poemas….. anónimos

A visita recente de Alberto de Lacerda deixou-nos o último exemplar deste quarteto polifónico de rara e brutal clarividência (nota de álvaro de mendonça)

a-pro-capa

poema1

poema2 poema3
poema4 poemas1

Anúncios

da poesia de Joaquim Morgado

SOU FACTOTUM DA RAINHA

 

Sou factótum da rainha
De sinhàzinha criado
Sou da moça servidor
Da mulher sou impedido

Como um soldado ou um rei
De uma princesa estrangeira
De uma nobre prisioneira
Sou de uma deusa guerreiro
De uma louca carcereiro
Escravo e senhor de uma fêmea
Desse encanto alucinante
Penhorado delirante
Ofuscado no esplendor
Amante adão prisioneiro
Do seu amor companheiro
Sou um servo cumpridor.

 

Nunca discuto o encanto
De tão louco encantamento
Tão esplendorosa raiz
Tão linda é minha rainha
Boca olhos e nariz
E sobrancelhas
Todo o seu rosto sorri
Seus olhos rindo
Os lábios
A testa o queixo as orelhas
Tudo brilha de alegria
De um brilho que queimaria
Milhões de milhões de sóis
Queimariam de querer
Continuariam a arder
E não brilhariam tanto.

 

negra

A MINHA PRETINHA TEM

 

A pretinha tem as pernas
E entre as pernas tem o sol
Tem umas bocas que faz
Quando lhe dá mais vontade
O corpo todo lhe treme
E a pele do corpo tem
Uma doçura que toca
Sem que pareça tocar
Os seus lábios sabe dar
Esticados para a frente
Como que q’rendo pegar
Agarrar o mundo ardente
Inteiro naquele esgar
Que pede… que quer beijar
E então beija alegremente
Beija tanto e faz tão bem
Beijando sofregamente
Não meus lábios mas também
A minha língua as bochechas
Por dentro da boca aberta
E do interior da carne
Chama-me a carne p’ra dentro

– faz delirar

Toda a carne me sufoca
O sangue ferve nas veias
Como a lava de um vulcão
Dá vontade de engolir
Aquele corpo suado
Aquele suor salgado
Todos os líquidos sãos
Que da buceta lhe correm
Sabem a Índias a mar
Sabor de especiarias
Cheira-me a caril vermelho
O entre das suas pernas
Onde no fundo das pernas
Tem o mundo tem o sol
E no sol que encanta o mundo
Tem um laço envidraçado
Que a minha boca comove
E o meu laço faz ousado.

 

O VERSO GALHO

 

Quarenta versos direitos
E um catuto verso galho
Que fazem estreitos perfeitos
Os caminhos do caralho.

 

Quarenta versos inteiros
De santa verdade insana
De saúde e de prazer
De uma tesão desumana
Que tresloucada chegando
Se entre dentes devorando
Duas loucuras irmana.

 

De tesão ser um ou uma
Não chega a ser necessário
Verificar a pureza
Consultar o dicionário
A litúrgica mensagem
Pode ser na sua imagem
Da doutrina o seminário.

 

Não chega a ser português
O tesão da brasileira
Nem brasileira a tesão
Que do português se abeira
Só fica acesa e se inflama
Do espírito puro a chama
Que o mundo quer que se queira.

 

Essa minha pitonisa
Que se besunta de azeite
Que se unta que se unge
Mar de sonhos e deleite
Que longinquamente ruge
Que goza e grita de noite
E do mais fundo dos olhos
Com que transida me olha
Exala luz.

 

Dança torpe o verso galho
Nos pensamentos vadios
Nos tão clamorosos cios
Que deixam a alma puta
Fazem-me ao peito agasalho
As ganas com que me chupa
A cabeça do caralho.

 

O PORTUGUÊS SEM FILTRO

portugal

O PORTUGUÊS SEM FILTRO

AVISO

Confesso ter muitas dúvidas sobre a natureza e o alcance do que escrevi. Experimento neste exacto momento uma enorme vontade de explicar – ou pelo menos enquadrar – o que escrevi, no entanto não vou fazê-lo, e isso talvez já diga o suficiente.

Luís Fernando Silva Nogueira

14 de Outubro de 2013

Manifesto em forma de poema

Poema em forma de manifesto

“Minha pátria é a língua portuguesa”

Fernando Pessoa

 

“Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo”

Alexandre O’Neill

 

 Canto Primeiro

“O país é pequeno e a gente que nele vive também não é muito grande”

Almeida Garrett

 

Os portugueses raramente são inteiros, existem apenas do pescoço para cima ou da cintura para baixo.

*

Um português nunca está bem ou mal, está sempre assim-assim. Ou então mais ou menos.

*

O que mais distingue o português é a sua quase obsessiva necessidade de imitar os outros.

*

Não ter cão e caçar com gato, é ser esperto; ter cão e caçar com gato é ser português.

*

O Homem está entre a besta e o arcanjo, o português está entre a besta e o marmanjo.

*

O português é o primeiro a classificar a sua condição como boa. Uma boa merda, se quisermos ser exactos.

*

O português odeia a corrupção. Odeia-a com a mesma intensidade com que inveja os corruptos.

*

O português é sempre pessimista e taciturno. Mas se é pessimista a tempo inteiro, já taciturno só o é por turnos.

*

Os portugueses são tristes, tão tristes que os sorrisos têm sempre de se submeter a rigorosos testes de selecção.

*

Não é verdade que todos os portugueses sejam uma grande seca. Pelo menos 30% são seca extrema.

*

Se existisse um super herói português estou certo que diria que com um grande poder vem sempre uma grande irresponsabilidade.

*

É certo e sabido que o português ama os seus semelhantes. Por isso é que idolatra e escolhe para seus chefes homens sem qualidades, homens que por sua vez acreditam acima de tudo na ausência de qualidades dos portugueses.

*

Apesar do aumento crescente das desigualdades em Portugal os portugueses continuam cada vez mais iguais: nenhum quer verdadeiramente ser diferente.

*

O português preocupa-se muito com quem é e com quem não é, quando melhor seria que se preocupasse com o que quer ser; ou então que não se preocupasse de um todo e se limitasse, apenas, activamente, a ser.

*

O português não discrimina os outros, o português trata igualmente mal uns e outros.

*

Os portugueses invejam quem foram e lamentam quem são. A continuarem assim, grande coisa nunca hão de ser.

*

Existe uma tão grande correspondência entre a pequenez do país e a pequenez dos portugueses, que é legítimo perguntar se foi o país que os fez à sua medida ou se foi exactamente o contrário.

*

Ser português não é um estado, ser português é uma aldeia.

 

Canto Segundo

 

“Esta é a ditosa Pátria minha amada”

Luis de Camões

 

Em Portugal nada se cria, nada se perde, tudo fica na mesma.

*

Em Portugal, o tempo comporta-se de forma muito estranha, o presente repete sempre o passado e o futuro não é mais do que o presente repetido.

*

O português acredita muito mais que qualquer coisa irá correr mal do que bem. Talvez por isso a vida lhe corra sempre mais mal do que bem.

*

O português esforça-se tanto para parecer o que não é que acaba por parecer aquilo que afinal é: alguém a tentar ser desesperadamente aquilo que não é.

*

O português, ora fala de mais, ora fala de menos, que é afinal o que normalmente acontece a quem não tem nada para dizer.

*

Será que o português não gosta de trabalhar porque ganha pouco, ou será que ganha pouco porque não gosta de trabalhar?

*

Não sei do que o português gosta menos, se de ser mandado se de mandar, mas, mandem-me onde me mandarem, deixem-me dizer que esse é sem dúvida o principal problema de Portugal.

*

É verdade que os portugueses contam piadas por tudo e por nada, mas o seu verdadeiro problema, se querem mesmo saber, não é contarem piadas, é acreditarem nelas.

*

Em Portugal diz-se que os políticos são todos ladrões, mas é mentira, alguns políticos são verdadeiros bandidos.

*

Em Portugal há um equilíbrio perfeito entre patrões e empregados. Os patrões têm todo o poder e os empregados têm toda a responsabilidade.

*

O português ri muito, mas é quase sempre um riso alarve, que ri dos outros e nunca de si mesmo. Talvez por isso, quem sabe, os portugueses sejam tão tristes.

*

O português quase nunca é quem se julga ser; ou então é quem não é, o que é afinal uma outra forma de não ser.

*

O português é persistente, muito persistente, persiste continuamente nos seus erros.

*

O português sente sempre saudade da ditosa pátria sua amada, aquele lugar triste onde nasceu e onde cedo conheceu o exílio.

*

Escusado será dizer que o português adora a língua, mais a de vaca do que a de porco, sobretudo quando estufada, com ervilhas.

*

Para o português a sua língua é cada vez mais a sua pátria, uma pátria resistente e portátil que poderá sempre ter consigo quando estiver longe de Portugal.

*

Os portugueses dividem-se entre os que detestam e os que idolatram o processo de decisão, o que é o mesmo que dizer que um português, qualquer que ele seja, nunca chega realmente a decidir o que quer que seja.

*

Os portugueses conhecem mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau, mas têm um único modo de ser, triste e envergonhado

*

Em dias de nevoeiro, os portugueses passeiam-se orgulhosamente de óculos escuros.

*

Quando saem do país os portugueses partem sempre à aventura. Tivessem mais dinheiro e fariam sem dúvida turismo.

*

Os portugueses são excelentes em muito do que são e do que fazem, mas isso é porque se pode ser excelente até a ser péssimo.

*

Falar mal de Portugal e dos portugueses é sem dúvida uma das duas formas mais comuns de ser português. A outra é nunca falar bem.

Canto Terceiro

 

“terra de poetas tão sentimentais que o cheiro de um sovaco os põe em transe”

Jorge de Sena

 

Os portugueses são tristes e são poetas. Por isso é que em Portugal tantos poetas são tristes e tantos tristes são poetas.

*

Esquecida que foi a raça, os portugueses tornaram-se rafeiros. Uma raça de rafeiros, se é que me percebem.

*

Em Portugal a única regra que não tem excepção é a de que não há regra sem excepção.

*

Portugal tem sido tão constante a exportar portugueses quanto a não se importar com eles.

*

O português ora se considera génio ora se considera idiota, mas a verdade é que o português é génio a ser idiota.

*

Da discussão nasce a luz, é verdade, mas também é verdade que a luz se paga, e está cada vez mais cara. Talvez seja por isso os portugueses evitem tanto discutir.

*

Deixasse o português de ser tão imprevidente e desenrascado e até poderia ser extraordinariamente audaz e criativo.

*

Saudade é uma palavra que só existe em português. Imarcescível também. E o mesmo para tartamudo.

*

O português é sempre vários, o problema é que a soma nunca dá certo.

*

O português culpa-se muito, é verdade, mas desculpa-se ainda mais.

*

O português observa muito, pensa bastante e critica ainda mais. Não é de admirar que pouco tempo lhe reste para agir.

 *

Ser Português não se ensina; mas também quem o quereria aprender?

*

Ser português é uma arte muito antiga, desacreditada e inútil, completamente inútil.

 *

Nada vale a pena em Portugal, quando não é o corpo é a alma que está mal.

 *

Os portugueses vão sempre pelo sonho, por isso é que vivem cada vez mais afastados da realidade.

*

Os portugueses pensam sempre que os seus conterrâneos são ou poços de virtudes ou arranha-céus de vícios e nunca simples seres humanos.

*

Portugal, tal como os portugueses, vai sempre andando, andando, andando. Talvez por isso nunca chegue verdadeiramente a lugar algum.

Canto Quarto

 

“Deus e o demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal”

Teixeira de Pascoaes

 

O português é um ser paradoxal, vive acima da lei e abaixo de cão.

*

Um verdadeiro português nunca tem orgulho de Portugal mas tem sempre orgulho de ser português. Ou será ao contrário?

*

 Encontrem um homem que se orgulhe de Portugal e dos portugueses e encontrarão um homem ingénuo. Ou então perigoso, perigoso e necessário.

*

 Para o português é sempre tudo ou nada e por isso raramente alguma coisa.

*

Num país atrasado como Portugal, nunca chegar a horas é sem dúvida uma sólida demonstração de sensatez.

*

Em Portugal a justiça não é lenta, o tempo é que passa cada vez mais depressa.

*

A tão apregoada facilidade de adaptação dos português até poderia ser um modo de superar os seus problemas, não fosse apenas e tão só uma forma de os aguentar.

 *

O português orgulha-se de o ser e manifesta-o, mas só em situações de legítima defesa.

*

Ser português é sempre não ser, não ser mais do que isso.

*

 O português é pacífico, mas revolta-se com facilidade, a mesma facilidade com que de novo se submete.

*

No que toca à língua, os portugueses lembram alguém que atraiçoa o seu amor a torto e a direito, por tudo e por nada, e depois afirma que o amor é que é traiçoeiro.

*

Se um português está fraco é porque está doente, mas se está forte é porque está gordo.

*

O português reage aos problemas e adversidades de forma singular mas invariável: ou somatiza ou soma tusa.

*

Os portugueses lamentam-se tanto que, quando não se lamentam muito, lamentam-se ainda mais.

*

O pior de ser português, de acordo com os portugueses, é que não há nada pior do que ser português.

*

Talvez os portugueses não saibam quem querem ser, mas sabem sempre que não querem ser quem os outros querem que eles sejam.

*

Os portugueses gostam de se unir em volta de grandes causas, desde que possam, claro está, fazê-lo de forma discreta e reservada, sem ninguém dar por isso.

*

Os portugueses não acreditam na providência, mas acreditam em homens providenciais. O impossível parece-lhes sempre mais apetecível.

*

Os portugueses são infelizes e talvez não o possam deixar de ser, mas bem podiam habituar-se a ser infelizes à vez ou apenas de vez em quando.

*

Os portugueses mudaram; mudaram tanto e tão depressa que ainda não deram por isso.

*

 Ser português é afinal uma enorme arte e um ainda maior desastre.

Canto Sobressalente

 

“Ai, Portugal, Portugal 

De que é que tu estás à espera? 

Tens um pé numa galera 

E outro no fundo do mar”

Jorge Palma

 

O português nasce curvado sob o peso da história e da vergonha. E é certo e sabido que quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

 *

Não se diga que os portugueses não são corajosos. Os portugueses nascem com um medo atávico de séculos e enfrentam-no todos os dias.

 *

 O português tem de ser pobre. Que não se tenham quaisquer dúvidas sobre isso! De que outra forma poderiam alguns estar cada vez mais ricos?

 *

 Para um português as coisas nunca são tão más quanto parecem, são sempre piores, muito piores.

 *

 O melhor amigo do homem é o cão, o melhor amigo do português é o cão-guia.

 *

 O português lembra-me muitas vezes aqueles homens que no esforço desesperado de esconder a sua calvície ainda mais a revelam.

 *

 O português é inculto, piegas e não gosta de fazer sacrifícios. Não admira assim que tenha os governantes que tem.

 *

 O verdadeiro português é completamente falso, tanto mais falso quanto mais verdadeiro.

 *

 A verdade é que o português nunca fica bem na fotografia e todos os espelhos o deformam.

 *

 Em Portugal as mulheres são de longe superiores aos homens. Estes são sempre referidos como homenzinhos e homenzitos; aquelas são sempre referidas como mulherões e mulheraças.

 *

 Os homens portugueses eram magníficos, sabiam tudo e nunca choravam. Depois veio a democracia e criou a mulher.

 *

 O corpo humano é constituído por 60 a 70 por cento de água. Fosse vinho e todo o planeta seria português.

 *

 Portugal mudou bastante nas últimas décadas. Assim tivesse mudado o modo de ser português!

 *

 Os portugueses preferem afugentar os seus problemas a enfrentá-los. Por isso é que as discussões em Portugal acabam sempre aos gritos e aos berros.

 *

 Os portugueses acreditam em Portugal, não parecem é acreditar que são Portugal.

 *

 Deixassem os portugueses de se preocupar tanto com o seu real tamanho e talvez pudessem vir a ser do tamanho dos seus sonhos.

 *

 Os portugueses são pobres, filhos de pobres e netos de pobres. Porque raios quererão ser outra coisa?

 *

 Houve um tempo em que estávamos orgulhosamente sós. Agora não estamos sós. E muito menos orgulhosamente. *

 É verdade que Portugal só conhece três velocidades: devagar, devagarinho e parado. Mas isso que importa, se levarmos o país no rumo certo?

 *

Os portugueses têm de mudar. Nem que para isso tenham de deixar de ser portugueses.

 *

É verdade que os portugueses avançam sempre de olhos postos no passado e, em consequência, de costas voltadas para o futuro, mas isso não me parece um problema. Para alguma coisa existem os espelhos retrovisores!

*

Há um modo comum de ser português, não tenho dúvidas sobre isso, mas não é menos verdade que há portugueses e há portugueses. Há e sempre houve! Os Portugueses são Portugal, o resto é paisagem.

 *

Eu sou o meu país, sou aquele que se cala, sou aquele que se diz. Sou o meu país e isso é que me dói. Sou o meu país e isso é que me rói.

 

Recanto Único

 

PORTUGAL

 

Portugal não é uma boa zona

para o comércio e para o desenvolvimento

industrial

 

Portugal não é uma boa zona

para a agricultura e para o turismo

internacional

 

Portugal não é uma boa zona

para quem aqui vive e sobrevive

mal

 

Portugal não é um boazona. Não é.

Portugal é um grande cabrão.

Antes fosse!

António Victor Ramos Rosa (Faro, 17 de Outubro de 1924 – 23 de Setembro 2013)

ramos rosa

faleceu um poeta do al andaluz

António Ramos Rosa, morreu hoje, com 88 anos, ao início da tarde.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

A Palavra – António Ramos Rosa

 

Ramos Rosa estudou em Faro, não tendo acabado o ensino secundário por questões de saúde. Em 1958 publica no jornal «A Voz de Loulé» o poema “Os dias, sem matéria”. No mesmo ano sai o seu primeiro livro «O Grito Claro», n.º 1 da colecção de poesia «A Palavra», editada em Faro e dirigida pelo seu amigo e também poeta Casimiro de Brito. Ainda nesse ano inicia a publicação da revista «Cadernos do Meio-Dia», que em 1960 encerra a edição por ordem da polícia política.

Fez parte do MUD Juvenil.

O seu nome foi dado à Biblioteca Municipal de Faro.

o meu país

bandeira

 

 

o meu país é a lei da aparência
uma simulação ateada nos corredores da política
com a inspeção em dia certificada
pelos agentes do mercado financeiro
neste tempo em que todos os problemas
boiam entre a merda da culpa em que vivemos
acima das nossas possibilidades

 

o meu país é onde eu nunca andei de submarino
onde as novelas ensinam que há patrões e empregados
para que o cidadão pequenino do meu país perceba
que deus põe sempre a mão por baixo

 

o meu país é um país moderno
é um país que abraçou a união e o progresso
com vários políticos muito bem sucedidos
e muitos e bons empreendedores activos
e eu tenho muito orgulho no meu país
que é muito livre e democrático

 

o meu país é o país onde se diz
que há falta de liberdade de expressão
quando se manda calar um criminoso

 

o meu país é uma caldeirada
leva pouco peixe e muita batata

 

o meu país é o da turma da gravata
onde há vergonha de cantar o que nos mata

 

o meu país é onde é necessário
trabalhar mais e receber menos salário
onde é preciso pagar tudo mais caro e aguentar
porque os heróis são aqueles que mais aguentam
em nome do bem e da virtude que é
viver assim num país feito de miséria

 

o meu país é o país dos quatro efes
fado futebol fátima e que se fodam
aqueles que não aguentam a austeridade boa

 

o meu país é uma questão de família
o pai a pátria o partido
estás aqui e aguentas porque és preciso
vais trabalhar uma vida e ser enterrado vivo
mas descansa que é o céu e p’rós teus filhos
hão-de vir os filhos deles p´ra lhes mostrar o caminho

 

o meu país é uma fronteira que arde sem se ver
que é funda e que dói e não se sente
pois p’ra sentir é preciso ser mais que gente
que ganha roubando dizendo que tem de ser

 

o meu país é o que trago vestido
é o sono que não tenho dormido
a chuva ácida que dissolve as cidades
o flagelo da consolidação a factura
que declara o imposto

 

o meu país é aquilo que eu não posso ser
porque ser feliz agora seria contrariar
o psi 20 o preço da gasolina e as promoções
com que os jerónimos martins ajudam o pobrezinho

 

o meu país é o que exporta as pessoas
que não conseguem pagar a sua vida

 

o meu país é o do trabalho
onde a vida é mercadoria p’ra vender ao desbarato

 

o meu país é o da esperança
onde qualquer puta dança ao som do bom dinheiro

 

o meu país tem uma voz
a que está hoje nas ruas do meu país inteiro

 

joão bentes