ABRIU A ÉPOCA DE CAÇA AO VOTO (crónica de uma quarta feira)

vivam os senhores candidatos

vivam os senhores candidatos!…

esta manhã fui ao mercado de cascais
nem mais
o presidente da autarquia mais um ministro
e
mais uns meninos com ar de quem come almoços e jantares todos os dias
distribuíam papeluchos

 

nem mais
em cascais
os meninos vestiam umas camisolinhas (não compradas, por certo, na feira de carcavelos) com dísticos “à maneira”
os ciganos nas bancas “mandavam bocas” – suaves – das que evitam os ouvidos do presidente
e
eu bebia o meu tinto
e
trincava um pastelinho de bacalhau

 

a coisa estava animada
a caça ao voto é sempre animada
a caça ao voto é um jogo
que me diverte – muito – venha donde vier e de quem vier
então
um menino risonho veio dar-me um jornaleco político qb
uma merda que supostamente se lê
ou
lê quem sabe ler
ou
quem para isso está voltado (eu nunca estou)
mas
até aí
tudo vai bem
ou ia
bem

 

o petiz ficou com o jornaleco na mão
e
o ministro a olhar
e
eu a beber o meu tinto
e
o rapazola diz:
– é para si….
– ai é?
questionei eu
– é…
disse o mancebo
– para quê?
voltei a questionar
– para ler e…
– e…?
dissemos ambos pela ordem acima descrita (ele primeiro, claro)
– votar.
disse o menino da camisola com dísticos partidários e eu só disse:
– não voto!…
e ele de boca aberta de espanto:
– não?
e eu:
– nunca!
e ele:
– há sempre uma primeira vez…
e eu:
– pois há. como foi a tua primeira vez? foi bom?

 

e não é que o jovem caçador de votos não me respondeu?