MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS (1923-2023) —100 anos de poesia

Ontem às onze

fumaste

um cigarro

encontrei-te

sentado

ficámos para perder

todos os teus eléctricos

os meus

estavam perdidos

por natureza própria

Andámos

dez quilómetros

a pé

ninguém nos viu passar

excepto

claro

os porteiros

é da natureza das coisas

ser-se visto

pelos porteiros

Olha

como só tu sabes olhar

a rua os costumes

O Público

o vinco das tuas calças

está cheio de frio

é há quatro mil pessoas interessadas

nisso

Não faz mal abracem-me

os teus olhos

de extremo a extremo azuis

vai ser assim durante muito tempo

decorrerão muitos séculos antes de nós

mas não te importes

muito

nós só temos a ver

com o presente

perfeito

corsários de olhos de gato intransponível

maravilhados maravilhosos únicos

nem pretérito nem futuro tem

o estranho verbo nosso

© 1957, Mário Cesariny in Pena Capital Assírio & Alvim

Tantos pintores

A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores

A realidade comovida agradece
E continua a fazer o seu frio
Sobre bairros inteiros, na cidade, e algures

Tantos mortos no rio

A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gosta da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar

Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem verdade
dá voltas à solidão da realidade

recordando NATÁLIA CORREIA

Foi-me preciso descobrir que:

  • a lógica é a ciência de gerir os rendimentos da estupidez;
  • os políticos não são inteiramente galinhas porque cacarejam e não põem ovos;
  • as pastas dos executivos levam dentro aranhas para urdirem as teias que nos imobilizam;
  • os militantes de todos os partidos têm pele de camisas enforcadas;
  • a familia é um cardume de piranhas ao redor da carcaça de uma vaca sagrada;
  • a sociologia  é uma completa falta de humor perante a decadência;
  • os gestores destilam um suor frio que nos constipa;
  • as nações içam as bandeiras para porem o falo a pino e masturbarem-se;
  • as esquerdas e as direitas resultam do pacto de não inverterem os papéis;
  • o socialismo é um estratagema para negar aos exploradores o direito ao desaparecimento;
  • o liberalismo é uma manha do Estado para forjar algemas com a liberdade;
  • os intelectuais são uma chatice com que o Criador não contava;   .
  • sendo a educação a providência dos imbecis que são em maior número, o mundo está imbecilizado pela educação;
  • o sistema é a creche da debilidade mental e a vala comum da inteligência;
  • a economia é adquirir-se o vício do fumo porque se comprou um isqueiro;

dos vencidos não reza a história porque se renderam à razão, para concluir que: chegou a hora romântica dos deuses nos pedirem a desobediência.

Faço-lhes a vontade. A partir de hoje, se alguém me quiser encontrar, procure-me entre o riso e a paixão

 Natália Correia -10 de Janeiro de 1983

tarot “mandrágora” de m. almeida e sousa

nos 43 anos da associação “mandrágora – centro de cultura e pesquisa de arte” cascais 20 de novembro de 1979/2022

arcanos menores ( de 1 a 10)

arcanos menores ( cavalos, príncipes, rainhas e reis)

arcanos maiores ( de 0 a 21 e costas das cartas)

_________

baralho em preparação editorial — © M. A. e Sousa -2022

Internacional Situacionista — Manifesto

Publicado na Internacional Situacionista 4, (1960)

Uma nova força humana, que o status existente não poderá reprimir, cresce a cada dia com o irresistível desenvolvimento técnico e com a insatisfação de sua utilização possível em nossa vida social privada de sentido.

A alienação e a opressão na sociedade não podem ser mantidas em nenhuma de suas variantes, mas sim, apenas rejeitadas em bloco com essa mesma sociedade. Todo progresso verdadeiro fica evidentemente suspenso até que a multiforme crise actual encontre uma solução revolucionária.

Quais seriam as perspectivas de organização de vida numa sociedade que, de maneira autêntica, “reorganizasse” a produção sobre a base de uma associação livre e igualitária de produtores? A automatização da produção e a socialização dos bens vitais reduzirão cada vez mais o trabalho como necessidade exterior e proporcionarão, finalmente, plena liberdade ao indivíduo. Desse modo, liberto de toda responsabilidade económica, de todas as suas dívidas e culpas em relação ao passado e ao seu próximo, o homem terá à sua disposição uma nova mais-valia incalculável em dinheiro, pois essa mais-valia não pode ser reduzida à medida do trabalho assalariado: o valor do jogo, da vida livremente construída. O exercício dessa criação lúdica é a garantia da liberdade de cada um e de todos no âmbito da única igualdade garantida com a não-exploração do homem pelo homem. A libertação do jogo é a sua autonomia criativa, que supera a velha divisão entre o trabalho imposto e o ócio passivo.

A Igreja queimou, em outras épocas, supostos bruxos para reprimir as tendências lúdicas primitivas conservadas nas festas populares. Na sociedade dominante de hoje, que produz em massa desconsolados pseudo-jogos de não-participação, uma atividade artística verdadeira é forçosamente classificada no campo da criminalidade. É semiclandestina. E surge sob a forma de escândalo.

O que é isso, na verdade, a não ser uma situação? Trata-se da realização de um jogo superior, mais exactamente, da provocação para jogar esse jogo que constitui a presença humana. Os jogadores revolucionários de todos os países podem unir-se à I.S. a fim de começar a sair da pré-história da vida quotidiana.

A partir de agora, propomos uma organização autónoma dos produtores da nova cultura, independente das organizações políticas e sindicais existentes no presente momento, pois nós negamos a capacidade de se organizar outra coisa a não ser o acondicionamento do existente.

O objectivo mais urgente que estabelecemos  para uma primeira campanha pública dessa organização quando ela sair de sua fase experimental inicial é a tomada da U.N.E.S.C.O. A burocratização unificada, em escala mundial, da arte e de toda a cultura é um fenómeno novo, que expressa o profundo parentesco entre os sistemas sociais coexistentes no mundo, que se baseiam na conservação eclética e na reprodução do passado. A resposta dos artistas revolucionários a essas novas condições deve ser um novo tipo de acção. Como a existência mesma dessa concentração direccionada da cultura, localizada num único edifício, favorece a sua confiscação por meio de um putsch; e como a instituição carece completamente de possibilidades de um uso que tenha sentido fora de nossa perspectiva subversiva, sentimo-nos justificados, diante dos nossos contemporâneos, para nos apoderarmos de um tal aparato. E o faremos. Estamos decididos a nos apoderar da U.N.E.S.C.O., ainda que seja por pouco tempo, já que estamos seguros de nela realizar, rapidamente, uma obra que permanecerá como a mais significativa, pelo facto de esclarecer um longo período de reivindicações.

Quais deverão ser principais características da nova cultura, principalmente em comparação com a arte antiga?

Contra o espectáculo, a cultura situacionista realizada introduz a participação total.

Contra a arte conservada, é uma organização do momento vivido directamente.

Contra a arte fragmentária, será uma prática global que conterá, de uma só vez, todos os elementos utilizados. Tenderá naturalmente para uma produção colectiva e, sem dúvida, anónima (na medida em que, ao não armazenar as obras como mercadorias, a dita cultura não estará dominada pela necessidade de deixar marcas). Suas experiências se propõem, no mínimo, a realizar uma revolução do comportamento e um urbanismo unitário dinâmico, susceptível de se estender a todo o planeta; e de se propagar, em seguida, para todos os planetas habitáveis.

Contra a arte unilateral, a cultura situacionista será uma arte do diálogo, da interacção. Os artistas – como toda a cultura visível – chegaram a estar completamente separados da sociedade, assim como estão separados entre si pela concorrência. Porém, inclusive antes que o capitalismo ingressasse nesse pântano, a arte era essencialmente unilateral, sem resposta. Estava encerrada no seu primitivismo, mas será superada graças a uma comunicação completa.

Até que todos cheguem a ser artistas num plano superior, isto é, inseparavelmente produtor-consumidor de uma criação cultural total, assistiremos à dissolução rápida do critério linear de novidade. Quando todos forem situacionista, por assim dizer, assistiremos a uma inflação multidimensional de tendências, de experiências, de “escolas” radicalmente diferentes, e isso não mais sucessivamente, mas sim, simultaneamente.

Inauguramos agora o que será, historicamente, o último dos ofícios. O papel de situacionista, de leigo-profissional, de anti-especialista, é, no entanto, uma especialização até o momento de abundância económica e mental em que todos chegarão a ser “artistas”, num sentido que os artistas não alcançaram: a construção de sua própria vida.

guy debord à direita – reunião dos situacionistas situacionistas

Aos que não nos compreenderam bem… dizemo-lhes com um irredutível desprezo: os situacionistas, de quem vocês acreditam ser juízes, os julgarão mais cedo ou mais tarde. Nós os esperamos na mudança de sentido que é a inevitável liquidação do mundo da escassez em todas as suas formas. São esses os nossos objectivos, e serão os futuros objectivos da humanidade.

“Actuel Nova Press” uma revista que marcou a geração de 60/70 (made in france)

a língua francesa ao ritmo de ferré e brel. o maio de 68 e… a “nova press” saída dos 60

por cá…

lia-se às escondidas

e

às escondidas

enrolava-se erva

“les anarchistes” lusos, contavam-se pelos dedos

esta publicação francesa fez uma extraordinária reportagem sobre o 25 de abril e sobre o “undergroud” lisboeta… estiveram aqui (em Lisboa)! lamentavelmente não descobrimos a edição de maio de 74. mas estamos convictos de que ainda a encontraremos numa arca poeirenta cá de casa…

hoje será… Arthur Rimbaud

valentine hugo sept visage d’arthur rimbaud

Invocation à Vénus par Arthur Rimbaud, 1869

Mère des fils d’énée, ô délices des Dieux,

Délices des mortels, sous les astres des cieux,

Vénus, tu peuples tout : l’onde où court le navire

Le sol fécond : par toi tout être qui respire

Germe, se dresse, et voit le soleil lumineux !

Tu parais… A l’aspect de ton front radieux

Disparaissent les vents et les sombres nuages :

L’Océan te sourit ; fertile en beaux ouvrages,

La Terre étend les fleurs suaves sous tes pieds ;

Le jour brille plus pur sous les cieux azurés !

Dès qu’Avril reparaît, et, qu’enflé de jeunesse,

Prêt à porter à tous une douce tendresse,

Le souffle du zéphir a forcé sa prison,

Le peuple aérien annonce ta saison :

L’oiseau charmé subit ton pouvoir, ô Déesse ;

Le sauvage troupeau bondit dans l’herbe épaisse,

Et fend l’onde à la nage, et tout être vivant,

À ta grâce enchaîné, brûle en te poursuivant !

C’est toi qui, par les mers, les torrents, les montagnes,

Les bois peuplés de nids et les vertes campagnes,

Versant au coeur de tous l’amour cher et puissant,

Les portes d’âge en âge à propager leur sang !

Le monde ne connaît, Vénus, que ton empire !

Rien ne pourrait sans toi se lever vers le jour :

Nul n’inspire sans toi, ni ne ressent d’amour !

À ton divin concours dans mon oeuvre j’aspire !…

arthur rimbaud por m. almeida e sousa

esta noute quero ser politicamente incorrecto

La cogida y la muertefederico garcia lorca

.

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro, solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!
La sangre derramada.
¡Que no quiero verla!
Dile a la luna que venga,
que no quiero ver la sangre
de Ignacio sobre la arena.
¡Que no quiero verla!
La luna de par en par,
caballo de nubes quietas,
y la plaza gris del sueño
con sauces en las barreras
¡Que no quiero verla¡
Que mi recuerdo se quema.
¡Avisad a los jazmines
con su blancura pequeña!
¡Que no quiero verla!
La vaca del viejo mundo
pasaba su triste lengua
sobre un hocico de sangres
derramadas en la arena,
y los toros de Guisando,
casi muerte y casi piedra,
mugieron como dos siglos
hartos de pisar la tierra.
No.
¡Que no quiero verla!
Por las gradas sube Ignacio
con toda su muerte a cuestas.
Buscaba el amanecer,
y el amanecer no era.
Busca su perfil seguro,
y el sueño lo desorienta.
Buscaba su hermoso cuerpo
y encontró su sangre abierta.
¡No me digáis que la vea!
No quiero sentir el chorro
cada vez con menos fuerza;
ese chorro que ilumina
los tendidos y se vuelca
sobre la pana y el cuero
de muchedumbre sedienta.
¡Quién me grita que me asome!
¡No me digáis que la vea!
No se cerraron sus ojos
cuando vio los cuernos cerca,
pero las madres terribles
levantaron la cabeza.
Y a través de las ganaderías,
hubo un aire de voces secretas
que gritaban a toros celestes,
mayorales de pálida niebla.
No hubo príncipe en Sevilla
que comparársele pueda,
ni espada como su espada,
ni corazón tan de veras.
Como un río de leones
su maravillosa fuerza,
y como un torso de mármol
su dibujada prudencia.
Aire de Roma andaluza
le doraba la cabeza
donde su risa era un nardo
de sal y de inteligencia.
¡Qué gran torero en la plaza!
¡Qué gran serrano en la sierra!
¡Qué blando con las espigas!
¡Qué duro con las espuelas!
¡Qué tierno con el rocío!
¡Qué deslumbrante en la feria!
¡Qué tremendo con las últimas
banderillas de tiniebla!
Pero ya duerme sin fin.
Ya los musgos y la hierba
abren con dedos seguros
la flor de su calavera.
Y su sangre ya viene cantando:
cantando por marismas y praderas,
resbalando por cuernos ateridos
vacilando sin alma por la niebla,
tropezando con miles de pezuñas
como una larga, oscura, triste lengua,
para formar un charco de agonía
junto al Guadalquivir de las estrellas.
¡Oh blanco muro de España!
¡Oh negro toro de pena!
¡Oh sangre dura de Ignacio!
¡Oh ruiseñor de sus venas!
No.
!Que no quiero verla!
Que no hay cáliz que la contenga,
que no hay golondrinas que se la beban,
no hay escarcha de luz que la enfríe,
no hay canto ni diluvio de azucenas,
no hay cristal que la cubra de plata.
No.
!Yo no quiero verla!

.

gruta de Lascaux-frança

francisco de goya

Salvador dali

joan miró

pablo picasso

rubén larios

josé villanueva berruezo

oscar dominguez

aragüez

m. almeida e sousa

da Entrevista de Noam Chomsky a C. J. Polychroniou

publicada em Truthout. : 10 de Agosto, 2022

MEDO DA ASCENSÃO DA CHINA MOLDA POLITICA EXTERNA DOS EUA, DIZ NOAM CHOMSKY — A CRESCENTE INFLUENCIA DA CHINA NOS ASSUNTOS INTERNACIONAIS É UMA AMEAÇA PARA ORDEM MUNDIAL? OS ESTADOS UNIDOS ACREDITAM QUE SIM , ASSIM COMO A INGLATERRA, SEU ALIADO PROXIMO

A rivalidade entre os Estados Unidos e a China provavelmente dominará os assuntos mundiais no século XXI. Nesse jogo geoestratégico, espera-se que determinados Estados externos à comunidade de segurança ocidental, como a Índia, desempenhem um papel fundamental no novo cenário do imperialismo.

Os Estados Unidos são uma potência em declínio que não pode mais empreender ditames unilaterais. No entanto, como aponta Noam Chomsky nesta entrevista exclusiva com o Truthout, a deterioração dos Estados Unidos “deve-se sobretudo a choques internos”.

Como poder imperial, os Estados Unidos são uma ameaça à paz mundial e aos seus próprios cidadãos.

A entrevista é de C. J. Polychroniou, foi publicada originalmente por Truthout e reproduzida por La Jornada e IHU Unisinos. A tradução é do Cepat(link is external).

C. J. Polychroniou: Noam, as potências ocidentais respondem à ascensão da China como potência com crescentes apelos à diplomacia bélica. Por que o Ocidente tem tanto medo da prosperidade da China e o que isso nos diz sobre o imperialismo no século XXI?

Noam Chomsky: Os temores são de longo alcance e, no caso da Rússia, remontam a 1917. O secretário de Estado Robert Lansing advertiu o então presidente Wilson de que os bolcheviques contavam com a simpatia “do proletariado de todos os países”.

Essas preocupações foram reiteradas em diferentes circunstâncias pelo secretário de Estado John Foster Dulles, 40 anos mais tarde, quando lamentou que os Estados Unidos fossem “um caso perdido, muito atrás dos soviéticos no que diz respeito ao desenvolvimento de meios para controlar a mente e as emoções dos povos sem sofisticação”.

Em 1917, o reconhecido decano da erudição da Guerra Fria, John Lewis Gaddis, afirmou que a revolução bolchevique era uma ameaça “à própria sobrevivência da ordem capitalista”.

Na fronteira ocidental da Eurásia, os Estados Unidos defendem-se ao expandir a NATO em direção à fronteira com a Rússia. No flanco oriental, os Estados Unidos defendem-se com a instalação de um círculo de “Estados sentinelas”, cuja tarefa será “cercar” a China. O resultado disso é que a China terá maiores incentivos para atacar Taiwan com a finalidade de romper esse cerco e ter acesso aberto aos oceanos.

Chomsky: “Única forma de acabar com a tragédia é um acordo diplomático”

A ideia de um “lar comum europeu”, de Lisboa a Vladivostok, foi promovida por Mikhail Gorbachev, que buscava a transição para a social-democracia na Rússia e nos seus antigos domínios, com a ideia de contar com a colaboração dos Estados Unidos na criação de uma ordem mundial baseada na cooperação e não no conflito. Previsivelmente, os Estados Unidos opuseram-se ferreamente a estas iniciativas.

A invasão da Ucrânia por Putin, após rejeitar as tentativas francesas e alemãs de impedir esse trágico crime, deixou o assunto claro, pelo menos por enquanto. A Europa sucumbiu à doutrina do Atlântico e inclusive adotou o objetivo formal dos Estados Unidos de “enfraquecer a Rússia” severamente… à custa da Ucrânia e seja de quem for.

Sem integração, a Europa que depende da Alemanha decairá e a Rússia, com os seus vastos recursos naturais, muito provavelmente gravitará em direção ao projeto de desenvolvimento euroasiático centrado na China e a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative – BRI) e este poder-se-á expandir até a África e mesmo até a América Latina.

Abandonar tudo isto, assim como renunciar à expansão do sistema global BRI, seria um preço muito alto a pagar em troca de estar bem com os Estados Unidos. Estas considerações não estarão ausentes enquanto o sistema mundial se recompõe após a crise da Covid e a invasão russa à Ucrânia.

Existe algo mais nessa relação estratégica entre China e Rússia, duas nações autocráticas, além de limitar o poder e a influência dos Estados Unidos? Até que ponto Washington pode tirar proveito das potenciais tensões e diferenças nessa relação?

O expediente da Guerra Fria é muito revelador. Mesmo quando a Rússia e a China estiveram perto de entrar num conflito bélico, os Estados Unidos insistiam em que uma imaginada aliança “sino-soviética” era uma imensa ameaça.

Chomsky critica a “indignação moral seletiva” de Biden

Algo semelhante aconteceu no Vietname do Norte. Os seus líderes reconheceram que o seu inimigo real era a China. Os Estados Unidos podiam devastar o Vietname com violência, mas, no final, iriam embora. Pelo contrário, a China estaria sempre lá como uma ameaça permanente.

Os assessores norte-americanos não ouviram isso. A diplomacia de Kissinger reconheceu os factos tarde demais e tirou proveito dos conflitos entre Pequim e Moscovo. Não acredito que isso seja uma lição atual, porque as circunstâncias são muito diferentes.

Putin e os seus parceiros parecem ter a visão de uma esfera russa que ocupe um lugar independente entre a aliança do Atlântico e os sistemas globais que têm a China como centro. Isso não me parece muito provável, penso que é mais factível que a China aceite a Rússia como subordinada, que lhe forneça matérias-primas, armamento avançado, talento científico e talvez mais.

A Índia é cortejada pela China, Rússia e Estados Unidos. Deveria estar preocupada com uma possível aliança entre Pequim e Moscovo?

O sul da Ásia enfrenta uma grande catástrofe. O calor do verão já está num nível em que é quase impossível sobreviver. A sua população é muito pobre e o pior ainda está por vir. A Índia e o Paquistão devem cooperar nesta e em outras crises comuns, como a gestão de seus recursos aquíferos cada vez mais escassos. Em vez disso, cada nação dedica os seus exíguos orçamentos em guerras impossíveis de vencer, o que já é um peso intolerável para o Paquistão.

Chomsky: “Putin ofereceu aos EUA uma Europa totalmente subordinada”

Os dois Estados têm graves problemas internos. Na Índia, o primeiro-ministro Modi avança no esforço de destruir a democracia laica indiana que, com todas as suas falhas, continua a ser uma grande conquista da era pós-colonial. O seu programa está focado em criar uma etnocracia hindu racista. É o parceiro natural numa crescente aliança de estados com caraterísticas semelhantes: Hungria, assim como Israel e os seus parceiros no acordo de Abraão, intimamente ligados aos setores duros dos republicanos norte-americanos.

Tudo isto é o pano de fundo para lidar com as questões referentes às relações internacionais da Índia. A nação está num difícil ato de equilibrismo. De longe, o seu principal fornecedor de armas é a Rússia. Está envolvida numa longa e cada vez pior disputa por fronteiras com a China, razão pela qual deve se preocupar com o aprofundamento da aliança entre Moscovo e Pequim. O QUAD (Diálogo de Segurança que inclui Japão, Austrália e Índia), comandado pelos Estados Unidos, tem a intenção de cercar a China, mas a Índia é um parceiro reticente, com pouca disposição para adotar um papel subimperial.

Em que medida o desgaste do imperialismo contribuiu para o declínio da sociedade e em que medida os políticos locais têm influência sobre as decisões de política externa? Até que ponto a decadência dos Estados Unidos representa uma ameaça para a paz e a segurança do mundo?

O declínio mais recente dos Estados Unidos deve-se sobretudo a choques internos, e é algo grave. Uma medida crucial dele é a mortalidade. O título de um estudo recente é “Os Estados Unidos estavam numa crise de morte prematura antes da Covid” nele se demonstra que “antes do início da pandemia, mais pessoas morriam em idade jovem do que noutras nações com riqueza comparável”. Os dados são alarmantes vão além das “mortes por desesperança” que é um fenómeno entre os norte-americanos brancos em idade produtiva, algo inédito.

Chomsky: Abordagem dos EUA à Ucrânia e Rússia “deixou de ser racional”

O “plano radical” para acabar com os vestígios da democracia dos Estados Unidos foi anunciado alguns dias antes das eleições de novembro e foi esquecido na debacle que se seguiu. Recentemente, foi revelado numa investigação da Axios. A ideia fundamental era reverter os programas que existem desde o século XIX de criar um serviço público apolítico e que são uma base essencial para qualquer democracia funcional.

Trump emitiu uma ordem executiva que dava ao presidente (ou seja, a si mesmo) a autoridade para contratar os seus apoiantes para os cargos dirigentes do serviço público, o que seria um passo a mais rumo ao ideal fascista de ter um partido poderoso, com um líder máximo que controla a sociedade. Biden reverteu a ordem.

Os democratas no Congresso buscam aprovar uma lei que proíba esse ataque direto à democracia, mas com toda a probabilidade os republicanos não a aceitarão, porque muitas iniciativas atuais para se estabelecerem permanentemente no poder, apesar de serem minoria, podem dar frutos graças à aprovação do reacionário juiz Roberts.

Não me parece que a campanha conservadora para minar a democracia seja resultado do desgaste da sua posição imperialista, mas da sua natureza e das suas raízes afiançadas no desejo primário de se agarrar ao poder.

ANTINOUS – ANTINOO (Fernando Pessoa)

ANTINOUS (versão portuguesa)

Antinoo (1915)

Era em Adriano fria a chuva fora

Jaz morto o jovem
No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,
Aos olhos de Adriano, cuja cor é medo,
A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa

Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite lá fora
A chuva cai como um exausto alarme
Da Natureza em acto de matá-lo.
Memória do que el´ foi não dava já deleite,
Deleite no que el´ foi era morto e indistinto.

Oh mãos que já apertaram as de Adriano quentes,
Cuja frieza agora as sente frias!
Oh cabelo antes preso p´lo penteado justo!
Oh olhos algo inquietantemente ousados!
Oh simples macho corpo feminino 
qual o aparentar-se um Deus à humanidade!
Oh lábios cujo abrir vermelho titilava
os sítios da luxúria com tanta arte viva!
Oh dedos que hábeis eram no de não ser dito!
Oh língua que na língua o sangue audaz tornava!
Oh regência total do entronizado cio
Na suspensão dispersa da consciência em fúria!
Estas coisas que não mais serão.
A chuva é silenciosa, e o Imperador descai ao pé do leito.
A sua dor é fúria, 
Porque levam os deuses a vida que dão
e a beleza destroem que fizeram viva.
Chora e sabe que as épocas futuras o fitam do âmago do vir a ser;
O seu amor está num palco universal;
Mil olhos não nascidos choram-lhe a miséria.

Antínoo é morto, é morto para sempre,
É morto para sempre, e os amor´s todos gemem.
A própria Vénus, que de Adónis foi amante,
Ao vê-lo então revivo, ora morto de novo,
Empresta renovada a sua antiga mágoa
Para que seja unida à dor de Adriano.

Agora Apolo é triste porque o roubador
Do corpo branco seu ´stá para sempre frio.
Não beijos cuidadosos na mamílea ponta
Sobre o pulsar silente lhe restauram
Sua vida que abra os olhos e a presença sinta
Dela por veias ter o reduto do amor.
Nenhum de seu calor, calor alheio exige.
Agora as suas mãos não mais sob a cabeça
Atadas, dando tudo menos mãos,
Ao projectado corpo mãos imploram.

A chuva cai, e el´ jaz 
como alguém que de seu amor ´squeceu todos os gestos
E jaz desperto à espera que regressem quentes.
Suas artes e brincos ora são c´o a Morte.
Humano gelo é este sem calor que o mova;
Estas cinzas de um lume não chama há que acenda.

Que ora será, Adriano, a tua vida fria ?
Quão vale ser senhor dos homens e das coisas ?
Sobre o teu império a ausência dele desce como a noite.
Nem há manhã na esp´rança de um deleite novo;
Ora de amor e beijos viúvas são as tuas noites;
Ora os dias privados de a noite esperar;
Ora os teus lábios não têm fito em gozos,
Dados ao nome só que a Morte casa
À solidão e à mágoa e ao temor

Tuas mãos tacteiam vagas alegria em fuga
Ouvir que a chuva cessa ergue-te a cabeça,
E o teu relance pousa no amorável jovem.
Desnudo el´ jaz no memorado leito;
Por sua própria mão el´ descoberto jaz.
Aí saciar cumpria-lhe teu senso frouxo,
Insaciá-lo, mais saciando-o, irritá-lo
Com nova insaciedade até sangrar teu senso.

Suas boca e mãos os jogos de repôr sabiam
Desejos que seguir te doía a exausta espinha.
Às vezes parecia-te vazio tudo
A cada novo arranco de chupado cio.
Então novos caprichos convocava ainda
À de teus nervos, carne, e tombavas, tremias
Nos teus coxins, o imo sentido aquietado.

E de pensar, essa luxúria que é 
memória de luxúria revive e toma-Lhe os sentidos p´la mão,
desperta a carne ao toque,
E tudo é outra vez o que era dantes.
No leito o corpo morto se soergue e vive
E vem com el´ deitar-se, junto, muito junto,
E uma invisível mão e rastejante e sábia
A cada uma do corpo entrada da luxúria
Vai murmurar carícias que se esvaem, mas
Se demoram que sangre a derradeira fibra.
Oh doces, cruéis da Párthia fugitivas!

Assim um pouco se ergue, olhando o amante
Que ora não pode amar senão o que se ignora.
Vagamente, mal vendo o que comtempla tanto,
Perpassa os frios lábios pelo corpo todo.
E tão de gelo insensos são os seus lábios que, ai!
Mal à morte lhe sabe o frio do cadáver,
E é qual mortos ou vivos que ambos foram
E amar inda é presença e é motor.
Na dos do outro incúria fria os lábios param
O hálito ausente aí recorda-lhe a seus lábios
Que de pra lá dos deuses uma névoa veio
Entre ele e o jovem. Mas as pontas de seus dedos,
Ainda ociosas perscrutando o corpo, aguardam
Uma reacção da carne ao despertante jeito.
Mas não é compreendida essa de amor pergunta:
É morto o deus que era seu culto o ser beijado!

Levanta a mão pra onde o céu estaria
E pede aos deuses mudos que sua dor lhe saibam.
Que a súplica lhe atendam vossas faces calmas,
Oh poder´s outorgantes! Dá em troca o reino
Nos desertos quietos viverá sequioso,
Nos longes trilhos bárbaros mendigo ou escravo,
Mas a seus braços quente o jovem devolvei!
Renunciai ao espaço que entendeis seu túmulo!

Tomai da terra a graça feminina toda
E num lixo de morte o que restar vertei!
Mas, pelo doce Ganímedes, distinguido
Por Jove acima de Hebe para encher-lhe
A taça nos festins e pra instilar
O amor de amigos que enche o vácuo do outro,
O nó de amplexos femininos resolvei
Em poeira, oh pai dos deuses, mas poupai o jovem
E o alvo corpo e o seu cabelo de oiro!
Ganímedes melhor talvez tu pressentiste
Seria acaso, e por inveja essa beleza
Dos braços de Adriano para os teus roubaste.

Era um gato brincando co´a luxúria,
A de Adriano e a sua própria, às vezes um
E às vezes dois, ora se unindo, ora afastado;
A luxúria largando, ora o àpice adiando;
Ora fitando-a não de frente mas de viés
Ladeando o sexo que semi não espera;
Ora suave empolgado, ora agarrando em fúria,
Ora brinca brincando, agora a sério, ora
Ao lado da luxúria olhando-a, agora espiando
O modo de tomá-la no aparar da sua.

Assim as horas se iam das mãos dadas de ambos,
E das confusas pernas momentos resvalam.
Seus braços folhar mortas, ou cintas de ferro;
Agora os lábios taças, agora o que liba;
Olhos fechados por de mais, de mais fitantes;
Ora o vai-vém frenético operando;
Ora suas artes pluma, ora um chicote.

Viveram esse amor como religião
Oferta a deuses que, em pessoa, aos homens descem.
Às vezes adornado, ou feito enfiar
Meias vestes, então numa nudez de estátua
Imitava algum deus que de homem ser parece
Pela do mármore virtude exacta.
Agora Vénus era, alva dos mar´s saindo:
E agora Apolo ele era, jovem e dourado;
E agora Júpiter julgando em troça
A presença a seus pés do escravizado amante;
Agora agido de rito, por alguém seguido,
Em mistérios que são sempre repostos.

Agora é algo que qualquer ser pode.
Oh, crua negação da coisa que é!
Oh de aurea coma sedução fria de lua!
Fria de mais! De mais! E amor como ela frio!
O amor pelas memórias do amor seu vagueia
Como num labirinto, alegre, louco, triste,
E ora clama o seu nome e lhe pede que venha,
E ora sorrindo está à sua imagem-vinda
Que está no coração quais rostos na penumbra,
Meras luzentes sombras das formas que tinham…

Erguer-te-ei uma estátua que será
Prova, para o contínuo das futuras eras,
Do meu amor, tua beleza e do sentido
Que à divindade p´la beleza é dado.
Que a Morte com subtis mãos desnudantes tire
A nosso amor as vestes do império e da vida,
Ainda a dele estátua que só tu inspiras,
As futuras iades, quer queiram, quer não,
Hão-de, qual dote por um deus imposto,
Inevitavelmente herdar.

Como o amante que agurada, assim ele ia de
Canto a canto do em dúvida confuso de espírito.
Ora sua esperança um grande intento era
De que o anseio fosse, ora ele cego se
Sentia algures no visto indefinido anseio.
Se o amor conhece a morte, que sentir se ignora.
Se a morte frustra amor, que saber não sabemos.
A dúvida esperava, ou duvidava a esp´rança;
Ora o de sonhar senso ao que sonhava anseio
Escarnecia e congelava em vácuo
De novo os deuses sopram a mortiça brasa.

A tua morte deu-me alta luxúria mais
Um carnal cio em raiva por eternidade.
No meu imperial fado a confiança ponho
Que os altos deuses, por quem César fui,
Não riscarão de vida mais real
Meu voto de que vivas para sempre e sejas
Na deles melhor terra uma carnal presença,
Amável mais, mais amorável não, pois lá
Não coisas impossíveis nossos votos jaçam
Nem corações nos ferem com a mudança e tempo.

Amor, amor, Oh, meu amor! Já és um Deus.
Minha esta ideia, que por voto eu tomo,
Voto não é, mas vista que me é permitida
Pelos grãos deuses, que amor amam e dar podem
A corações mortais, sob a forma de anseios,
De anseios que alvos têm indescobertos,
Uma visão reais coisas para além
De nossa vida em vida aprisionada, nosso sentido no sentido preso
Ai, o que anseio que tu sejas, és tu já.
Pois já o Olimpo o território tu pisaste e és perfeito, sendo tu embora
Pois excesso de ti não precisas vestir
Perfeito para ser, a perfeição que és. 

Amor, meu amor-deus! Que eu beije, em frios teus
Lábios, teus quentes lábios imortais agora,
Saudando-te beato nos portais da Morte.
Pois que pra deuses são portais da Vida.

E aqui, memória ou estátua, ficaremos
O mesmo um só, qual de mãos dadas éramos
Nem as mãos se sentiam por sentir sentir.
Ver-me-ão os homens quando o que és entendam.
Podiam ir-se os deuses, no vasto rodar
Das curvas eras. Só por ti apenas,
Que, um deles, no ido bando houveras ido,
Viriam, qual dormissem, para despertar

E se a nossa memória a pó se reduzisse,
Uma divina raça do fim das idades
Nossa unidade dual ressuscitava.

Ainda chovia. Em leves passos veio a noite
Fechando as pálpebras cansadas dos sentidos.
A mesma consciência de eu e de alma
Tornou-se, qual paisagem vaga em chuva, vaga.
O Imperador imóvel jaz, e tanto que
Semiesqueceu onde ora jaz, ou de onde vem
A dor que era inda sal nos lábios seus.
Algo distante fora tudo: um manuscrito
Que se enrolou. E o que sentira a fímbria era
Que halo é em torno à lua quando a noite chora.

A cabeça pousava sobre os braços, estes
No baixo leito, alheios a senti-lo, estavam.
Os seus olhos fechados cria abertos, vendo
O nu chão negro, frio, triste, sem sentido.
Doer-lhe o respirar tudo era que sabia.
Do tombante negrume o vento ergueu-se
E tombou; lá no pátio ecoou uma voz;
E o Imperador dormia…
Os deuses vieram….
E algo levaram, qual não senso sabe,
Em braços de poder e de repouso invisos.

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Poemas Ingleses. Fernando Pessoa. tradução de Jorge de Sena