a nuestro intransferible repertorio de conocimientos y experiencias personales, es decir, debe ser ambiguo. La ambigüedad se refiere a la transgresión de las normas y códigos de la lengua que hace, entre otras cosas, que un texto pueda ser interpretado de muy diversas maneras. Lo que establece la ambigüedad en este poema es el tiempo, pues nunca se le podrá “leer” de la misma manera puesto que los árboles no cesarán de crecer y el espacio que establecerá los límites de la lectura ya que se trata de un soneto que deberá leerse caminando, en la verdadera acepción del verbo.”

IV – PROJECTO PARA IDANHA-A-NOVA

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Nos meses de Fevereiro e Março deste ano realizei  uma exposição individual no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, com trabalhos de fotografia,  instalação, video e um poema esculpido em pedra.
Em simultâneo deu-se início à construção de uma nova versão do Soneto – o “SONETO ECOLÓGICO II”, que terá cerca de 50 metros de comprimento por 18 metros de largura, inserido numa estrutura com 4 patamares, que correspondem a cada uma das estrofes.
As árvores a utilizar (que no projecto inicial seriam todas da mesma espécie) vão ser de 7 espécies diferentes,  tendo como uma das características o facto de não atingirem grandes dimensões quando adultas.

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problemática da dificuldade

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está difícil. está muito difícil.
está mesmo muito difícil. es
tá  realmente  mesmo  muito
difícil. não há dúvida que est
á realmente mesmo muito di
fícil.

está difícil. está muito difícil.
está muito mais difícil, está
mesmo muito mais difícil. es
tá realmente mesmo muito m
ais difícil. não há dúvida que
está realmente mesmo muito
mais difícil.

está difícil. está muito difícil.
está ainda mais difícil. está a
inda muito mais difícil. está
mesmo ainda muito mais dif
ícil. está realmente mesmo ai
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á dúvida que está realmente
mesmo ainda muito mais dif
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está difícil. está muito difícil.
está cada vez mais difícil. est
á cada vez ainda muito mais
difícil. está mesmo cada vez
ainda muito mais difícil. está
realmente mesmo cada vez a
inda muito mais difícil. não h
á dúvida que está realmente
mesmo cada vez ainda muito
mais difícil.

para quem julga que estou a e
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não há dúvida que está realme
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ificílimo. está dificilíssimo !

                                              Fernando Aguiar