para além das palavras (poemas de vasco câmara pestana)

PARA ALÉM DAS PALAVRAS

Para além das palavras
e dos ponteiros do relógio
há um refúgio
um ventre ancestral
um anoninato quintal esplendoroso
os bastidores de um Cenário Solar
que inundava toda a casa !

E que na tua ausência fragmentada de Espelhos Quebrados
emprestou ainda uma forma mais triste e bestialista !

Muito para além da Melancolia
de não estar estando invisível
à volta da púrpura torre do Campanário !

Para assim o viver se justificar
naquele fantasmal negrume
como um rubor
de um amor derramado !

OBJECTIVO : DELI !

Em Deli pasmado tomo consciência de mim
abjecto contentor de palavras
quem sou eu a pronunciar-me
a enxugar lágrimas marítimas ?

Sou sim ciumento de todos vocês
a tagagarelar a conviver e a conversar
incompreensíveis para mim ao longo de um rio morto !

Para trás ficou todo o resto
a precariedade da minha dignidade
ficou um baú vulnerável
num Portugal dos Pequeninos !

Por uma escada acima perpasso fumegante
num fétido regato
acendo uma luz num candeeiro a óleo
algures num recinto sagrado
e nos pressentidos bambus
bruxuleantes para um Principiante
fervilho no objectivo ambicionado
chegar a Nova Deli !

SINAIS EMITIDOS

Armados de Vozes
guiados por Archotes Indestrutíveis
caminhamos iluminando a Missa
Cantada e as Traves Mestras e Inflamáveis !

Ó Génio de Aladim rodopias na Lâmpada
Mágica das mil e uma noites adiante de mim
escrevo num galope
com a facilidade inconsolável do sonho.

Sou eterno dizia Eugénio de Andrade
sabiam eu não tenho nada
só emito sinais
fundos sonoros simbolizavam a Glória
numa Sala de Audiências !

Aproximei-me dos segredos
dos degredos das casas
privadas de intricadas escadas
vaporosas respeitáveis casas absorvidas
por mensagens e afectos que perduravam
sem medo do lado de fora
e dos sinais emitidos
homenageavam-se corações de deuses
nos degraus do Trono !

 

NARA–NADJA

Como se fosses o Anjo da Guarda
meu e de Portugal
e estivesses de regresso às Origens
acabada de chegar dos Brasis…

Um dom Sebastião feito de estilhaços
longos cabelos ondulados
e brilhantes madeixas de cigana
com traços mestiços
particularmente no torso e no rosto
de cera.

Máscara Alucinada
feiticeira profanada
marciana boneca mecânica
parece que caíste aqui neste
outro interior nodestino
por uma distração do destino

envelope

ENVELOPE

Estou encerrado no ventre deste envelope
com estas palavras
um íman atraiu-me do céu e sol
da luz e dos astros !

Para onde me dirijo
há uma data ou uma cidade
um bilhete postal
e no verso uma frase exacta !

Um envelope é um poema que voa
transpõe pontes até chegar às tuas mãos
recipiente imortal onde
as almas se apresentam !

Em cega convulsão
sou água escavada no fundo deste poema
sou chamamento !

O que sobra dum envelope
são palavras de uma invisível inteligência
como quem conversa a sós
são pássaros brancos
sumptuosos trajes
arrancados a esta Maldição !

PANCADAS DIVINAS !

Ó destino do Azul ?
hesito !

Um enorme rochedo prateado de estrelas
simboliza para mim o Além !

Procuro o botão da televisão
liguei o rádio
entalei a cabeça nos auscultadores
e louco de desejo ditei durante longas horas
cartas !

Está escondida na mente um compartimento secreto
que contem a chave de outro secreto compartimento
escondido no primeiro !

Repercutiam-se nas paredes do Mosteiro
Pancadas Divinas !

FUI ATINGIDO !

Fui atingido no centro da minha vida
e o silèncio destas paragens já não me serve de consolo !
Já não me basta estar quieto
estar vivo ó quietude !

Por que caminhos traçados me levas
de braço dado com a morte perniciosa
natureza–espectro !

Numa bandeja errante por que caminhos calcinados me levas
ao encontro de quem ?
Com a mão negligentemente entre as coxas
que ídolo absolvias ?

Ao longe ouvem-se os tambores !
tumores que aumentam
como uma roleta russa fui atingido !

Dentro de um poema obscuro
bem no centro da minha vida
retirado para um além fora do mundo
nada posso pedir-te !

Tu sais à arena e desapareces febril
no final apenas arriscamos a vida
por um poema de amor louco !

FUI ATINGIDO !
um estouro ficou agrafado
e sugado ao poema SIM !
Fui atingido e fechado fiquei
as horas sucedem-se descarnadas
e com marcas de GARRAS !

 

ENTRO MUDO & SAIO CALADO

Intacto como um poema
eu próprio entro mudo
e saio calado !

Respirava crispado
em imundo embaraço
já pulsa o morto enfermo
tão raro !

E encontrado descuidado
vivo como um feiticeiro delicado
sobrenatural mantenho-me à espreita
à espera !

Um sorriso por favor
para a fotografia !

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