Um dia de nojo

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Este pensamento anti-inflamatório
quando sinto espalhar-se pelo quarto
lenços perfumados, cremes, frio,
rancor e preservativos.

 

Sei que se ganha a vida sempre à rasca
e perde-se à vontade.
A verdade e a ternura são produtos que nada vendem.
Mas o negócio segue em frente como as meninas na estrada.
Ainda esta solidão que não merece o meu pensamento:

 

o ardor das carícias, as unhas lascadas, os escarros.
Os barcos permanecem no estômago da noite.

 

Restam por aqui esses abortos 
que regateiam a minha esperança. 
Velhos encalhados nas margens do álcool, 
dispostos a desatar os nós do meu desespero.
E porque as minhas voltas são sempre nós apertados,
assim me deixo ficar:
em ódio, em nojo
e em veneno.

fernando esteves pinto – 1967
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Um dia poético

Um dia poético

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Queria pagar-me com poesia: Frank O` Hara e Herberto.
Se lhe falo da minha vida, este quarto incendeia-se de dor.
Se me ponho nua atrás de um livro, 
não há poema que me sobreviva.
Sei que o tipo é um intelectual a atirar para os lados da angústia.
Ponho-me de joelhos e acendo um cigarro.

 

Foda-se, poeta, em que página acaba o teu desespero?

 

Depois de Pessoa não há poesia que me faça vir.
Apenas a consciência me mantém refém
da tua falta de inspiração.

 

Seja como for, doutor, o meu tempo 
não é poema que se escreva.
Antes seres crítico em relação às leis do meu corpo
do que sentires a agonia de nenhuma palavra nua.

 

Eu sei, faço o que posso 

para a tua poesia não acumular dívidas.

 

fernando esteves pinto – 1966

Um dia de raiva

 

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Despejo a mala de verniz por cima da cama.
Tudo o que me dá vómitos: crostas, furúnculos, pus.
Nenhuma enfermeira tem melhor estômago que eu.
Mas sou humana no prazer e a receita exige
que seja eu uma parte da doença.

 

Ponho a mala ao ombro e estou de novo num beco amargo
onde a noite me oferece o primeiro cliente.
Sai-me um velho que me morde com as gengivas.
Ensaia a sua doença com ataques de tosse e sangue,
e não evita revelar as suas habilidades flatulentas
nesta arte do sacrifício e do desejo.

 

Vejo luzes de cemitério, flores brilhantes,
um cortejo de bofetadas a entrar-me nas veias.
É este o preço sempre a desfalecer, 
o asco pelo meu trabalho.

 

Sabes que não é fácil, querida, sentir um orgasmo
quando a meteorologia das tuas emoções
dão sempre uma margem de engano.

 
fernando esteves pinto1965 

Património Bukowski

bukowski

 

O pouco que li de Charles Bukowski foi no inferno. Não é que eu frequente muito o inferno propriamente dito, mas às vezes vou lá parar. Na verdade, o primeiro Bukowski que conheci foi o meu irmão Victor Mendes, pescador exímio e dono duma frota de prostitutas. A única diferença entre o meu irmão e Bukowski é que o meu irmão nunca escreveu um poema. De resto, estava lá tudo: os esquemas e as tabernas; as meninas dos becos e os clientes das valetas. Mas também o vinho e o desespero; as navalhas à vista quando alguém se esquecia que o prazer trazia fatura. Como devem perceber, poesia não me faltava. Quando o meu irmão ia para a faina eu é que tomava o lugar dele ao leme do destino das meninas. Ficava a vê-lo partir, as meninas ao meu lado, todos nós sentados na areia morna da praia, e elas descruzavam as pernas em sinal de bênção pelo herdeiro que o meu irmão lhes deixava. Porém nunca comi nenhuma, porque eu não era o Bukowski. A minha função era passear com as damas pelas ruas de Cascais, entrar em alguma tasca para um copo de laranjada. Se havia negócio, o patrão era eu. Lembro-me que uma noite dormi com a rainha: miúda da Madeira, dezoito anos bem usados. Também dessa vez não fui Bukowski. Nem ode nem redondilha – creio que adormeci como um anjo.
Quando entrei na adolescência, jurei a mim mesmo que não gostaria de ser um Bukowski. E não sou, decididamente. Raramente frequento bares. Putas, bom dia boa tarde, até porque de noite raramente saio de casa. Conheço todos os ambientes da perversão e da fantasia. Corri perigos. Sei quando elas falam verdade. Esqueci certos pormenores, mas ficou-me um grande respeito pela vida dessas mulheres que contribuíram de alguma forma para a minha formação. De Bukowski, meu irmão pescador, ficou-me as palavras e nunca os seus atos. Não que ele fosse um canalha – sempre o conheci bastante generoso: uma espécie de teto humano que abrigava as raparigas perdidas. Quando comecei a escrever fui buscar ao passado parte do património do Bukowski. Estão a ver o meu dilema? Aos doze anos de idade fui bukowski sem escrita e agora sou escritor sem a pinta do bukowski. Há vidas que só servem para baralhar.

Fernando Esteves Pinto