O QUE TE CONSAGRA

V2por004

 

O que te consagra,
pássaro de asa torta
e sombra magra,
é o voo.

O que dá sentido
à tua tentativa
de alcançar a costa,
lançado por cima da onda

que não quer o teu bem,
pássaro de asa franzina
e voz-ninguém,
é o próprio esforço

de chegar à praia,
atravessando a chuva
e o vento de agosto,
que te empurra e atrasa.

O que te realiza,
pássaro cansado,
que atravessaste o canal
de lado a lado,

que atravessaste o mar,
lutando contra
os contratempos do ar
e as inconstâncias da nuvem,

pássaro de asa qualquer,
não é o pouso
nem a façanha de arder
como um fogo melhor

por cima de ti mesmo
(entre a meta e o valor),
sombra magra –
é o voo.

(RS)

Um dia poético

Um dia poético

por-poem

Queria pagar-me com poesia: Frank O` Hara e Herberto.
Se lhe falo da minha vida, este quarto incendeia-se de dor.
Se me ponho nua atrás de um livro, 
não há poema que me sobreviva.
Sei que o tipo é um intelectual a atirar para os lados da angústia.
Ponho-me de joelhos e acendo um cigarro.

 

Foda-se, poeta, em que página acaba o teu desespero?

 

Depois de Pessoa não há poesia que me faça vir.
Apenas a consciência me mantém refém
da tua falta de inspiração.

 

Seja como for, doutor, o meu tempo 
não é poema que se escreva.
Antes seres crítico em relação às leis do meu corpo
do que sentires a agonia de nenhuma palavra nua.

 

Eu sei, faço o que posso 

para a tua poesia não acumular dívidas.

 

fernando esteves pinto – 1966

semana santa (poética)

gripe-coelho

o GRANDE CIRCO desceu à republica…

o facebook e blogs (leia-se –> seus usuários) anda(m) numa azáfama…
tudo começou, ao que parece, no dia mundial da poesia.
nesse dia, 21 de março, comprámos o “jornal nosso de cada dia”.
e
nem mais…
logo na primeira página
a foto da mui simpática e dialogante ministra de sócrates… a da educastração.
a lulu…
precisamente.
a ministra do grande philósofo e não menos grande —> político da nossa praça.
o poema da simpática senhora abria da melhor forma:
“tem faltado espaço de diálogo, e é pena”
“tem faltado espaço de diálogo, e é”
“tem faltado espaço de diálogo, e”
“tem faltado espaço de diálogo”
“tem faltado espaço de”
“tem faltado espaço”
“tem faltado”
“tem…

mesmo.

e
quem não dá espaço ao diálogo (segundo a grande poetisa – com direito a 3 páginas no periódico) é o seu sucessor
—> o ex-stalinista convertido por magia ao neo-liberalismo da nova coelheira
um tal nuno…

no dia seguinte – 22 de março
recebemos emails em barda
emails-convite para que subscrevêssemos uma petição contra a possível presença do “engenheiro-philósofo” como comentador televisivo na RTP.
claro…
o homem está (mesmo) de volta

as férias douradas de paris atingiram o terminus.

ora bem, não assinamos nem assinaremos coisa nenhuma
queremos saber (estamos curiosos em saber) se o homem concluiu a sua licenciatura em filosofia lá em paris
queremos saber muitas outras coisas
por exemplo:…
como explicará a sua decisão de transformar (enquanto governante do grande circo) a dívida do banco privado “BPN” em dívida pública
queremos, enfim, saber muita coisa que, por certo, ele jamais esclarecerá
tão pouco o seu sucessor
ou mesmo
aquele senhor que vive em belém
e
já agora:…
para quê uma petição se as televisões têm um interruptor ou um comando que nos permite cortar a emissão ou mudar de canal?…

é…!

vamos entrar na “semana santa”

e

o coelho prepara-se para nos oferecer o ovo da páscoa

que lindas surpresas se adivinham…!?

COZIDO À PORTUGUESA

cozido

 

Entre o cheiro acre da morcela e

o arroz que não há

— falamos de mães (algumas) bordadas

de giesta.

O vinho era um deus circunciso

como se a branca parede recta

movida fosse por lanternas

(“dedadas” — diria o meu amor quase albanês).

Ao fundo, chuva e

laranjas de Lisboa.

Pego no pão claro, embrulho-o

no toucinho, lembro-me

que Sartre talvez comesse de outro modo

o cozido à portuguesa — e avanço magnético

pela tarde acima, porque

de chouriços de carne

também se constroem bandeiras.

 

fernando grade

ansiedade – de renato suttana (fim)

aves-69

XIX

Infeliz de quem sonha
e espera de setembro
uma boa notícia,
alguma explicação.

 

Não há nada na brisa
nem no circo das árvores,
nem sobre a curvatura
do azul, cego e tranquilo,

 

que lembre uma palavra:
ou sobre o calçamento
de granito das ruas,
ou sobre a aresta simples

 

dos telhados, ou entre
as velhas rachaduras
já mais que familiares
que enfeitam as fachadas.

 

XX

 

Se esperas a mensagem,
se esperas um aviso,
se da garganta infiel
de algum desconhecido

 

que alguém mandou aqui
te dar a explicação,
se esperas que se mova
o cadáver incrível

 

de setembro, perdido
entre os molhos de hortênsias,
se esperas que esse torso
se mova e, decisivo,

 

te acene da distância,
melhor pedir aos corvos,
melhor clamar aos corvos
que ainda não chegaram.

 

XXI

 

As horas em setembro
são mastros destroçados,
são bússolas de areia,
são leopardos de seda.

 

Nos túmulos da brisa,
pousam corvos, propondo
enigmas indecentes
às orelhas do vento.

 

Também eles ignoram
(porque a tanto não chegam)
os esquemas das nuvens,
que lhes mostram a língua.

 

Sobre as lápides (gregos)
cantam, com voz fingida,
omitindo passagens,
um hino torto e preto.

 

Renato Suttana

1/3-10-2012