o teatro pode salvar humanidade da tirania dos algoritmos

forgotten decay Cinema

 

Mensagem do Dia Mundial

A mensagem deste ano – dia mundial do teatro – é da autoria da dramaturga mexicana Sabina Berman. “Berman  faz parte do grupo de cinco actores, encenadores e dramaturgos, escolhidos pelo Instituto Internacional do Teatro (IIT), criado há 70 anos, para escreverem a mensagem de 2018 do Dia Internacional do Teatro e que se assinala a 27 de março”.

 

As Américas

por Sabina Berman, México Escritora, dramaturga, jornalista

Podemos imaginar. 

A tribo caça pássaros lançando pequenas pedras ao ar, quando um gigantesco mamute surge em cena e RUGE – e, ao mesmo tempo um pequeno humano RUGE como o mamute. Todos fogem de imediato… 

Esse rugido de mamute proferido por uma mulher humana – quero imaginá-la mulher – é a origem, o que nos torna a espécie que somos. Uma espécie capaz de imitar o que não somos. Uma espécie capaz de representar o Outro. 

Saltemos dez anos, ou cem, ou mil. A tribo aprendeu a imitar os outros seres e representa no fundo da caverna, na luz trêmula de uma fogueira, quatro homens são o mamute, três mulheres são o rio, homens e mulheres são pássaros, chimpanzés, árvores e nuvens: a tribo representa a caçada da manhã, capturando o passado com seu dom para o teatro. Mais surpreendente: desta forma a tribo inventa possíveis futuros, ensaia possíveis maneiras de vencer o inimigo da tribo, o mamute. 

Rugidos, assobios, murmúrios – a onomatopéia desse primeiro teatro – tornar-se-ão linguagem verbal. A linguagem falada tornar-se-à linguagem escrita. Seguindo esse caminho, o teatro se tornar-se-à rito e, mais tarde, cinema. E na semente de cada uma destas formas, continuará presente o teatro. A forma mais simples de representação. A única forma viva de representação. O teatro, que quanto mais simples é, mais intimo nos conecta com a mais maravilhosa habilidade humana, a de representar o Outro. 

Hoje, em todos os teatros do mundo, celebramos essa gloriosa habilidade humana de fazer teatro. De representar e assim, capturar o nosso passado para melhor o entender – ou inventar possíveis futuros, que podem trazer mais liberdade e felicidade à tribo. 

Eu falo, claro, das peças que realmente importam e transcendem o entretenimento. As peças que importam, hoje são propostas – da mesma forma que as mais antigas: derrotar os inimigos contemporâneos da felicidade da tribo, graças à capacidade de representar. 

Quais são os mamutes a serem vencidos hoje no teatro da tribo humana? 

Digo que o maior mamute de todos é a alienação dos corações humanos. A perda da nossa capacidade de sentir com os Outros: sentir compaixão. E nossa incapacidade de estar com o Outro não-humano: a Natureza. 

Que paradoxo. Hoje, nas margens finais do Humanismo – da era do Antropoceno – da era em que os seres humanos são a força natural que mais se transformou e mais transformou o planeta – a missão do teatro é inversa à que reuniu a tribo originalmente para fazer o teatro no fundo da caverna: hoje, devemos resgatar nossa conexão com o mundo natural. 

Mais do que a literatura, mais do que o cinema, o teatro – que exige a presença de seres humanos diante de outros seres humanos – é maravilhosamente adequado à tarefa de nos salvar de nos tornarmos simples algoritmos. Abstrações puras. 

Deixem-nos remover do teatro tudo o que é supérfluo. Deixem-nos desnudá-lo. Porque quanto mais simples é o teatro, mais fácil é lembrarmo-nos do único facto inegável: nós somos, enquanto estamos no tempo; que somos e enquanto somos carne e osso e corações batendo em nosso peito; que somos o aqui e agora, apenas.

 

Viva o teatro. A arte mais antiga. A arte mais presente. A arte mais maravilhosa. 

Viva o teatro. 

 

arte debaixo do fogo!… assim vai o brasil

Queer

 

um ano após o golpe dum tal TEMER, o fascismo abençoado pelos pentecostais (neo) mostra as suas garras…

curioso é, ou seria, saber qual a posição actual de certos blogueiros que na web lusitana não se cansaram de denunciar uma suposta ditadura dos que ocupavam o poder antes dos que – em nome de um tal jesus, da mãe, da tia e irmãos em cristo – impõem um estado de corrupção e de pseudo-moralismo.

teríamos curiosidade, sim, em saber como reagiram a estas notícias onde se fecham portas a:

1 – uma exposição colectiva (artes plásticas – pinturas, gravuras, fotografias, colagens, esculturas, cerâmicas e vídeos) onde estavam representados autores  sobejamente conhecidos e conceituados como: Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Clóvis Graciano e Ligia Clark.

a mostra “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira”, apresentada pelo banco santander, viu-se envolvida em polémicas e protestos alimentados por grupos de fanáticos pentecostais e pelo MBL (movimento brasil “livre”)…

donde se infere que o tal “livre” é inimigo figadal da liberdade.

sobre a mostra destacamos as palavras gaudêncio fidélis:

… “Em seguida que eu fiquei sabendo do cancelamento da exposição, eu tive um momento de profunda tristeza, te confesso. Me trouxe às lágrimas, vou até te dizer. É um sentimento de tristeza porque uma exposição desta grandiosidade conta com todo o envolvimento destes artistas, dos colaboradores, dos colecionadores, dos profissionais, da enorme gama de profissionais que colaboram para essa exposição. Essa exposição começou a ser pensada em 2010! É uma tristeza ver que isso tudo acabou, que foi tirada da visibilidade pública depois de apenas dois dias e meio de manifestações das mais reacionárias de parte deste grupo que a gente conhece como MBL.

Também tem a tristeza pelos artistas, pela produção dos artistas e por esse precedente terrível que é o fechamento desta exposição. Acho que nós somos confrontados com uma questão dramática: como será o universo da produção artística e cultural do país quando um precedente destes se abre? Que tipo de incidentes similares nós vamos ter quando, tão rapidamente, um grupo de extrema direita e tão reacionário consegue fechar uma exposição desta grandiosidade? Então, foi um momento de muita tristeza. Mas agora é preciso, inevitavelmente, participar de um processo longo e penoso de esclarecimento da opinião pública e de quem gosta de arte. Tem que ser, de alguma maneira, porta-voz dos artistas junto ao público sobre o que isso tudo significa, esclarecer os equívocos sobre essa narrativa falsa que eles criaram. Acho que essa tarefa eu tenho que cumprir. Meu interesse nisso é o esclarecimento e não um uso sensacionalista”.

da entrevista ao curador da mostra, gaudêncio fidélis, que pode ser lida na integra – aqui

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2 – uma peça teatral cujo protagonista é um transexual no papel de jesus – a peça é cancelada por decisão judicial.

a peça “O evangelho segundo jesus, rainha do céu” é da autoria de jo clifford, “busca resgatar a essência do que seria a mensagem de Jesus: afirmação da vida, tolerância, perdão, amor ao próximo. na peça jesus encarna num travesti, na identidade mais estigmatizada e marginalizada da nossa sociedade”.

a mensagem é de amor. é de carne e fala de um corpo político, alterado, constantemente violentado e oprimido. mas também cheio de vida, alegria e potência.

O evangelho segundo jesus, rainha do céu” contesta a tutela sobre os corpos, o patriarcado e o capitalismo.

natália mallo, tradutora e directora do espectáculo, afirma:

Desde a nossa estréia, há um ano, passamos por diversas situações de violência: ameaças de censura, ameaça física, insultos e difamação na internet, etc. Mas esta é a primeira vez que o espetáculo é impedido de acontecer.

O conteúdo da liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, da 1º Vara cível de Jundiaí, que resultou no cancelamento, é um tratado de fundamentalismo e preconceito…..

… Todas as situações de violência que passamos tiveram algo em comum: contestam a presença de uma travesti em cena interpretando Jesus.

Afirmar que a travestilidade da atriz representa em si uma afronta à fé cristã ou concluir, antes de assistir o trabalho, que é um insulto à imagem de Jesus é, do nosso ponto de vista, negar a diversidade da experiência humana, criando categorias onde algumas experiências são válidas e outras não, algumas vidas tem valor e outras não. São os discursos e práticas que tornam o Brasil um país extremamente desigual, e um território inóspito para quem vive fora da normatividade branca, cisgênera e heterossexual.

… a peça tem tido uma resposta do público muito positiva, lotando teatros e criando espaços de diálogo, resistência e encontro. Temos passado por diversos espaços culturais e festivais (Filo, Porto Alegre em Cena, Cena Contemporânea, Fiac). Instituições importantes da cultura como SESC, Itaú Cultural, Instituto Tomie Ohtake e outras também abraçaram o trabalho demonstrando disponibilidade em dar visibilidade aos temas que ele aborda. Também recebemos o apoio da Igreja Anglicana do Brasil.

Mas mais importante do que tudo isso, é o fato da peça ter se tornado dispositivo de debate sobre temas sociais urgentes, graças à sua capacidade de questionar mecanismos de opressão estruturais e institucionalizados”….

para ver mais aqui

esclarecimento da direcção do teatro da cornucópia

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Luis Miguel Cintra e Cristina Reis, responsáveis pelo Teatro da Cornucópia, divulgaram o esclarecimento que tomamos a liberdade de publicar neste espaço.

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Perante a lamentável confusão gerada nos órgãos de comunicação social pela inesperada visita do Senhor Presidente da República ao Teatro da Cornucópia, vemo-nos forçados a esclarecer a presente situação.

Ao longo dos muitos anos de dependência financeira do Estado, reivindicada como indispensável, várias vezes afirmámos, em pedidos de subsídio e relatórios, que as verbas concedidas eram insuficientes para o projecto de, ao nosso modo, fazer teatro.

Quando essas mesmas verbas atribuídas para financiamento das estruturas sofreram sucessivos cortes e tendo elas há três anos chegado a um valor visivelmente insuficiente, vimo-nos obrigados a rever escolhas de programação e respectivas formas de produção, de modo a sempre viabilizar os nossos projectos. As co-produções, bem como alguns apoios pontuais como os da CML e dos Amigos da Cornucópia, contribuíram para a sustentabilidade do funcionamento do Teatro da Cornucópia.

Antes do cumprimento do último ano do quadriénio a que estávamos vinculados, considerámos já a possibilidade de o não praticar, por considerar que era já difícil o seu pleno cumprimento. Mas insistimos em continuar. A evidência, porém, da situação limite das nossas possibilidades de assegurar, neste quadro de financiamento, o cumprimento de novos projectos, e tal como dissemos na divulgação do espectáculo apresentado neste último sábado, considerámos como incontornável o fecho da empresa Teatro da Cornucópia.

Tinha já sido esta a decisão, anteriormente, comunicada informalmente ao Secretário de Estado da Cultura e que mais tarde foi a razão da reunião havida no fim de Outubro no Palácio da Ajuda, com a presença de uma representante da CML. Foi então por nós levantada a questão que se prende com a CASA, edifício excepcional que ocupamos e onde sempre trabalhámos. Com tudo que ele contém. Exprimindo um desejo de que pudesse ser aproveitado para fins culturais, não deixando que esse património viesse a constituir somente um valor capaz de colmatar indemnizações aos trabalhadores, a única dívida que a empresa que se extingue não tem porventura capacidade de resolver. Entendemos que de momento a intenção do Ministério é a de assegurar um ano de renda no sentido de se proceder a um inventário rigoroso do património.

Na véspera do passado Sábado, (Recital Apollinaire e lançamento do segundo Livro do Teatro da Cornucópia/Espectáculos 2002-2016 e de um DVD), foi-nos comunicada a visita do Senhor Presidente da República, que, antes do espectáculo, queria inteirar-se da situação. 

Desse momento surgiu um tema que se prende com a questão de um estatuto de excepção para o Teatro da Cornucópia, capaz talvez, de viabilizar a sua continuidade. Surgiu o equívoco de que poderíamos mudar de opinião. O que levou o Senhor Ministro da Cultura, também presente, a admitir que o tivéssemos feito. E parece não se ter restabelecido a única versão correcta que existe, porque infelizmente a dúvida já não se põe: o Teatro da Cornucópia acaba no princípio do ano, na realidade já acabou. Com a mudança do Governo, a situação não se alterou. Disse o Senhor Ministro que o assunto estava a ser acompanhado, estudado. Haverá por isso um próximo encontro com os representantes do Ministério da Cultura.

Não se tratará, portanto, agora de um estatuto de excepção, porque somos provavelmente excepção. A empresa dissolve-se nos próximos dias, dependendo apenas de procedimentos legais que terá de cumprir.

Às pessoas que elegemos para nos governarem e que se dispõem a ouvir-nos, não nos passa pela cabeça mentir. Para com eles, para com todos, mantivemos sempre as mais leais relações. Assim foi, assim será.

Pelo Teatro da Cornucópia,

Luis Miguel Cintra e Cristina Reis

19 de Dezembro de 2016

“cornucópia” e a senhora dr. cristas – uma carta aberta à deputada

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não posso acreditar, mas ela disse isto:

O encerramento do Teatro da Cornucópia, hoje anunciado, é uma notícia muito triste para Portugal e para Lisboa em particular. Devemos à Cornucópia mais de 40 anos de criação cénica. Um país que perde uma companhia deste nível, amanhece amanhã mais triste. Perde um pouco a capacidade de reinventar as palavras, de se perceber a si e aos outros, de desconstruir máscaras, esse símbolo antigo do teatro.Esta perda, com que o CDS não se conforma e que não nos deixará indiferentes, convida a uma reflexão sobre política cultural e estímulo à criação em Lisboa. Por ora, temos de prestar homenagem a Luís Miguel Cintra e agradecer a todos (diretores, cenógrafos, atores, autores e técnicos) que nos deram décadas de teatro. O palco continua sempre, reconfortado por um aplauso que não cessa.

é certo que a senhora não irá ler, ainda assim:…

exma. senhora
deputada assunção cristas

foi com alguma surpresa que li o depoimento de vexa. sobre o encerramento da companhia de teatro do actor/encenador luis miguel cintra – “cornucópia”.

diz vexa.: O encerramento do Teatro da Cornucópia, hoje anunciado, é uma notícia muito triste para Portugal e para Lisboa em particular. Devemos à Cornucópia mais de 40 anos de criação cénica. Um país que perde uma companhia deste nível, amanhece amanhã mais triste. é facto. todavia será estranho que seja vexa. a dizê-lo. 

porquê? porque é descabido. completamente descabido dizer tal coisa agora e não o ter dito no início de 2015 (era então a senhora deputada, ministra do governo liderado por passos coelho) uma vez que nessa altura já o director da “cornucópia” anunciava o encerramento do grupo. afirmava luis miguel cintra (nessa data) que os apoios eram escassos e tal situação impedia o normal funcionamento daquele grupo teatral. 

mais estranho será vexa. dizer o que diz, quando o governo em que participou eliminou o ministério da cultura transformando-o numa mera secretaria de estado; quando o governo onde vexa. participou tratou as obras de miró, não como uma mais valia cultural, mas como mera mercadoria; quando os governos em que o seu partido  participou, desinvestiram completamente na cultura (refiro-me aos governos de durão barroso, pedro santana lopes e, o mais recente, o de passos coelho); quando esses governos (sem deixar de fora o liderado por josé socrates), consideraram o teatro e outras actividades culturais como coisas de somenos;  quando esses governos onde o CDS participou, criaram condições insustentáveis às associações culturais sem fins lucrativos deste país (ainda em vigor) – refiro-me, não só às políticas de apoio mas também ao corte de “regalias” burocráticas implementado – passando, essas associações, a ser equiparadas a uma qualquer empresa esquecendo que, muitas vezes, o fracasso da democracia (fracasso histórico) se deve ao insuficiente desenvolvimento de um precário tecido associativo e cooperativo (de notar que mais de 50% das associações culturais fecharam porta entre 2003 e 2015); quando o seu partido e seus aliados históricos, nas autarquias, tratam a cultura ao nível de um bailarico ou procissão de aldeia.

resumindo: vexa. tem toda a razão quando deseja que “O palco continua sempre, reconfortado por um aplauso que não cessa” mas vexa. (apesar dessas lindas palavras) não tem, nem nunca terá, o apoio dos agentes culturais deste país pela simples razão de que a deputada cristas não escreve o que pensa, escreve o que convém ao seu partido enquanto oposição ao actual governo. 

e isso não é sério, senhora deputada. 

m.a.s.

Dario Fo 1926-2016

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Lembrando a Mensagem Internacional do Dia Mundial do Teatro de 2013 – da autoria de Dário Fo

O poder dedicado à intolerância para com os actores e a expulsa-los de seu país.

Os actores e as companhias penam para encontrar lugares, teatros e público; tudo isso por causa da crise.

Os governantes, portanto, já não precisam se preocupar sobre como controlar aqueles que falam com ironia e sarcasmo, porque os actores não já não têm espaços ou públicos a quem se dirigir.

Ao contrário, durante o renascimento na Itália, os líderes martirizavam os actores, que desfrutavam de uma vasta audiência.

Sabemos que o grande êxodo dos actores sucedeu no século da contra-reforma, que decretou o desmantelamento de todos os espaços teatrais, especialmente em Roma, onde os acusavam de desprezo pela cidade Santa. Em 1697 Papa Innocent XII, sob pressão da franja mais conservadora da burguesia e dos altos representantes do clero, ordenou o encerramento do Teatro Tordinona, palco onde havia ocorrido, de acordo com os moralistas, o maior número de performances obscenas.

Na época da Contra-Reforma, Cardeal Charles Borromée, em funções no norte da Itália dedicou-se à redenção de ‘Crianças Milanesas’, estabelecendo uma distinção clara entre a arte, a mais elevada forma de educação espiritual, e o teatro, a expressão do profano e da vaidade. Numa carta dirigida aos seus colaboradores, que cito de memória, ele expressa-se mais ou menos nestes termos: ‘Estamos determinados a erradicar a planta maligna; procurámos, ao lançar ao fogo textos, extirpar as infâmias da memória dos homens, desenvencilhar-se da memória dos homens e perseguir aqueles que têm divulgado estes textos através da sua impressão. E o demônio aparecia com uma nova manha. Como a alma é mais rica no que os olhos vêem, pelo que pode ser lido em livros do género! Como a palavra, dita com a voz e o gesto apropriados, mais gravemente fere as mentes de adolescentes e meninas, do que a palavra morta impresso nos livros. É, portanto, urgente caçar as gentes de teatro, como já é feito para os espíritos indesejados”.

Assim, a única solução para a crise situa-se na esperança de uma grande caça às bruxas, contra nós, e, especialmente, contra os jovens que querem aprender a arte do teatro: assim, sem dúvida, saída daí, nascerá uma nova diáspora de comediantes, que contrariando a situação, construirá uma nova representação do inimaginável.

Judith Malina – na morte de uma grande actriz

Judith Malina actriz e fundadora do “Living Theater” – com o seu companheiro Julian Beck (1925-1985) – faleceu na passada sexta-feira 10 de abril. Judith contava 88 anos. A actriz sempre se bateu por um teatro activo onde as vertentes política, social e a não violência estivessem presentes no acto.

Judith Malina e Julian Beck

Judith Malina e Julian Beck

O casal de comediantes, Malina e Julian Beck, sempre se afirmaram anarquistas e arautos da contra-cultura, da intervenção social e política através de actos estéticos. Foram expulsos dos Estados Unidos e do Brasil devido às suas posições – ditas (pelas “autoridades”) radicais.

O “Living Theater” nasceu em 1947, em Nova York. Ganhou projecção a partir do seu exílio, entre 1963 e 68, período em que percorreu sobretudo a Europa. Um dos espectáculos emblemáticos desse período de contracultura é “Paradise Now”, criação coletiva que pede a revolução individual e se opõe a tabus sexuais ou quaisquer formas de violência.

acção dos "Living Theater”

acção dos “Living Theater”

Em 1970, o  “Living Theater” deslocou-se ao Brasil a convite do Teatro Oficina de José Celso. Nessa altura Malina e Beck foram presos – acusados de terem em seu poder maconha… de facto, as autoridades brasileiras, prenderam o casal por saberem que eles preparavam uma performance-protesto, a ser apresentada nas ruas de Ouro Preto (MG).

A prisão dos actores teve repercussão no mundo inteiro e personalidades ligadas ao mundo da cultura, como Susan Sontag, John Lennon, Jean-Paul Sartre entre outros, subscreveram um abaixo-assinado exigindo a libertação.

ontem foi o dia do teatro – a mensagem deste ano

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A mensagem do Dia Mundial do Teatro 2014 – O seu autor é um artista sul-africano que tem questionado as relações de poder que orientam o mundo pós-colonial, numa perspectiva que cruza a história e o presente.

mensagem de Brett Bailey para o dia 27 de MARÇO

DIA MUNDIAL DO TEATRO:

“Desde que existe sociedade humana, existe o irreprimível espírito da representação.
Debaixo das árvores, nas pequenas cidades e sobre os palcos sofisticados das grandes metrópoles, nas entradas das escolas, nos campos, nos templos; nos bairros pobres, nas praças públicas, nos centros comunitários, nas caves do centro das cidades, as pessoas reúnem-se para comungar da efeméride do mundo teatral que criámos para expressar a nossa complexidade humana, a nossa diversidade, a nossa vulnerabilidade, em carne, em respiração e em voz.
Reunimo-nos para chorar e para recordar; para rir e para comtemplar; para ouvir e aprender, para afirmar e para imaginar. Para admirar a destreza técnica, e para encarnar deuses. Para recuperar o folego coletivo, na nossa capacidade para a beleza, a compaixão e a monstruosidade. Vive??mos pela energia e pelo poder. Para celebrar a riqueza das várias culturas e para afastar as fronteiras que nos dividem.
Desde que existe sociedade humana, existe o irreprimível espírito da representação.
Nascido na comunidade, veste as máscaras e os trajes das mais variadas tradições. Aproveita as nossas línguas, os ritmos e os gestos, e cria espaços no meio de nós. E nós, artistas que trabalhamos o espírito antigo, sentimo-nos compelidos a canalizá-lo pelos nossos corações, pelas nossas ideias e pelos nossos corpos para revelar as nossas realidades em toda a sua concretude e brilhante mistério.
Mas, nesta ERA em que tantos milhões lutam para sobreviver, está-se a sofrer com regimes opressivos e capitalismos predadores, fugindo de conflitos e dificuldades, com a nossa privacidade invadida pelos serviços secretos e as nossas palavras censuradas por governos intrusivos; com as florestas a ser aniquiladas, as espécies exterminadas e os oceanos envenenados.
O que é que nos sentimos obrigados a revelar?
Neste mundo de poder desigual, no qual várias hegemonias tentam convencer-nos que uma nação, uma raça, um género, uma preferência sexual, uma religião, uma ideologia, um quadro cultural é superior a todos os outros, será isto realmente defensável? Devemos insistir que as artes sejam banidas das agendas sociais?
Estaremos nós, os artistas do palco, em conformidade com as exigências dos mercados higienizados ou será que têm medo do poder que temos para limpar um espaço nos corações e no espirito da sociedade, reunir pessoas, para inspirar, encantar e informar, e para criar um mundo de esperança e de colaboração sincera?”

performance 'Exhibit B', produzida pela companhia dirigida por Brett Bailey, a 'Third World Bunfight'. Third World Bunfight

performance ‘Exhibit B’, produzida pela companhia dirigida por Brett Bailey

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… disse-me que sim!?

“A fumaça disse-me que sim” é um monólogo escrito e encenado por Manuel Almeida e Sousa e interpretado por Cláudio Henriques.
O ambiente sonoro é o resultado de uma experiência em estúdio de Ricardo Mestre.

 

tudo podia começar assim, mas não. 
a cena representa um espaço rectangular flanqueado por enormes lápides, alinhadas e apoiadas sobre um muro lateral… não demasiado alto. 
as da esquerda, brilhantes e metálicas; 
as da direita, de um leitoso branco marmóreo.
no passeio central, fragmentos de ossos e uma cadeira onde estou sentado a fumar este cigarro
há um jornal no chão. 
já o li. 
esse jornal possui o gérmen da luz… 
é uma semente que, para frutificar… terá de morrer. 

“A fumaça disse-me que sim”, retrata estados (vários) de uma personagem masculina que se perde (e se encontra) no absurdo. A paixão, o desejo e o prazer são alguns dos sentimentos com que a figura joga em palco. Um jogo em cena que o transporta a um estado de quase desespero. O ridículo e o “sem sentido” das situações, marcam uma presença constante no percurso da acção que se pretende teatro 

foram vocês que escreveram a mensagem na tampa da caixa? não percebi nada… mas pode ser que sim. que tenham alguma sorte…
de qualquer forma deixarei a caixa “destampada” para que possam respirar melhor…

 

 

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA 

Produção:Mandrágora e Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul

Interpretação:Cláudio Henriques

Encenação e texto de Manuel de Almeida e Sousa

Sonoridades: Ricardo Mestre

Iluminação: Tiago Pereira