os porcos (poemas de Renato Suttana)

OS PORCOS

em protesto contra a prisão ilegal do ex-presidente Lula

brazão do porco

I

E como eu palmilhasse, atarantado,
um caminho do mundo consequente,
tendo por selva escura me extraviado,
larga clareira abriu-se à minha frente.

Ali tive a visão que, devotado
às tarefas da vida e do presente,
vos conto agora, de ânimo ilibado,
com intenção didática somente:

eis que, naquele sítio assim remoto
que não daria assunto para foto,
doze porcos, havendo deglutido

o corpo de uma dama, conversavam
e, empenhados num coro divertido,
no suíno chat assim se pronunciavam.

II

“A lei é para todos”
(Título de um filme)

“A lei é para todos, para todos! —
berrarei até o fim da minha vida” —
disse um com sua pança algo entupida,
que disfarçavam uns bonitos modos. —

“Para cada um: para o meu pai e tia,
e até para mim mesmo, e para o papa
que engole, mui discreto, a sua rapa,
sem furor excessivo ou valentia” —

disse. E tocou um samba no pandeiro,
que pelos outros foi repercutido
ali, naquele inóspito terreiro. —

“Para o meu filho. E até para o neném,
que — qual proctologista decidido —
o indicador da lei fura também!”

III

“Dono do Bahamas distribui 9.000 cervejas para festejar prisão de Lula”
(Notícia do site TV UOL)

Outro, que administrava um lupanar
e era frente aos presentes mais discreto,
fazendo um gesto de quem vai falar,
formado o traque no canal do reto,

grunhiu assim: “Falar e eruditar
não é o meu passatempo predileto,
de modo que prefiro um bom decreto,
quem sabe até de origem militar.

Mas dou o desconto (por alívio do ócio),
que essa dama até que era bonitinha
e faria sucesso em meu negócio!

Tenho dito. E passemos aos foguetes.
Passemos logo à chuva de confetes,
que o tema rendeu mais do que convinha.”

IV

“Marcado por incontestável coerência juridical, o voto da ministra Rosa Weber aproxima o ex-presidente Lula da prisão e tende a salvar a imagem do Supremo Tribunal Federal, evitando mais desmoralização do Poder Judiciario e riscos para a Democracia no Brasil.”
(Moacir Pereira)

“Habeas corpus! A dama até pedia,
conforme a lei promove e mesmo exige.
Mas eis o fato: o corpo já não vige,
de modo que findou sua agonia.

Urgência não há mais, nem serventia,
podendo o assunto ir navegar o Estige.
E, quanto a mim, se a norma não me aflige,
de isento votarei com a maioria” —

disse um, meio hesitante. — “E agora passo
ao assunto seguinte, que a hora avança,
o mundo gira, e é grande o meu cansaço.

Sem pautas o plenário? — Mal se crê.
Lavre-se a ata, portanto, para a usança
futura de quem junte lé com cré.”

V

“O maior patrimônio do jornalista é a isenção.”
(Trecho de carta apócrifa, atribuída a Ali Kamel)

“Já o prato que vos tenho a oferecer
chama-se jornalística isenção,
que só se serve ao gosto do patrão,
cabendo-lhe o direito de escolher.

Embora uma pimenta o faça arder,
come-se muito, com certa aflição,
como se fosse a celestial ração,
que do alto um deus bondoso faz chover” —

disse o quarto, com vista lacrimosa
e turbada (talvez de alguma poeira
que nela entrou, na noite duvidosa). —

“Da nossa empresa é o mais antigo lema,
sua regra dourada, seu emblema,
que de lambuja dou a quem o queira!”

VI

“Em Davos, Temer defende reformas em andamento no país”
(Notícia da EBC)

“A senha, meus amigos, é reforma,
pois sem reforma já não há progresso:
reformar a estrutura desde o avesso,
ao mundo inteiro dando uma outra norma.

De outro caminho a vista não me informa,
que, se existe, não sei, não reconheço:
vejo um só, para o novo recomeço,
que deixará o país em plena forma.

Reforma e mais reforma: eis o segredo,
para erguer a república decaída,
caduca e emperucada, aqui concedo” —

disse um magro, com ar de quem queria
uma porção mais gorda e mais fornida
da dama, que já quase não se via.

VII

“Conforme De Cesaro, um dos principais projetos do evento será a entrega da primeira parte de uma nova Constituição da República.”
(Trecho de notícia do site Jornal Já)

Roncando mais que um rústico motor,
soltando gás por todos os buracos,
nova Constituição vinha propor
um sexto: “É que a outra se desfez em cacos!”

Com uma algazarrada de valor
(lembrando os guinchos de uns três mil macacos),
retumbava: “Ao povão faço um favor,
que há de pagar-me com uns gordos nacos.

Altruísta e generoso, não me omito,
em hora tão solene e tão urgente,
de estender minha mão ao povo aflito,

lhe oferecendo, à guisa de presente,
este morno, este gordo, almo presunto,
onde o meu coração se embrulhou junto.”

VIII

“‘As instituições estão funcionando normalmente’, diz Temer em vídeo”
(Notícia de Veja)

“De minha parte,” — um disse, mastigando
um naco de ar em plena escuridade —
“firmo-me apenas na estabilidade
das instituições todas funcionando

(como o intestino de uma divindade!),
que o resto vai com o tempo se ajeitando,
em concerto que julgo formidando,
a essa espécie magnífica de grade.

As instituições! — termo tão bonito
que, não fosse esta fome em que me agito,
valeria uma bela digressão.”

E com um grosso traque se sentou
no chão frio, depois que pronunciou
seu discurso repleto de razão.

IX

“O avanço da pobreza é considerado um dos grandes retrocessos da recessão econômica, após anos de avanços na área. Segundo Cosmo Donato, economista da LCA, a expectativa era que a retomada econômica fosse capaz de produzir números melhores no ano passado.”
(Trecho de notícia do Valor Econômico)

“Retomada! A palavra é retomada —
melodia suavíssima, emoliente,
que faz abrir-se um sol dentro da gente
como depois de chuva prolongada!

É o segredo!” — disse um, de alma enlevada,
com um fogo em seu ânimo potente
e na cauda um bulício diferente,
que lembrava uma cobra enquizilada. —

“Que não é o caso, claro, desta pobre,
cujo exício no entanto é condição
para que a economia se recobre!”

E abriu os grandes braços de leitão
como para abraçar um elefante
que não estava lá naquele instante.

X

“Empresários de micro e pequenas empresas apostam na recuperação econômica”
(Notícia do Último Segundo)

“Lembraste bem,” — disse outro, entusiasmado,
tocado pela mesma vibração —
“mas eu prefiro recuperação,
que é a palavra por que ando enfeitiçado.

Recuperar” — bradou, empanzinado —
“com fúria de usurário ou de patrão,
como, depois de obscura transação,
que deu zebra, um montante esperdiçado!

Nada me encanta mais que esse feitiço,
que essa gana que vem lá do intestino
e põe em nossa mente um novo viço!

Recuperar! Que os micros e os pequenos
apostem em tal carta o seu destino,
e os dias sejam lúcidos e amenos!”

XI

“Aumento de impostos amplia rejeição a Temer”
(Notícia do Estadão)

“Não queremos pagar nenhum imposto,” —
fez o décimo, impando de afoiteza —
“embora seja bem do nosso gosto
ir financiar no erário a nossa empresa.

Que ao Estado se imponha, com dureza,
um bonito cabresto — eis no que aposto —,
deixando, claro, por delicadeza,
a teta livre, para o nosso encosto!

Vale privatizar o mundo inteiro —
ares, águas e terras, mais o fogo
(contanto que cheguemos lá primeiro).

Tais são os meus conselhos, que aqui jogo,
como magra ração, sem tino ou siso,
para estufar o bucho dos sem juízo.”

XII

“Prender miúdos e proteger graúdos é a tradição brasileira que nós estamos fazendo força para superar.”
(Luís Roberto Barroso)

“Ai, ai! Ui, ui! Ai, ai!” — fez um, gemendo —,
“que a minha erudição não gasto aqui,
em tão espesso e obscuro sambaqui,
só as decisões mais belas me cabendo.

Concordo com quem disse, alto e colendo,
que a lei deve tocar cada um ali,
naquele ponto que bem lembra um i
e onde não entro à força, prorrompendo.

Prefiro a vaselina, o íntimo gel
da árdua jurisprudência, que no início
parece azeda, mas depois é um mel.

Este é” — falou, roendo o fêmur dela —
“nosso lema: cozer, por velho ofício,
graúdos e miúdos numa só panela!”

XIII

“Que bela a festa da democracia,
que civismo, que espírito ufanista,
de ampla, civilizada, alta conquista!” —
exclamou o último com alegria. —

“Que o eleitor não se omita, não desista,
em quadra assim tão cheia de magia,
de mostrar na urna que a cidadania
é um farol a alumiar a nossa vista!

Belo, que até me engasgo! E sai barato
se pensarmos que em época passada
era o chicote que ensinava o acato!

Agora é a propaganda, bem regada
com o leite do erário, cujas tetas
cevam tevês e rádios e gazetas!”

XIV

Ditos esses discursos espantosos,
puseram-se a dançar alegremente
ao som de alguma música premente,
que entoavam entre arrotos cavernosos.

Eu, que os nervos não tenho vigorosos
e estremecia à sombra como um doente,
fui saindo de fininho, francesmente,
para a floresta, a passos cautelosos.

(Doido medo me deu de que eles viessem
comer-me a carne, o rabo e até o cabelo,
caso, na escuridão, me descobrissem!)

Depois, com uns tremores incivis,
corri, voei, como num pesadelo,
e nunca mais voltei àquele país!

9/12-4-2018

porco_bisaro

 

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