2 poemas & 2 imagens

2 imagens de m. almeida e sousa

2 poemas de renato suttana

série-pe05

Tentei desajeitado
desenhar uma linha
que ligasse o teu sono
ao círculo das horas.

(Tudo era pedra e concha
e dunas, sob o sol,
nessa estação adusta
que os hunos assolaram.)

Vieste pedir-me um trapo,
vieste pedir-me um nada
(um punhado de vento)
para a tua trapaça:

mas em vão, pois, gemendo
entre os dardos do fogo,
entre as cartas rasgadas
e o ouro das marionetes,

eu disse: Não sou teu
pai, e não sou teu mapa,
não sou sequer teu barco:
sou só o teu amante.

série-pe06

Um nada, uma niquice,
uma nuga, um não-sei-
quê se espalha na brisa
com pretensão a flor.

E no entanto, entre os dentes,
uma língua de bronze
vai dizendo com calma
frases que não importam

e tudo explicam bem
(como a lenda de Deus),
dando sentido e forma
às paisagens da costa

(que por mais que sagaz
e experiente em chicanas
um milionário grego
não conseguiu comprar),

aonde virão os corvos –
com sua roupa nova,
com sua ode e seu aço –
plantar milho e bandeiras.

2 poemas – 2 imagens

2 imagens de m. almeida e sousa – 2 poemas de renato suttana

 

 

série-pe03
Escrevo assim teu NOME
nas lápides de cera.
Lembro que numa praia
foste um dia de areia:

foste uma onda, uma nuvem
pairando sobre o verde –
e que Deus te dizia
(entre os gritos das ondas)

uma palavra estranha
que era feita de vidro
e sobre a qual passeavas,
desatenta aos rumores.

Tudo, naquele dia,
pertencia ao verão:
tua casa, teu ombro,
tuas recordações,

tua toga de chita,
teus lugares-comuns,
teu pergaminho, teu
hieróglifo de brisa.

série-pe04

Usando (vede) a máscara
menos por distração
que por raiva do vento,
tu chegaste a dezembro,

vencendo tempestades,
atravessando as dunas,
desafiando o relâmpago,
com teu sexo intocado.

Usando (sempre) a máscara
vieste, de qualquer longe,
onde as pedras têm nome
e as canções são de gelo.

E então, parando à porta
por um longo momento,
e usurpando, a sorrir,
uma nesga do caos,

sobre uma mesa feita
de desejo e fadiga
e expectativas tolas,
depuseste o presente.

2 poemas para 2 imagens

dois poemas de renato suttana para duas imagens de m. almeida e sousa

série-pe01

Sou de vidro, sou barro,
não tenho procedência:
venho do asco e da chama,
de um fundo precipício.

Venho do vento, da água
que te molha, sozinha,
no ato de desdenhares
surpresas e corais.

E te digo, de cima,
do alto do meu cansaço,
que não me importa ser
só o teu maltrapilho,

teu corvo de ametista,
tua velha moldura:
teu escultor, teu mago,
teu filho desprezado.

Nada disso me importa
sob o sol de dezembro,
que de mim sabe apenas
que não sou o teu anjo.
série-pe02

As máquinas do vento
(sempre desinformadas,
sempre emperradas, cegas,
sempre vãs e rombudas)

nunca chegam a tempo
e estão mal colocadas
sobre bases de areia
que uma criança sopra.

Se têm uma mensagem?
Se vieram do estrangeiro?
Se alguém entende o seu
magro funcionamento?

Se um engenheiro coxo
ajudou a construí-las,
ditando regras doidas
aos bandidos do vento? –

São nada. São de cera.
Não têm resposta alguma.
Não estão para assuntos.
Nada têm a dizer.