um quase manifesto (artístico/poético qb)

as casas roubadas deixam sempre os livros com tinta radioativa

para mudar a linguagem, necessário será – utilizar outros tipos de letra para uns, livros transparentes para os que gostam de ler e estabelecer ritmos internos, escrever regulamentos e manifestos com sangue, mergulhar com armas de fogo e escrever um poema e traduzi-lo (para línguas não usuais) várias vezes até que a obra flutue numa piscina infantil infestada de tubarões martelo
assim:…

“quando mudas de idioma, podes ler e definir rimas transparentes e, escrever regras ou manifestos. expressar-te num mergulho em rios ensanguentados. escrever com ou sem armas. escrever no corpo nu. traduzir piscinas de fogo, sem ser preciso usar livros flutuantes. fomos, sim, martelados pelos sonhos infantis dos tubarões” (1)

ou ainda:…

“quando mudas o linguajar, poderás ler ou definir todas as causas – mesmo as mais nuas. mesmo as que invadem a tua transparência. mesmo as que disparam regras – ainda que internas. então escreves sangue, fogo, arma e, mudas de vida como livros estrangulados – os que flutuam nas piscinas para domesticar os sonhos de tubarões martelados por crianças” (2)

pés-frasco

começámos
ou não começámos
não será (nunca) essa a questão
a questão é outra e é nobre
mas não devemos – decididamente – ter água nas asas e tão pouco deixarmo-nos seduzir pelo mundo que nos cerca
temos de satisfazer algumas necessidades aristocráticas no que toca ao conforto e, trazer à tona mais desordem e a ilusão que, muitas vezes, nos invade
há que escrever cada palavra de um longo poema – ao acaso – em autocolantes (ou nos tradutores automáticos que invadiram o nosso quotidiano e traduzi-los várias vezes). para que, depois, possamos colar a coisa nos carros estacionados na nossa rua
para o efeito, podemos usar linhas d’água como versos, pisos como estrofes, árvores como sonetos e, senhas-refeição (fora de prazo) para uma entrada triunfal na ópera de milão
há os que argumentam ser, estas propostas, ousadas ou mesmo notoriamente desequilibradas e, assim, virem a tornar-se – provavelmente – objectos passíveis de provocar tumultos, gestos obscenos, gritos, pragas ou outras quaisquer maldições
os autores de tais acções correm (sempre) o risco de que os espertos na crítica literária considerem o seu trabalho como lixo – claro que não será grave uma vez que o lixo é, muitas vezes, um luxo e haverá sempre um escriba disponível para carregar o fardo da verdade institucional

compilar listas de linguagem corporal ambígua pode ser importante para o criador destas acções poéticas – uma vez que nunca se sabe da possível presença de outro operador estético portador de uma navalha (no bolso) ou mesmo de um anúncio gratuito visível na internet. será sempre importante tirar fotos dos actos individuais ou colectivos para que possam ser inseridas em mostras mais ou menos provocadoras – nunca descartar a hipótese de utilizá-las em planos de publicidade com velhas lâmpadas néon

nós optamos por soletrar textos construídos pela via do processo de foto-colagem nas paredes do estúdio e/ou também na estrutura do livro em processo – de acordo com os sonhos projectados ou pintados no divã

nunca construímos réplicas mesmo que vestidas. somos pelo nu original – ainda que em pedaços, ainda que gravado. as nossas obras estão organizadas por graus (de insignificância) uma vez que os nossos arados esgatanham estéticas amargas – as que provoquem o desapontamento de lápides fúnebres – muitas vezes, perscrutamos odores artísticos. os mais obsoletos
escrevemos a itálico (inclinado para a esquerda – sempre para esse lado) sobre folhas de papel alongadas, as frases do momento em que a história fez sentido. é por isso que alimentamos o papel com tinta, com manchas de café, com o terminal de fax e, com a impressora que abraça o ordenador com os cabos – as extremidades desses cabos, penetram (com algum prazer) as máquinas, formam uma espécie de cinto que tortura e cobre superfícies – apenas para que se sinta o ritmo das palavras em queda (sobre as pedras da calçada). por vezes prodigalizamos o enterrar letras em frascos para que as suas células germinem – como colmeias de palavras – que expressam todas as idas e regressos das sobremesas – as que deliciarão as gerações vindouras
a questão que se põe (a seguir) passará pela escolha dos bolsos. num deles está o porta-chaves, no outro uma navalha. com o porta-chaves abrimos o nosso estúdio, com a navalha cortamos um naco de pão que nos permitirá manter o encanto de um jantar frugal
todos os dias removemos torres. as que cimentam a nação. com tal tarefa, impediremos que essas construções matem a palavra que esvoaça (quer esvoaçar) em liberdade
sem muros, criaremos colagens-cadáver. escreveremos em todos os rodapés da casa e, em seguida, desenharemos paredes forradas de letras tão só para soletrar os muitos tons de pele pastosa infestados de frases que aquecerão os invernos dos próximos seres da nossa espécie

escrevi, na língua, a poesia falada nos recantos do velho bairro
escrevi, nos minutos que se cruzam, quadrados traçados
foi à noite
e
de manhã…
escrevi, nos cabelos, poemas incrustados de goma e parafusos
e
assaltei a iluminação urbana

só depois, vomitei megafones para reproduzir fotografias sepia
e, com tochas de butano, queimei imagens sagradas – claro que as fotografei
para que se pudessem prenunciar em conferência
para que fornecessem as instruções precisas
para que gerassem obras de arte

as mãos estão soldadas a placas comemorativas de latão
e tu, portador de certa importância filosófica, transportas contigo o teu velho guarda-chuva disfarçado de sarcófago voador

“escrevi poemas no canto dos meses
escrevi minutos crucificados
na noite
e
em todas as manhãs
escrevi cabelos nas gengivas
e mergulhei nos fogos da cidade

muito depois disso, impermeabilizámos os livros
e
fotografámo-los com rosas apodrecidas nos moinhos de vento
queimei o cachecol – e pensei. e falei. e reuni
tudo estava (ou parecia) certo

então, as mãos associaram-se a memórias de outras memórias
e tu, transportando as economias filosóficas que arrecadaste, tiveste tempo para devorar os antepassados em caixões carregados por negros guarda-chuvas” (1)

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(1) o texto base foi traduzido pelo google-tradutor 5 vezes (em línguas que não utilizam alfabetos latinos) antes de voltar à língua original – neste caso o português

(2) o texto base foi traduzido pelo google-tradutor 6 vezes (em línguas que utilizam alfabetos latinos) antes de voltar à língua original

nota: apenas foram optimizadas expressões e/ou trechos de forma a criar alguma harmonia poética

Sangue de Nuvens de Manuel Neto dos Santos

O livro do nosso colaborador Manuel Neto dos Santos será apresentado na Biblioteca Municipal de Vila Real de Santo António.

neto dos santos 55

“Em Sangue de Nuvens descobrimos Manuel Neto dos Santos (MNS), o homem por detrás do acto da escrita, o ser que alimenta o poeta que escreve na epiderme das suas memórias, os lugares e momentos que esculpiram o escritor e, com maior profundidade, na derme, o seu imaginário pessoal, os recantos mais sombrios desvelando a sua plena condição humana…”

“… A safra poética de Manuel Neto dos Santos é a perfeita simbiose entre a súmula da poesia do seu tempo e o murmúrio de levantino lirismo da brisa arábico-andaluza: «deambulo sob um céu por um remontíssimo país não vivido nem real; e ouço as azuladas cantigas quando, a sós, me debruço para apanhar as rosas que me trazem a tua memória. Amo- te agora muito mais, meu país ao Sul da minha terra; Portugal». Uma vez mais com o mar como espelho reflector do caleidoscópio emocional, cuja intemporalidade nos perfilha no simples acto de contemplar. A divisa notável de um dos maiores poetas ao Sul. A poesia de Manuel Neto dos Santos tem raízes bem demarcadas, mas não pode ter, é imperativo que não tenha, a geografia da sua ressonância definida. Em boa hora alastrou o perfume da sua poesia por terras do Andévalo. Ganha a língua portuguesa um magnífico embaixador na pátria de Cervantes e convoca Espanha numa voz poética de rara profundidade e excepcionalidade. “

Com prefácio e tradução do poeta João Miguel Pereira; a obra poética surgida do convite por parte do poeta José Luís Rua Nacher, publicada pela editorial Wanceulen, de Sevilha, na colecção de Ayamonte de Livros de Estraperlo; uma aventura poética do Grupo de poetas do Guadiana espanhol.

Lançamento oficial dia 20 de Abril na Biblioteca Municipal de V.Real de Sto António

um plágio (bem feito)

— és poeta
perguntaste
— um plagiador
respondi

— plagiei todos os poetas que li
naveguei o único poema que a(ssa)ssinei

um poema-cavalo-branco a galopar nas minhas veias
a ensaiar saltos-precipícios

um poema-sexo-lâmina-de-duas-faces
um poema-em-fuga (foge todas as noites da minha cama para foder com outros)

uma masturbação (como muitas outras)

sanitário

— és poeta
perguntaste
eu, vazio de lembranças, assolado pelas consternações do teu corpo despejado (a esmo) nos lençóis, encalhado nas ruas de barcelona, sem música, sem geografia, sem ir à horta onde as raízes pensam e o vinho escorre por entre

fábulas de almanaque…

eu que não existo

mesmo antes de estar morto, não existo

só disse
— tu… há muito que dormes comigo. na minha cama. tudo começou muito antes de te conhecer.
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer – fui surpreendido pela arquitectura do teu corpo-prazer-ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio – que me mantém vivo

sem vestígios de arrependimento

— és poeta
perguntaste
e eu…
só disse
— os malditos espreitam canções impossíveis. entregam os braços ao espelho da hipocrisia para não interromper os devaneios da tua boca

e, aos portadores de bandeiras, adiantei

— num campo nublado devemos reclamar a nossa capacidade

de amar

sem bater os calcanhares

rodemos em torno de nós próprios…

disparemos a revolta

incendiemos a praia numa dança

sonhemos horizontes de pássaros nos ombros

praguejemos

mergulhemos na doce e desejada decomposição do quotidiano

e

no chão dos sonhos

sintamos o soprar do vento que nos queima a pele

o loiro vento dos mortos fez ninho nas planícies do teu peito

quero descansar nas ruínas do maldito império
enamorar-me do rio que as atravessa
casar com ele

passearemos por entre as velhas pedras
os nossos véus de noivado (negros) serão suportados por dois adolescentes
ele de marinheiro
ela desnuda

sou, todo eu

um plágio

uma janela aberta por onde transparecem milhares de imagens roubadas

premeditadamente

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à mesa do café gelo – 1972

(foi publicado numa revista no algarve – completamente degradado)

hoje… os bancos (do livro “os bancos antes da nacionalização) de antónio aragão

a “gripe das aves” não quer (nem pode) deixar em claro os acontecimentos nacionais – nunca!… a “gripe das aves” soube do BANIF e, em apoio total à banca nacional, resolveu “postar” este excelente livro de António Aragão (poeta experimental lusitano): “os bancos antes da nacionalização”. claro que é coisa antiga – dos idos anos de 70 – mas sempre actual.

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Os bancos antes da nacionalização / António Aragão ; colab. fot. de Helmut M. Winkelmayer | AUTOR(ES): Aragão, António, 1935-2008; Winkelmayer, Helmut M., fotogr. | PUBLICAÇÃO: Funchal : A. Aragão, 1975

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Sobre o autor: António Aragão (António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia) – Pintor, escultor, historiador, investigador, escritor e poeta, António Aragão foi um dos maiores vultos da cultura portuguesa, do século passado até aos dias da sua morte física, acontecida em 2008.

António Aragão nasceu em Portugal, na ilha da Madeira, em S. Vicente, a 22 de Setembro de 1921. Faleceu no Funchal a 11 de Agosto de 2008. Cedo quebrou as barreiras do isolamento geográfico para alcandorar-se aos palcos académicos e depois ganhar, com elevado mérito, estétca, arte e técnica, um lugar de vanguarda na cultura portuguesa.

Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Biblioteconomia e Arquivismo pela Universidade de Coimbra. Estudou Etnografia e Museologia em Paris, sob a orientação do Director do Conselho Internacional de Museus da UNESCO. Cursou no Instituto Central de Restauro de Roma, onde se especializou em restauro de obras de Arte e estagiou no laboratório de restauro do Vaticano. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e Roma.

Homem de criatividade rica, irrequieto, polémico, inconformado, por vezes excêntrico até, deixou a sua marca pessoal indelével por onde passou. Era difícil não dar por ele quando metia mãos à obra, quer fosse na investigação da história e da etnografia, quer quando esculpia, pintava ou escrevia. A proporção do acervo que legou a Portugal, e em particular à Madeira, é muito mais rico, em quantidade e qualidade, do que o reconhecimento e merecimento que devia ter recebido da região e do país. Desse ponto de vista, ainda está por fazer-se a verdadeira homenagem a António Aragão, apesar de, ainda em vida e num gesto essencial, ter recebido da Câmara Municipal do Funchal uma rua da cidade com o seu nome. (fonte: Wikipédia)

dois poemas de vasco câmara pestana

RELÍQUIAS

Os aventureiros que passam por um largo portão
os aventureiros que se passam !

— O que se está a passar com as estátuas ?
Quem se aventurou para dentro de um espelho ?
dum sótão à procura de relíquias
minhas irmãs e irmãos
meus e minhas
Alices do País das Maravilhas
o Comité Central do meu eu
ama-vos !

lobos

NUNCA !

Abrem-se portas lentas
medievais nos seus complicados gonzos.
Em tudo isto parece que sinto
a existência de algo imaterial frio demoníaco !

De olhos friamente exaustos
movendo-se na mesa à luz de um candeeiro
nas paredes e no chão
horas do meu relógio de pulso
vozes maquinismo de manuscritos crepitando
a raiz retocando fugitivamente.

Ah sim, alimento a horas certas os meus bichinhos de estimação
mesmo quando lá fora está um tempo inflamado de Verão
ou na severidade do Inverno.

Não me interessa saber onde estou
afinal nunca mudei de lugar
NUNCA !