da poesia de fernando grade

UM PROSOPOEMA  – A RAPARIGA DAS DUNAS

É ruivo, semente de cobre, bandeira e volúpia – o corpo que nas dunas abandonas. Porque tu estremeces, e cantas. Ao ver passar para o Norte as bicicletas, bichos enrolados no seu próprio retrato, ainda e sempre subindo a montanha, e a colar cartazes, o trigo, o martelo, lentamente.

As velhas vão perder a batalha, olhos de água, olhos de água. Cabelo por cabelo desfolha-se um malmequer, a minha vocação nunca foram as luzes submarinas. Não há cidade mais rebelde e despida do que tu. Contigo lembro as dunas. A humidade misteriosa da romã. Escrevo o aroma do pinheiro que fica submerso em tuas mãos. As bicicletas nervosas sobem, a caminho do Norte.

Cada vez mais as dunas confundem-se com o teu corpo ruivo. De rapariga é, também, a areia, o relógio de sol que trazes na cintura, a porta semiaberta para o mar. Não esqueço as borboletas vagabundas. Não esqueças o homem do chapéu encarnado.

Os ombros anoitecem em São Pedro de Muel. Aqui estou dono das dunas, e digo: a natureza que se despe está sempre próxima da revolução. Falo-te de cardos para que os cravos não desbotem. Tenho vícios florestais. O que se vê de ti é ruivo e nocturno, não apodrece facilmente.

Assim és beijada por dunas, feita de areia tensa como o ventre: o pólen. Vem depressa, porque estão a raptar as bailarinas. Incendeiam a murta. Mijam no suor. Os mamutes não gostam de ti, oh rapariga das dunas.

Vamos incentivar as milícias! Por cada formiga morta, o povo avança um pouco mais.

S. Pedro de Muel – Setembro de 1975

Scan0003

MAN’GUXI PENSA NO SEU POVO

Os pássaros estão sentados como se
Fossem balas. Gazelas

Pressentem o rio. É Novembro
— O javali morrerá.

África
Vai das pedras à boca — lágrima

Jacarandá, ternura.
Man’Guxi pensa no seu povo.

Ninguém dorme.
Livres são as zagaias, as bandeiras

E o fogo:
— O javali morrerá

Estoril 15 de Novembro de 1975 – (POEMA A DOIS POR: DAVID MESTRE e FERNANDO GRADE)

(in “O Vinho Dos Mortos – poemas”, 5ª Edição., Universitária Editora. Lisboa, 1999)

ADITAMENTOS A UMA PEÇA TEATRAL

aves4

 

 PARA QUE SE SAIBA COMO OS ACTORES DEVEM ENTRAR E SAIR DE CENA E A FORMA DE COLOCAR AS MÃOS E O RESTO

Entrada do Padrinho pela esquerda alta,

gritos de uma virgem serôdia,

preparativos para a viagem até ao mar,

o táxi incendiado.

Mudança de ombro

com formação de atrelado (olhos nos olhos),

cuidado com o cisne!

O Chacal esbofeteia o chefe dos cisnes,

regresso a bastidores

com muitas pandeiretas

em vez da leitura dos jornais.

Língua de fora à procissão,

enquanto os anjinhos pedem para ver

mais uma vez o Pai Natal.

A velha das violetas

sai pela porta do cavalo

mas antes disso faz um brinde à assistência:

“Não estou disposta a fazer horas extraordinárias.”

 

E ninguém se lembra que o mar é cartão pintado de verde

e não vai chegar ao tecto.

 

fernando grade

_________

 

Várzea de Sintra — 1974 (In “ANTOLOGIA DA POESIA PORTUGUESA 1940-1977”. Selecção de M. Alberta Menéres e de E. M. de Melo e Castro. Círculo de Poesia Moraes Editores com o patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura. Lisboa, Janeiro de 1980).