manuel neto dos santos – pinturas III

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A Book of Satyrs – de Austin Osman Spare

Austin Osman Spare

aos_img_1nasceu em Inglaterra em 1886 e faleceu em 1956.

Spare foi um dos mais interessantes ocultistas anglosaxónicos. Pintor e Mago, Spare (filho de um policia londrino) é iniciado ainda muito jovem nos mistérios da bruxaria por uma senhora de apelido Paterson – uma velha bruxa.

De 1927 até ao ano de sua morte, Spare viveu como ermita nos suburbios da cidade de Londres. É por muitos comparado a H. P. Lovecraft, outro importante estudioso dos níveis obscuros da mente.

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o desenho de ruy leitão

Em 1973 vivi em Paris com um dos mais genuínos artistas portugueses da minha geração, um dos melhores de sempre em Portugal, afirmação da Paula Rego.

A grandeza do Ruy, que tentei transmitir à Filomena Molder em livro monográfico feito sobre ele, não vingou. Ainda.

Lamento que não tenha sido assimilado pela sociedade a leitura que a nossa geração fez da vida, e continue a ser entendida como fora do real quando foi de longe a mais sabia e profunda analista da sociedade actual. Os desenhos do Ruy feitos a lápis de cor, marcadores, traduzem a condição do artista nas sociedades de liberalismo consolidado, como USA, o local onde nasceu e Inglaterra, França onde viveu a maior parte do tempo.

O Ruy suicidou-se a seguir ao 25 de Abril em 75 em Lisboa. Lisboa que hoje está perto do patamar de mundanismo onde deixamos Paris há 40 anos, capaz de produzir muitos artistas e um publico que entenda a solidão forçada das grandes metrópoles do consumo e a redução que fazem do humano a mera mercadoria. O Ruy aristocrata dos melhores costados, não se deixou. mercantilizar. A nossa luta fazia-se com a cumplicidade de um mero irónico olhar, quase sem palavras, e assim tinha de ser, era formula perfeitamente interiorizada da liberdade possível nestes tempos de exclusão pelo consumo, da mais hipócrita das sociedades de repressão alguma vez existente. Esquizofrenia assumida perante os inquisidores do capitalismo populista sem rosto, da normalização das modas e dos status na lógica implacável do sucesso a qualquer preço, do VALE TUDO.

A arte aqui é, SANTIDADE e o artista a encarnação do martírio cristão na arena da falsidade colectiva. Um dia compreenderão esta mensagem, mas tal como o Ruy, eu também não fico à espera. A história já nasceu para nós. Os outros que se continuem a comer uns aos outros, como aliás sempre fizeram desde a pré historia, que, para essa gente, ainda não acabou.

José Bivar

desenhos de josé bivar

José Bivar (Lisboa, 1953) – artista plástico – Vive no Algarve e foi mentor de projectos importantes naquela região, especialmente em Faro, onde fundou a cooperativa “Lábios nus” nos anos 80. Foi Presidente da Associação de Ambiente “Almargem”, fundou e tem animado a “Associação de Artistas Plásticos do Algarve e Amigos da Arte” – destaquemos a “Bienal de Faro-Arte Contemporânea Algarve Andaluzia” – 1999″. Em colaboração com o escultor Adão Contreiras, animou a Galeria Margem de 1995/99.
Os desenhos que reproduzimos aqui (hoje) fazem parte do projecto de ilustração do livro de Miguel Real “Europa-ano 2300” (4águas Edições – Tavira 2013).

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poemas e desenhos de fernando grade

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CILINDRO NOS OLHOS  
Curvada sobre os olhos uma mulher
onde brilha o seu (deles) cilindro, árvore física
de um rosto destruído pelas mãos.
Um corpo de cidra e de saibro
onde dorme — já cansada — a mula mais veloz
do povoado: a neve, o coração de neve
há-de chegar em forma de guitarra,
nas letras espantadas de um jornal qualquer.

Amanhã no Rossio à hora do almoço
um homem pacato compra o jornal ao coxo:
“Olha lá em Bragança a neve já chega ao tecto?
Já roeu os pássaros?”
 

NOTÍCIAS DE UM MUNÍCIPE

LAGAR DO AZEITE

à memória do grande pintor        
                                                   Joaquim Rodrigo

A azeitona desloca-se para cima,
torna-se luz, candelabro de
noivos desnudos.
O azeite esmagado por lábios
de medusa. Circo
de muitas pedras romanas.
Passagem do tempo e
muitos vírus, bactérias musgosas.
Língua de pedra
(onde meses alguns antes)
Oeiras via
pintores
a pintarem
a cor dos ventos.
As tintas e as borras
eram carne d’
aves.

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O SOM E A PALHA

Ouço todas as tardes em Amsterdam
um martelo de plástico
a destruir um muro feito de pedra rija.
Música repassada de água
como os bichos no meio do feno
ou apenas uma romã.
Gesto polaco
algures nas floresta do Norte.
E todas as tardes o martelo vai e
vem sobre o musgo seco.
A pedra, sim, está por baixo e contente,
na sua felicidade de ser pedra

eternamente.

 
Amsterdam — 1971

ÀS VEZES FICO A PENSAR QUE

Ás vezes fico a pensar que
a música vai morrer à tarde
ao fundo da casa. Britten será apenas
(ou ainda?) uma recordação muito leve
como um pardal embalsamado
um lenço a cheirar a rosas
ou sete cabelos loiros
que a namorada deixou
nas pedras do cais.

Tenho medo
que substituam a música
pela máquina de despir formigas.

Oeiras e São Julião da Barra
 13 de Junho de 2011

O negócio das esplanadas

poema de vitor cardeira

desenho de rui dias simão

 

Algumas vezes os milagres acontecem
Nas esplanadas do café e não chegam a horas
Para acordar quem precisa de repousar
Das loucas filas que se estabelecem
Nos esconsos armário da felicidade.

Há pessoas que tomam pílulas para dormir
Quando descobrem que a vigília é um estado
Terminal que visa perpetuar as conversas ambulantes,
As serpentes que perseguem as caras que emergem das noites.
Pesadelos ambiciosos no sono inútil, cancro que se instala
Nas ideias que fumegam nas chávenas de café.

O café é forte e o empregado atende as velhas
Com malandrice concupiscente. Ali, só a morte
Impõe o cumprimento da vida. Se não morrêssemos,
Ninguém largaria uma conversa a meio, ninguém
Se levantaria da esplanada fria sem se despedir
Para sempre. Todos fumávamos e ríamos e troçávamos
Da inflação, não haveria subsídio de férias, nem paraísos fiscais,
Nem mesmo bancos na Suíça. As férias seriam eternas
E a sobrevivência estava assegurada pela imortalidade.
Não haveria ambivalência nos escritórios onde
Se negoceiam as dívidas soberanas e as agências
De rating não fariam poemas atirando dados.
desenho-ruidiassimão
Nas esplanadas continuar-se-ia a tomar café,
Talvez aguardente de medronho da serra, as velhas
Seriam mais velhas, pois a morte nunca chegaria,
E os coveiros frequentariam workshops, fazendo
up grade dos ossos que manipulavam,
E passariam a exercer carreiras de sucesso
No mundo da alta finança.

No crescente e rentável negócio das esplanadas,
O tráfico de influências daria lugar a happenings
De solidariedade social, performances plásticas
Sem redundância nenhuma, sorteios de ganâncias
Desprovidas de valor ou meetings de pontos de vista dejá vus.
O vil metal chegaria de mercedes-benz, e de carro funerário,
E no coche barroco do falecido d João 5º.
Falecido??!! O que é isso?, perguntariam as crianças
Post mortem. No passado as pessoas morriam,
Ausentavam-se para sempre, explicaria um transeunte
Manhoso, erguendo, respeitosamente, os olhos ao céu.

Há cadáveres famosos que nos enformam os desejos.
Teimam, mesmo defuntos – descansados sejam -, em alienar-nos
O pensamento, em gritar fazendo estremecer as pedras
Tumulares. Se não morrêssemos, o futuro não seria o vazio
Que tentamos escravizar, o mundo que não conseguimos
Desocultar quando avançamos na escuridão.

Na esplanada os pássaros depenicam partículas
Recebidas por correio eletrónico, provocam os adultos
Com peidos monumentais e sorriem às crianças
Que os escolhem para amigos desinteressados.

Se não morrêssemos os cientistas deixariam
De tentar explicar as coisas e tentariam interpretar o nada,
O nada e a sombra que anuncia o fim sem fim. Nem é fácil
Imaginar o poder dos mecanismos que regem os mercados,
Nem fácil colocar bombas nas instalações dos bancos de investimento.
O grito fascista que ecoou na Ibéria profunda encontra
Seguidores nos caminhos irregulares dos desvalidos.
Viva la muerte, será o regresso às origens onde o vento
Açoita a tarde.

Nas esplanadas voltarão a ouvir-se os lamentos
Das vozes que reverberam as parangonas dos jornais.