da poesia do Al Andaluz

“Nós Ibéricos, somos o cruzamento de duas civilizações – a romana e a árabe.
 Somos, por isso, mais complexos e fecundos…”.

Fernando Pessoa in “Da Ibéria e do Iberismo”

 

astrolábio árabe

astrolábio árabe

 

Ibn ‘Ammâr conhecido como Ibn Emmar de Silves – nasceu em Sannabus (Estômbar / S. Brás de Alportel (?)) em 1031. morreu em Sevilha em 1084

A Sannabus

 

Sannabus! Chora aqueles que são meus!
Com um choro tão abundante
Como o rio que te atravessa em furiosa torrente.

 

A almutâmid

 

Quantas noites passámos no Açude entre as sinuosas correntes do rio
Que deslizavam como sarapintadas serpentes.
As correntes passavam próximas de nós como ciumentos
que procurassem feris-nos com a sua maledicência.
No recanto escolhido, o jardim visitava-nos
Enviando os seus presentes pelas mãos aromatizadas da brisa.

assilbia poetisa nascida em Silves (?)
– viveu, ao que se julga, na época almoáda (1150 aprx.)

 

Silves, ó minha Silves, eras outrora um paraíso
Mas transformaram-te tiranos no fogo do inferno.
Foram injustos que não temeram o castigo do Senhor
Mas nenhuma coisa oculta é oculta para Alá

 

imagem: do livro Mandalas de Al-Andaluz, de Christian Pilastre

imagem: do livro Mandalas de Al-Andaluz, de Christian Pilastre

 

Abu Alfadie ibn Alalame Assantamarri – natural de Faro – século XII (datas imprecisas) – Era filho de Abu Alhajaje Alalame importante analista da poesia pré islâmica.

É este o rio e estes são os bosques
Corpo de que a alma é a brisa dos jardins.
Rio,
Espada se a brisa dorme à superfície.
Cota de malha, se os ventos sobre ela se perturbam.

.

Olha as flores levantadas como estrelas no céu do jardim
Generosamente regadas pela chuva.
Caíram lentamente uma após uma. E alguém dirá:
Um génio mau que procurava surpreender um segredo
aproximou-se para escutar
e desfolharam-se sobre ele para o lapidar.
Olha também o regato sobre o qual a brisa, hábil artesão,
afeiçoou ornamentos de bolhas.

(in: A cidade e o mar na poesia do Algarve – recolha de Fernando Cabrita)

 

 

Muhammad ibn ‘Abbad al-Mu’tamid
(Beja 1040- Aghmat 1095)

 

EVOCAÇÃO DE SILVES

 

Eia, Abû Bakr, saúda os meus lares em Silves
e pergunta-lhes se, como penso,
ainda se lembram de mim.

Saúda o Palácio das Varandas
da parte de um donzel
que sente perpétua nostalgia desse alcácer.

Aí moravam guerreiros como leões,
e brancas gazelas
– em que belas selvas, em que belos covis!

À sua sombra, quantas noites passei
com mulheres de quadris opulentos
e de aparência extenuada!

Brancas e morenas
provocavam-me na alma
o efeito das espadas refulgentes
e das lanças escuras!

Quantas noites passei,
deliciado, numa volta do rio,
com uma donzela cuja pulseira
imitava a curva da corrente!

E servia-me vinho do seu olhar,
e o vinho do jarro,
e outras vezes o vinho da sua boca.
Assim passava o tempo!

Feridas pelo plectro,
as cordas do seu alaúde faziam-me estremecer,
e era como se ouvisse a melodia das espadas
nos tendões dos inimigos…

Ao despir o manto descobria o corpo,
florescente ramo de salgueiro,
como o capulho se abre
ao exibir a flor…

tradução de David Mourão Ferreira

 
moinho

Ibn mucana
(Alcabideche – Cascais, 1042 — Alcabideche, século XI)

 

Ó tu que habitas Alcabideche! Oxalá nunca te faltem
cereais para semear, nem cebolas nem abóboras
Se és homem decidido precisas de um moinho
que trabalhe com as nuvens sem dependeres dos regatos.
Quando o ano é bom a terra de Alcabideche
não vai além das vinte cargas de cereais.
Se rende mais, então sucedem-se,
ininterruptamente e em grupos compactos,
os javalis dos descampados.
Alcabideche pouco tem do que é bom e útil.
como eu próprio quase surdo como sabes.
Deixei os reis cobertos com os seus mantos
e renunciei a acompanhá-los nos cortejos…
Eis-me em Alcabideche colhendo silvas com uma podoa ágil e cortante.
Se te disserem: gostas deste trabalho?, responde; sim.
O amor da liberdade é o timbre de um carácter nobre.
Tão bem me governam o amor e os
benefícios de Abu Bacre Almofadar

que parti para um campo primaveril.

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