Ti-MARIA – “A CRIMINOSA”

este texto foi recolhido na net (facebook). por o considerarmos extremamente importante e pertinente, publicamo-lo aqui – na “gripe das aves”.

ti-maria

Ti-MARIA – A CRIMINOSA (1)

“A Ti-Maria (Maria Isabel) tem 83 anos e é uma criminosa. 
O local do crime é o fogão, e assim foi durante muitos anos: vende bolo de laranja no café da zona. Sem recibo. E ainda consegue ir mais longe: usa os ovos das suas próprias galinhas. Juntamente com a filha, formam uma organização criminal. Eusébia, com 58 anos, produz uma pequena quantidade de queijo de cabra na sua própria cozinha que vende aos vizinhos a 1 euro a unidade. Um dos vizinhos, José Manuel, utiliza o antigo forno de barro que tem no quintal para cozer pão, faz uma quantidade a mais do que a que ele e a sua mulher necessitam para vender aos amigos, tentando assim complementar a pensão da reforma que recebe.
Alguns dos habitantes mais idosos da aldeia apanham cogumelos e vendem-nos ao comprador intermediário. Novamente, sem passar recibo. Por sua vez, este intermediário distribui-os em restaurantes, passa recibo mas fá-lo pelo dobro do preço que pagou por eles. Marta, proprietária do café da zona, encomendou alface ao fornecedor mas acrescentou umas ervas e folhas de alface do seu próprio quintal. E se pedíssemos uma aguardente de medronho, típica da zona, quando a garrafa oficial, selada com o imposto fiscal, estiver vazia, o seu marido iria calmamente até à garagem e voltava a encher a garrafa com o medronho caseiro do velho Tomás. Podemos chamar a isto tradição, qualidade de vida ou colorido local – o certo é que em tempos de crise, a auto-suficiência entre vizinhos, simplesmente ajuda a sobreviver.
O Alentejo é das regiões mais afectadas pela crise que de qualquer forma afectou todo o país. A agricultura tradicional está em baixo, a indústria é quase inexistente e os turistas raramente se deixam levar pela espectacular paisagem costeira da província. Os montes alentejanos perdem-se em ruínas. Quem pode vai embora, ficando apenas a população idosa a viver nas aldeias, e para a maior parte, o baixo valor que recebem de reforma é gasto em medicamentos, logo na primeira semana do mês. Inicialmente, as pessoas fazem o que sempre fizeram para tentar sobreviver de algum modo. Vendem, a pessoas que conhecem, o que eles próprios conseguem produzir. Não conseguem suportar os custos de recibos ou facturas. Para conseguir iniciar um negócio com licença, teriam de cumprir os requisitos e fazer grandes investimentos que só compensariam num negócio de maior produção.
Ao contrário de Espanha, Portugal não negociou acordos especiais para quem tem pequenos negócios. As consequências: toda a produção em pequena escala – cafés, restaurantes , lojas e padarias que tornam este país atractivo – é de facto ilegal.
Só lhes restam duas hipóteses:
– ou legalizam o seu comércio tornando-se grandes produtores
– ou continuam como fugitivos ao fisco.
Até agora e de certa forma, isto era aceitável em Portugal mas neste momento, parece que o governo descobriu os verdadeiros culpados da crise: o homem modesto e a mulher modesta como pecadores em matéria de impostos. Como resultado, as autoridades fecharam uma série de casas comerciais e mercados onde dantes eram escoadas os excedentes das parcas produções dos pequenos produtores e transformadores, que ganhavam algum dinheiro com isso, equilibrando a economia local.
Há uns meses atrás, a administração fiscal decidiu finalmente fazer algo em relação ao nível de desemprego: empregou 1.000 novos fiscais.
Como um duro golpe para a fraude fiscal organizada, a autoridade autuou recentemente uma prática comum na pequena Aldeia das Amoreiras: alguns homens tinham – como o fizeram durante décadas – produzido e vendido carvão. Os criminosos têm em média 70 anos, e os modestos rendimentos do carvão mal lhes permitia ir mais do que poucas vezes beber um medronho ou pedir uma bica. Não é benéfico acabar com os produtos locais e substituí-los por produtos industriais.
Não para o Estado que, com uma população empobrecida, não tem capacidade para pagar impostos. E não é para a saúde: não são os produtos caseiros que levam a escândalos alimentares nestes últimos anos, mas a contaminação química e microbiana da produção industrial. Apenas grandes indústrias beneficiam desta política, uma política que chega mesmo a apoiar a crise. Sendo este um país que se submete cada vez mais a depender de importações, um dia não terá como se aguentar economicamente. É a realidade, até parece que a globalização venceu: os terrenos abandonados do Alentejo foram maioritariamente arrendados a indústrias agrícolas internacionais, que usam estes terrenos para o cultivo de olival intensivo, para a produção de hortícolas em estufas e também de OGM’s (Organismos Geneticamente Modificados – Transgénicos produzidos pela multinacional americana ‘MONSANTO’ que foi autorizada pelo governo português a cultivar esses produtos internacionalmente proibidos).
Após alguns anos, os solos ficam demasiado contaminados. Em geral, os novos trabalhadores rurais temporários vêm da Tailândia, Bulgária ou Ucrânia, trabalham por pouco tempo e voltam para as suas casas antes das doenças se tornarem visíveis.
Com a pressão da Troika, o governo está a actuar contra os interesses do próprio povo. Apenas há umas semanas atrás, o Município de Lisboa mandou destruir mais uma horta comunitária num bairro carismático da cidade, a “Horta do Monte” no Bairro da Graça, onde residentes produziam legumes com sucesso, contando com a ajuda da vizinhança. Enquanto os moradores do bairro protestavam, funcionários municipais arrancaram árvores pela raiz e canteiros de flores, simplesmente para que os terrenos possam ser alugados em vez de cedidos. Mais uma vez, uma parte da auto-organização foi destruída pela crise. A maioria dos portugueses não aceita isto. No último ano e por várias vezes, cerca de 1 milhão de pessoas – o equivalente a 10% da população – protestou contra a Troika.
Muitos demonstram a sua criatividade e determinação durante a desobediência civil: quando saiu a lei que os clientes eram obrigados a solicitar factura nos restaurantes e cafés, em vez de darem o seu número de contribuinte, 10 mil pessoas deram o número do Primeiro-ministro. Rapidamente isto deixou de ser obrigatório.
Também há alguns presidentes de freguesias que não aceitam o que foi feito aos seus mercados. E assim os pequenos mercados locais de aldeia continuam mas com um nome diferente “Mostra de produtos locais”, “Mercado de Trocas”. Se alguém quer dar alguma coisa e de seguida alguém põe dinheiro na caixa dos donativos, bem… quem irá impedi-lo?!
Existe um ditado fascinante: “quando a lei é injusta, a resistência é um dever”. É este o caso. Não são os pequenos produtores que estão errados mas sim as autoridades e quem toma as decisões – tanto moral como estrategicamente, porque:
– é moralmente injustificável negar a sobrevivência diária dos idosos nas aldeias.
– é estrategicamente estúpido…porque leva ao extermínio destes velhos, de forma encapotada.
Um tesouro raro está a ser destruído: uma região que ainda tem conhecimentos e métodos tradicionais, e comunidades com coesão social suficiente para partilhar e para se ajudarem entre si, estão a ser destruídas.
Uma economia difundida globalmente e à prova da crise é o que aqui acaba por ser criminalizado, ou seja, a subsistência rural e regional, o poder de auto-organização de pessoas que se ajudam mutuamente, que tentam sustentar-se com o que cresce à sua volta.
Ao enfrentar a crise, não existem razões para não avançarmos juntos e nos reunirmos novamente. Existem sim, todos os motivos para nos ajudarmos mutuamente, para escolhermos a auto-suficiência e o espírito comunitário rural. Podemos ajudar a suavizar a crise, pelo menos por agora – se não, no mínimo oferecemos um elemento chave para a resolver.
Quanto mais incertos são os sistemas de abastecimento da economia global, mais necessária é a subsistência regional.
Assim sendo, pedimos a todos os viajantes e conhecedores: peçam pratos caseiros e regionais nos restaurantes. Deixem que as omeletes sejam feitas por ovos que não foram carimbados nem selados. Peçam saladas das suas hortas. Mesmo em festas ou cerimónias, escolham os produtos de fabrico próprio, caseiros. Ao entrar numa loja ou café, anunciem de imediato que não vão pedir recibos ou facturas.
Talvez em breve, os proprietários dos restaurantes se juntem a uma mudança local. Talvez em breve, um funcionário de uma loja será o primeiro a aperceber-se que a caixa de donativos na entrada traz mais lucro do que o registo obrigatório das vendas recentemente imposto. Talvez em breve, apareçam as primeiras moedas regionais como um método de contornar as leis fiscais”.

(1) – recolhido numa rede social (facebook) desconhecemos o autor do texto – mas concordamos com o exposto. daí a sua publicação na “gripe das aves”

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6 thoughts on “Ti-MARIA – “A CRIMINOSA”

  1. esta senhora com a burra não é uma( maria assassina) mas sim uma pessoa de grande inteligência,trabalhadora,honesta,dedicada e amada de todos os Linharenses,sempre levou o grão para o moinho,quer do centeio,trigo ou milho e nuncA VENDEU ESTAS TRETAS QUE ESTÃO ESCRITAS,ISTO É DIFAMAÇÃO E Á PESSOA QUE ESCREVEU ESTE ARTIGO A RESPEITO DELA DEVO CHAMÁ-LO OU CHAMÁ-LA (PESSOA SEM ESCRUPUILOS ) E AO DESCOBRIR ESDTA POUCA VERGONHA JÁ ALERTEI OS FILHOS DO QUE LI E ESPERO QUE ELES TENHAM A CORagem de levAR ISTO À JUDICIÁRIA PARA QUE NAO PENSEM QUE SE DIFAMA UMA PESSOA DE OITENTA E TAIS ANOS QUE PARA OS LINHARENSES É UMA QUERIDA E RESPEITADA POR TODOS FALEM DO PAÍS OU DAS VOSSAS V IDAS MAS DEIXEM PESSOAS DE IDADE E RESPEITOSAS EM PAZ (TENHAM VERGONHA

    • senhor João Albuquerque
      Cremos – permita que o digamos – que não leu o texto devidamente. Caso contrário não comentaria desta forma…
      O texto que publicámos não é da nossa lavra. Tal como afirmamos no início.
      Este texto foi recolhido numa das ditas “redes sociais” (Facebook) e se o publicámos foi porque o considerámos digno.
      Se o senhor João lesse devidamente teria percebido que em nenhum momento deste texto se desrespeita a senhora que surge na foto… Pelo contrário.
      Leia, senhor João, de novo…! Se o fizer verificará que não tem razão. Que o seu comentário não é minimamente razoável. E, apenas a título de exemplo reproduzimos este parágrafo:
      “Com a pressão da Troika, o governo está a actuar contra os interesses do próprio povo. Apenas há umas semanas atrás, o Município de Lisboa mandou destruir mais uma horta comunitária num bairro carismático da cidade, a “Horta do Monte” no Bairro da Graça, onde residentes produziam legumes com sucesso, contando com a ajuda da vizinhança. Enquanto os moradores do bairro protestavam, funcionários municipais arrancaram árvores pela raiz e canteiros de flores, simplesmente para que os terrenos possam ser alugados em vez de cedidos. Mais uma vez, uma parte da auto-organização foi destruída pela crise. A maioria dos portugueses não aceita isto. No último ano e por várias vezes, cerca de 1 milhão de pessoas – o equivalente a 10% da população – protestou contra a Troika.”
      Como verificará não há que ter vergonha de reproduzir este texto.
      Tão pouco podemos (em nenhum momento) considerar que o texto que reproduzimos é difamatório para as pessoas de idade respeitosa como o senhor João diz.
      Há, de facto, uma atitude crítica no texto. Sim, há. Mas não contra os protagonistas desta história.
      Há, de facto, uma atitude crítica no texto mas dirigida aos que impedem que possamos produzir e escoar livremente aquilo que fazemos ou plantamos nas nossas terras.

      • Mais uma nota senhor João Albuquerque:… repara que a palavra criminosa está entre aspas – “A Criminosa”
        E como é óbvio o senhor João saberá, como o saberá qualquer leitor atento, o que isso significa.

  2. O comentário do sr Albuquerque reflecte um equivoco,que acaba por dar razão ao artigo.A indignação surge de uma leitura emocional onde domina a ofensa ao bom nome dos Linharenses,pela desfeita a um dos seus veneráveis e impolutos habitantes.Não posso deixar de louvar tal atitude pois para mim a nossa pátria é a terra que nos moldou,e devemos defende-la inclusive das opiniões favoráveis daqueles que a não habitam,vulgo turistas.No entanto seria pobre só nos interessarmos pelo que diz respeito a nossa aldeia,Hoje podemos por varias vias estar em contacto com o mundo sem sairmos de casa e o sr Albuquerque fe-lo ao aceder a este blogue.Deve pois entender que os problemas da aldeia podem começar em Lisboa ou Bruxelas e que não havendo quem lá ande a defende-las (a generalidade dos partidos do poder são mesmo contra elas)o artigo em apreço é sem duvida uma chamada de atenção ao que essa raça de salafrários das cidades anda a montar nas costas do povo para acabar de vez com ele.Congratulo-me de ter dado a sua opinião ainda que equivocada pois de verdadeiros defensores da dignidade e bom nome dos pobres octagenarios das nossas desprezadas ruralidades é que o Pais urgentemente precisa.Bem hajam a Gripe das Aves pelo excelente blogue que é e o sr Albuquerque pela veemência com que defende o que é seu…..e nosso(nacional) ,já agora!
    José Bivar

  3. Não considero que o texto seja ofensivo à pessoa retratada na imagem (quem quer que seja), muito pelo contrário. É de crer que o leitor se tenha detido apenas no título do artigo e não tenha atentado para a mensagem veiculada. Há que ler com critério, pois se trata ali de defender o direito das pessoas idosas, e não de atacá-las, conforme ele supõe. Todo o apoio às pessoas humildes de Portugal, cujos interesses são afogados cotidianamente pelas enchentes da globalização.

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