da poesia de fernando grade (para ruy belo)

f-grade-poeta

 

MUITO LONGA MEMÓRIA 
PARA O POETA RUY BELO

 “Nenhum cristão deve ser mercador”  
(S. Jerónimo e Santo Agostinho)

Posso estar deitado ao comprido nesta cama
as unhas grossas, enormes, os dedos em concha
apontando os móveis da casa, e ter a janela aberta
de par em par escancarada para o bulício dos carros
para os beijos trocados na rua rente ao candeeiro
para as mulheres vestidas de preto negríssimo
que passam com carregos à cabeça;
poderei ter as horas todas para pensar, fumá-las, e
saúde muita, o cheiro quase infantil das godécias
os retratos de oblíquas viagens pela praia fora,
mas nenhum silêncio flor ou ave doida fará esquecer         a tua morte longínqua
nos antípodas (não foi em Queluz?),
e regressas assim a estas paredes de musgo bom
donde os teus versos nunca saíram, o riso que
deixavas na água, os teus versos, o alto poema:
gaivota viajada por dentro de casa
e tão dada ao sossego, tão de cereja a boca que soltaste
sobre os rios, o mar saloio. E pó de pedra e ranço
nunca serás.

Chegas morto, porém, fuzilado na alma às páginas das gazetas
que pouco sabiam da tua pessoa ou sentiam. Tampouco foste do negócio
dos vates, brocados, chiadices, morreste quase anónimo
mas defendido é certo pelos quarenta primos que são       os poetas daqui.
Quem apenas viveu a tua morte letra impressa
em jornais repletos de políticos e pandeiretas
deve ter encolhido os ombros e pensado
que – se tanto sobre ti diziam hoje – é porque dos mortos ninguém diz mal
e a morte é uma mercadoria romântica.
Mas contigo foram outros e floridos os lenços de acenar.
Estamos todos mais pobres e
varados por balas de terra nua junto ao coração.
Quem pegará na flauta ao chão descida?,
quem tocará agora nas margens do grande rio Eufrates?

Como cigarra devastada pelas tranças
estás ainda virado para o pinhal – e cantas.
Quotidiana e de aldeias brancas a morte em que crias
católico assim também eu fora, antes do sonho                 noutro barco
embarcado, diverso trapézio ecuménico.
Aqui tenho as tuas falas feitas de brisa e cal
no meio de outros mortos-vivos como tu
as praias explodem a Oeste.
E de novo regressas aos jornais a barba eternamente por fazer
e o espanto viajará em muitos olhos
por antes disso não te saberem o nome: de corridas a pé ou
a cavalo, bicicletas ou bólides, não te reconhecem o rosto
como trepador dos Pirenéus, fadista de beco ou toureiro janota.
E por bastos anos serás sinaleiro da água
da ternura
homem ao centro descendo ao centro da terra
por muitos sítios. Talvez tenhas agora a alma desportiva
que sempre quiseste ter, oh adepto do grande campeão
José Maria Nicolau.

Renovados estão os poderes que possuías sobre o fogo     e à sombra da tua memória vão ser encenados outros crimes e desastres outras pombas desastradas outros dias de silêncio mas jamais esqueceremos o vaso de gerânios que deixaste.

 Morreste? Ainda e sempre, hoje, pelo sítio do púbis.    Eternamente estarás quedo e mudo a ver passar o rio        o grande rio Eufrates que corre igualmente à minha  porta.

 E é por isso que a morte não são botas inchadas de sebo  e moscas ruins ou somente fardos de feno.

Se o Cesário Verde ainda fosse vivo, isto é
se fosse nosso agora – iria também ao teu enterro.
 

__________________

Estoril – 10 de Agosto de 1978

 

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