beba (poema de renato suttana)

vinho

BEBA

Beba o vinho do presente
e ache a porta, ache o caminho:
encontre o modo — excelente —
de ir mais árduo, de ir sozinho.

Beba o álcool de ser agora
o inacessível da Altura,
de ser o instante, ser a hora,
ser o contorno e a figura.

Beba. E esqueça o enfado de ontem
e os monturos do talvez,
que à sua frente despontem,
que não bastam desta vez.

Beba o vinho do presente,
como um dom do esquecimento,
que ocupa o espaço da mente –
e é distância e pó no vento.

(RS – para MAS)

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para além das palavras (poemas de vasco câmara pestana)

PARA ALÉM DAS PALAVRAS

Para além das palavras
e dos ponteiros do relógio
há um refúgio
um ventre ancestral
um anoninato quintal esplendoroso
os bastidores de um Cenário Solar
que inundava toda a casa !

E que na tua ausência fragmentada de Espelhos Quebrados
emprestou ainda uma forma mais triste e bestialista !

Muito para além da Melancolia
de não estar estando invisível
à volta da púrpura torre do Campanário !

Para assim o viver se justificar
naquele fantasmal negrume
como um rubor
de um amor derramado !

OBJECTIVO : DELI !

Em Deli pasmado tomo consciência de mim
abjecto contentor de palavras
quem sou eu a pronunciar-me
a enxugar lágrimas marítimas ?

Sou sim ciumento de todos vocês
a tagagarelar a conviver e a conversar
incompreensíveis para mim ao longo de um rio morto !

Para trás ficou todo o resto
a precariedade da minha dignidade
ficou um baú vulnerável
num Portugal dos Pequeninos !

Por uma escada acima perpasso fumegante
num fétido regato
acendo uma luz num candeeiro a óleo
algures num recinto sagrado
e nos pressentidos bambus
bruxuleantes para um Principiante
fervilho no objectivo ambicionado
chegar a Nova Deli !

SINAIS EMITIDOS

Armados de Vozes
guiados por Archotes Indestrutíveis
caminhamos iluminando a Missa
Cantada e as Traves Mestras e Inflamáveis !

Ó Génio de Aladim rodopias na Lâmpada
Mágica das mil e uma noites adiante de mim
escrevo num galope
com a facilidade inconsolável do sonho.

Sou eterno dizia Eugénio de Andrade
sabiam eu não tenho nada
só emito sinais
fundos sonoros simbolizavam a Glória
numa Sala de Audiências !

Aproximei-me dos segredos
dos degredos das casas
privadas de intricadas escadas
vaporosas respeitáveis casas absorvidas
por mensagens e afectos que perduravam
sem medo do lado de fora
e dos sinais emitidos
homenageavam-se corações de deuses
nos degraus do Trono !

 

NARA–NADJA

Como se fosses o Anjo da Guarda
meu e de Portugal
e estivesses de regresso às Origens
acabada de chegar dos Brasis…

Um dom Sebastião feito de estilhaços
longos cabelos ondulados
e brilhantes madeixas de cigana
com traços mestiços
particularmente no torso e no rosto
de cera.

Máscara Alucinada
feiticeira profanada
marciana boneca mecânica
parece que caíste aqui neste
outro interior nodestino
por uma distração do destino

envelope

ENVELOPE

Estou encerrado no ventre deste envelope
com estas palavras
um íman atraiu-me do céu e sol
da luz e dos astros !

Para onde me dirijo
há uma data ou uma cidade
um bilhete postal
e no verso uma frase exacta !

Um envelope é um poema que voa
transpõe pontes até chegar às tuas mãos
recipiente imortal onde
as almas se apresentam !

Em cega convulsão
sou água escavada no fundo deste poema
sou chamamento !

O que sobra dum envelope
são palavras de uma invisível inteligência
como quem conversa a sós
são pássaros brancos
sumptuosos trajes
arrancados a esta Maldição !

PANCADAS DIVINAS !

Ó destino do Azul ?
hesito !

Um enorme rochedo prateado de estrelas
simboliza para mim o Além !

Procuro o botão da televisão
liguei o rádio
entalei a cabeça nos auscultadores
e louco de desejo ditei durante longas horas
cartas !

Está escondida na mente um compartimento secreto
que contem a chave de outro secreto compartimento
escondido no primeiro !

Repercutiam-se nas paredes do Mosteiro
Pancadas Divinas !

FUI ATINGIDO !

Fui atingido no centro da minha vida
e o silèncio destas paragens já não me serve de consolo !
Já não me basta estar quieto
estar vivo ó quietude !

Por que caminhos traçados me levas
de braço dado com a morte perniciosa
natureza–espectro !

Numa bandeja errante por que caminhos calcinados me levas
ao encontro de quem ?
Com a mão negligentemente entre as coxas
que ídolo absolvias ?

Ao longe ouvem-se os tambores !
tumores que aumentam
como uma roleta russa fui atingido !

Dentro de um poema obscuro
bem no centro da minha vida
retirado para um além fora do mundo
nada posso pedir-te !

Tu sais à arena e desapareces febril
no final apenas arriscamos a vida
por um poema de amor louco !

FUI ATINGIDO !
um estouro ficou agrafado
e sugado ao poema SIM !
Fui atingido e fechado fiquei
as horas sucedem-se descarnadas
e com marcas de GARRAS !

 

ENTRO MUDO & SAIO CALADO

Intacto como um poema
eu próprio entro mudo
e saio calado !

Respirava crispado
em imundo embaraço
já pulsa o morto enfermo
tão raro !

E encontrado descuidado
vivo como um feiticeiro delicado
sobrenatural mantenho-me à espreita
à espera !

Um sorriso por favor
para a fotografia !

3 poemas e duas pinturas de Vasco Câmara Pestana

NARA – NADJA

Como se fosses o Anjo da Guarda
meu e de Portugal
e estivesses de regresso às Origens
acabada de chegar dos Brasis…

Um dom Sebastião feito de estilhaços
longos cabelos ondulados
e brilhantes madeixas de cigana
com traços mestiços
particularmente no torso e no rosto
de cera.

Máscara Alucinada
feiticeira profanada
marciana boneca mecânica
parece que caíste aqui neste
outro interior nodestino
por uma distração do destino

vascoCP2

ENVELOPE

Estou encerrado no ventre deste envelope
com estas palavras
um íman atraiu-me do céu e sol
da luz e dos astros !

Para onde me dirijo
há uma data ou uma cidade
um bilhete postal
e no verso uma frase exacta !

Um envelope é um poema que voa
transpõe pontes até chegar às tuas mãos
recipiente imortal onde
as almas se apresentam !

Em cega convulsão
sou água escavada no fundo deste poema
sou chamamento !

O que sobra dum envelope
são palavras de uma invisível inteligência
como quem conversa a sós
são pássaros brancos
sumptuosos trajes
arrancados a esta Maldição !

 

vascoCP1

PANCADAS DIVINAS !

Ó destino do Azul ?
hesito !

Um enorme rochedo prateado de estrelas
simboliza para mim o Além !

Procuro o botão da televisão
liguei o rádio
entalei a cabeça nos auscultadores
e louco de desejo ditei durante longas horas
cartas !

Está escondida na mente um compartimento secreto
que contem a chave de outro secreto compartimento
escondido no primeiro !

Repercutiam-se nas paredes do Mosteiro
Pancadas Divinas !

Vasco Câmara Pestana

2 poemas & 2 imagens

2 imagens de m. almeida e sousa

2 poemas de renato suttana

série-pe05

Tentei desajeitado
desenhar uma linha
que ligasse o teu sono
ao círculo das horas.

(Tudo era pedra e concha
e dunas, sob o sol,
nessa estação adusta
que os hunos assolaram.)

Vieste pedir-me um trapo,
vieste pedir-me um nada
(um punhado de vento)
para a tua trapaça:

mas em vão, pois, gemendo
entre os dardos do fogo,
entre as cartas rasgadas
e o ouro das marionetes,

eu disse: Não sou teu
pai, e não sou teu mapa,
não sou sequer teu barco:
sou só o teu amante.

série-pe06

Um nada, uma niquice,
uma nuga, um não-sei-
quê se espalha na brisa
com pretensão a flor.

E no entanto, entre os dentes,
uma língua de bronze
vai dizendo com calma
frases que não importam

e tudo explicam bem
(como a lenda de Deus),
dando sentido e forma
às paisagens da costa

(que por mais que sagaz
e experiente em chicanas
um milionário grego
não conseguiu comprar),

aonde virão os corvos –
com sua roupa nova,
com sua ode e seu aço –
plantar milho e bandeiras.

2 poemas – 2 imagens

2 imagens de m. almeida e sousa – 2 poemas de renato suttana

 

 

série-pe03
Escrevo assim teu NOME
nas lápides de cera.
Lembro que numa praia
foste um dia de areia:

foste uma onda, uma nuvem
pairando sobre o verde –
e que Deus te dizia
(entre os gritos das ondas)

uma palavra estranha
que era feita de vidro
e sobre a qual passeavas,
desatenta aos rumores.

Tudo, naquele dia,
pertencia ao verão:
tua casa, teu ombro,
tuas recordações,

tua toga de chita,
teus lugares-comuns,
teu pergaminho, teu
hieróglifo de brisa.

série-pe04

Usando (vede) a máscara
menos por distração
que por raiva do vento,
tu chegaste a dezembro,

vencendo tempestades,
atravessando as dunas,
desafiando o relâmpago,
com teu sexo intocado.

Usando (sempre) a máscara
vieste, de qualquer longe,
onde as pedras têm nome
e as canções são de gelo.

E então, parando à porta
por um longo momento,
e usurpando, a sorrir,
uma nesga do caos,

sobre uma mesa feita
de desejo e fadiga
e expectativas tolas,
depuseste o presente.

ansiedade II

voo-aves

III

Ao longe o mensageiro
que tem parte com o vento
se aproxima do vento,
sem medo da distância.

É irmão de um camponês
que morreu em janeiro
e leva em sua bolsa
a encomenda mais cara,

e na boca a mensagem
que veio nos trazer
e se esqueceu, contando
nuvens, de nos contar.

Ao longe, como um longe
adeus que já não vemos,
como um aceno, um grito
que ao longe não ouvimos.

IV

As horas em setembro
são espadas rombudas,
são punhais cujo gume
se desgastou no vento.

Cobertas pelas nuvens
e pelo brilho morno
do céu primaveril,
da curva de setembro,

são águias em silêncio,
são leopardos ao sol;
e cantam, num sussurro
repleto de apreensão

(como conta um segredo
uma menina triste
à sua triste mãe)
uma história qualquer.

V

As horas em setembro
são ácidas e rudes,
como punhais ao vento,
como agulhas do sol.

Repletas de silêncio,
à luz de um céu cansado
(de um céu de primavera,
cuja curva é risível),

são águias em silêncio,
são leopardos ao sol,
falando, num sussurro
(como conta um segredo

uma menina absorta
à sua absorta mãe),
da visita de um anjo
que não valeu a pena.

in: ansiedade (renato suttana – brasil)

problemática da dificuldade

gripe-a1

 

está difícil. está muito difícil.
está mesmo muito difícil. es
tá  realmente  mesmo  muito
difícil. não há dúvida que est
á realmente mesmo muito di
fícil.

está difícil. está muito difícil.
está muito mais difícil, está
mesmo muito mais difícil. es
tá realmente mesmo muito m
ais difícil. não há dúvida que
está realmente mesmo muito
mais difícil.

está difícil. está muito difícil.
está ainda mais difícil. está a
inda muito mais difícil. está
mesmo ainda muito mais dif
ícil. está realmente mesmo ai
nda muito mais difícil. não h
á dúvida que está realmente
mesmo ainda muito mais dif
ícil.

está difícil. está muito difícil.
está cada vez mais difícil. est
á cada vez ainda muito mais
difícil. está mesmo cada vez
ainda muito mais difícil. está
realmente mesmo cada vez a
inda muito mais difícil. não h
á dúvida que está realmente
mesmo cada vez ainda muito
mais difícil.

para quem julga que estou a e
xagerar, não digo apenas que
não há dúvida que está realme
nte mesmo cada vez ainda mu
ito mais difícil. nem que está d
ificílimo. está dificilíssimo !

                                              Fernando Aguiar