A ENGENHARIA DA MORAL

eu-ave

 

um aldrabão diz para o outro:
– oh sr doutor, o que é o psi20?
o doutor responde – é uma manobra!
– kum caraças! – exclama o aldrabão – e eu pensava que era alguma coisa da psique!
– aqui não há psiques – acrescenta o doutor – aqui time is money! não percebes nada de engenharia – time is money!… se não há time, não há money!
o aldrabão fica calado. pensa para si próprio que de facto o doutor tem razão.
– ah, se eu fosse tão inteligente quanto o doutor… já não precisava ser aldrabão… bastava ser engenheiro e não ter moral… sim… moral… a não ser que…
e vislumbra-se na sua mente uma ideia genial – hum! – se time is money… o que será a moral?
vira-se de novo para o doutor e pergunta: – oh doutor! quanto à moral… não se pode arpoveitar uma parte da engenharia e fazer com que a moral também seja money?… já que o tempo o é?

o doutor fica meio pensativo meio surpreendido com a conversa do aldrabão e decide esmiuçar o conceito por detrás de tal pensamento – moral is money! – até sôa bem! – o aldrabão até é capaz de ter razão… é um misto de engenharia e moralidade financeira!… um novo paradigma para os mercados, certamente!… o indício de uma nova era em que a moral vale alguma coisa!… moral 20, moral 50, moral 90, etc… afinal trata-se apenas de uma questão de quantificar a moralidade e passar a olhar para ela como quem olha para um expressivo gráfico de barras colorido… podemos até introduzir uma engenharia de conceitos como moral de sucesso!… moral plataforma!… moralidade exacta!… moral competitiva!… moral de mercados!… moral estatística!… moral efectiva!… moral soberana!… moral is money, sem dúvida…
o doutor vira-se para o aldrabão e diz: – oh engenheiro!… olhe que é capaz de ter razão!.. a moral é um nicho de mercado por explorar.

com isto o aldrabão fica surpreso a olhar para o doutor. afinal não é assim tão ignorante. tem ideias… que é o que falta no país… se desenvolvesse o projecto de forma inteligente até poderia vir a ser uma mais-valia: – um nicho de mercado ainda por explorar!… e decide não avançar muito com a conversa por enquanto… não vá o doutor plagiá-lo e dizer que foi ele quem criou o novo conceito e descobriu o nicho.

como quem não quer a coisa, muda de conversa e interpela o doutor:
– oh doutor!… o doutor já ouviu falar da dívida soberana?
– oh engenheiro… não sabe o que é a dívida soberana? – surpreende-se o doutor – a dívida soberana é tudo aquilo que nós temos!… é uma espécie de pecado original… quer dizer, já nascemos com ela!
– eh!… já nascemos com ela? – surpreende-se o aldrabão – como é que é isso?
– é fácil!… nós somos uma nação. a nação, como qualquer pessoa, tem dívidas… ora se a nação tem dívidas, nós também temos… há muito tempo… é mesmo assim!
– então… e para que é que serve a dívida soberana? – indaga o aldrabão.
– ora essa é boa oh engenheiro!… para que é que há-de servir?… para vender!
o aldrabão fica surpreendido. nunca tinha pensado nisso. tinha sido aldrabão toda a vida e a coisa tinha-lhe passado ao lado. pois é claro. é uma aldrabice perfeita, embora difícil de perceber a la prima. no entanto fácil de manobrar. faz-se mal entendido e questiona o doutor:
– então, mas… oh doutor!… e como é que se sabe quanto vale a dívida?… quero dizer, como é que a dívida tem valor?… e já agora, quem é que descobriu o nicho?
– qual nicho? – surpreende-se o doutor.
– o nicho da dívida soberana!
– ah… hum… isso… é já muito antigo… nem se sabe bem… devem ter sido os chineses, ou então d. joão v!… mas isso não interessa, o facto é que ela existe!… e se existe… absorve tempo… tendo tempo… vale dinheiro!… não é oh engenheiro?…
– ah claro!… time is money!… então, vende-se o tempo? – pergunta o aldrabão.
– isso mesmo. vende-se o tempo… o tempo é que é o money!… o tempo é que é o money! – exclama o doutor.
– entendi, entendi… mas, mesmo assim… afinal, como é que se sabe quanto vale a dívida?
– ora!… que pergunta!… oh engenheiro!… a dívida vale o que se deve e o que não se deve!… o resto é o juro!…
– jura?
– juro!
– ahah ahahah!… ri-se o aldrabão – parece perfeito!… então a mais-valia é o que não se deve?
– exacto!… o que vale money é o que não deve!… pois de facto o que se vende é o que não de deve!… por isso vale dinheiro, money… é tempo.

o aldrabão fica mais uma vez surpreendido com esta engenharia de conceitos abstractos que aparentemente se transformam em banalidades. apesar da crueldade… afinal é bem claro que a dívida soberana é uma espécie de pecado original e como todas as coisas que existem no tempo valem dinheiro-money.
mas isso é um nicho antigo… já gasto… pensa o engenheiro. o aldrabão quer é coisanova… como o nicho da moralidade que acabara de descobrir.
mantendo-se à defesa por causa do plágio do doutor o aldrabão dá por terminada a conversa.
– ora bem, oh doutor!… já aprendi alguma coisa útil por estar aqui a falar consigo. pode ser que a gente se venha a entender!… eu sou um gajo porreiro, e nunca aldrabei ninguém… sou um tipo com moral!
– o nicho! – exclama o doutor.
– ah!… shit!… – sem querer o aldrabão falou da moral e o doutor topou logo – não se esqueça do nicho!… – relembra o doutor.
– ah… sim… sim… o nicho!… pode ser que dê alguma coisa-nova… com o tempo, com o tempo…
e o aldrabão despede-se do doutor com um vigoroso aperto de mãos.
ambos convencidos acerca da moralidade não agendam sequer uma reunião.
sabem que estão feitos um para o outro… e quando o mercado da moral estiver no seu tempo, eles hão-de aparecer… cada um, a reclamar o seu nicho de moralidade.

[in TRILOGIA APOTEÓTICA, Antares Editores, Março de 2012 – álvaro de mendonça]

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MAIS UM PANFLETO APÓCRIFO NO PRELO DA ANTARES

gripe-00

Apesar do desconforto e da frieza com que recebera a sinopse Álvaro mandou uma sms para Jonas indicando a hora precisa em que daria início ao processo de escrita

COMO SE PUDESSE

toda esta parafrenália de coisas inexistentes
mais uma vez o cogito deambulava pelas ameias do castelo da balustrada
mais uma vez o gajo gordo negro e pachorrento da existência
fazia o knock knoc knock at the door
e ficava a olhar a olhar o dia inteiro o tempo-que-flui como nos olhos da vizinha e nas lágrimas da outra vizinha que eram as vizinhas todas da mesma maneira de existir

Álvaro passeando o absurdo plasmado concordou em dizer-lhe algo
esvaziou os bolsos sobre a mesa e de entre a panóplia de coisas inúteis
escolheu um papel amachucado que desdobrou meticulosamente durante dez minutos
até que foi possível vislumbrar uma espécie de rabiscos monocromáticos de bic esfera fina em azul escuro
o documento apócrifo continha os primeiros registos indecifráveis de Jorge Manuel Teixeira, o pedagogo asceta que recebia mensagens do além através das matriculas dos carros que passavam na rua a partir de determinada hora e sob a conjectura favorável da atmosfera e dos astros

Jonas recebeu a sms de Álvaro com um misto de surpresa e alegria e angústia e assim que a abriu apercebeu-se de que não utilizavam a mesma linguagem mas isso não interessava porque importante era o facto de não usarem o acordo ortográfico e perceberem perfeitamente que não haveria lugar na eternidade tão efémero quanto aquele instante de comunicação helicoidal

Jonas saíu de casa cansado e mergulhou numa angústia dilacerante que o arrastou plas calçadas sem destino na urbe metafórica e começou a chorar a chorar…
do outro lado da linha a confirmação da entrega
anoitecera
Jorge voltara para casa carregado com a própria casa e com as coisas da existência atrás de si
há muito que abandonara o conforto flácido imposto pelo estado e pelas regras insólitas do metabolismo social em que chafurdara pela vida e fizera pelos seus e e pelos outros e por todos aqueles que o renegaram

Jonas sabia que era um Sísifo contemporâneo e isso não o perturbava
ok e começou a chorar de novo e foi buscar o balde e a esfregona de uma Isabel para limpar o cadafalso e não perder as lágrimas sólidas…
e não poderás saltar de outro mundo para este só porque te apetece.
[anónimo. in Diário escatológico de fragmentação. antares editores 2013. sem copyright nem direitos nenhuns]

álvaro de mendonça