do poeta… fernando grade

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À PORTA DE RIMBAUD

“Um novo corpo amoroso veste os nossos ossos”

                             (Jean-Arthur Rimbaud)

 

À porta de Rimbaud arde um chocalho 
como flautas rasgadas de beleza, 
e as musas são despidas no soalho 
– o pão: espezinhado sobre a mesa.

Sibila de uma França galinácea
que semeia rosinas e chacais
entre os cravos, os goivos e as acácias.
Um corpo masturbado nos pinhais…

Por trás da neve, foste um bom profeta, 
morango, sangue de cadela ruiva, 
astros, astros, cidades de cal preta.

Quiseste ser em ti a própria noiva. 
Boca de morsa velha – o teu desejo… 
À porta de Rimbaud é que me vejo…   

  

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RUA FERNANDO PESSOA

                                

VlVI no Bairro dos Poetas um ano e cinco e dois meses, mais sete dias — quantas horas de treva? —, e as ruas eram sempre pequenas, esmagadas por flores.
Havia dois homens que amolavam facas, punham chapéus-de-chuva aptos e joviais para com eles se descer à cidade do Rocio.
Um dos homens era novo e gordo; o outro bebia, dizia ser de Cintra quais morangos frenéticos, e tinha colado às veias o fulgor da chuva.
Era o seu vinho cimentado em angústias.
Estavam combinados como a dádiva do vento ou fungos de astros com sarna: de quinze em quinze tardes, o primeiro homem (às quintas-feiras) e o segundo (aos sábados) assobiavam como cântaros rachados por tesoiras.
Às portas e janelas chegavam rostos, vinham do almoço tecido de nêsperas, garfos ou maracotos,
olhavam para o amolador de sonhos minúsculos, e sorriam.
Alvalade ainda não era a época dos números a rua Fernando Pessoa tinha pedras por trás dos prédios bom vinho, coelhos a crescer, leite.

Ao tempo eu gostava dos cabelos sedosos de Mathilda fazia brindes ao seu cheiro fêmeo a invadir pomares; João tinha regressado do Egipto com retratos de amores brejeiros; Mitchell escrevera a dizer que o vento molhado sabia mais a frutos, isto é, queria fazer as pazes com Rodessa; e a Kathie e a Kathleen e o Marcos bebiam a três licor — à noite — numa escaldada cama de feltros: eram um sexo triplo e submerso, um fogoso cérebro volúvel.

Eu lia Fernando Pessoa, à minha volta cresciam as ervas rasas tinha no sangue então o conflito de ainda não ter ido à Grécia acreditava que os olhos não voavam, queria-os cordeiros mas passava as noites a contar os desastres, os incêndios que traziam sustos, toalhas sangrentas e fungos.
O tempo era, ao tempo, um toiro de Sevilha e um verme, o aroma intenso das raparigas.
O rosto à vista tinha dentro de si muitos rostos.
O mesmo acontecera com a rosa brava que beijava os próprios monstros. Assim todos os becos sagazes dispunham de um triturador de bolachas.

Era uma época de bailes submarinos.
As casas queimadas fascinavam-me. Como sei que — mesmo agora — os livros cínicos fazem-me bem.
Foi nessa época que a lã pacífica dos dedos de Benny caiu sobre o corpo de Rogan.
E os ingleses mais velhos não gostaram.
Porque os dedos direitos de Benny dispararam navalhas e o coração de Rogan não era feito de granito.
Por muitas horas que, então, eu lesse os versos de Pessoa os sítios não mudavam.
A Cheryl não se deixava seduzir por anéis ou retratos.
O Quim odiava o Benny que exibia um carro da cor do céu.
Era tenebroso ser português em Lisboa, e jovem.
Mesmo depois de ter saboreado as ilhas gregas, os cheiros do Mar Egeu invadiam os meus nervos com lacraus e pólvora.

Entre mim e a Grécia houve sempre muitas facas.

(in “PHILOSOPHUS PER IGNEM, poemas”,  Edições Mic, Colecção Salamandra/19)

 

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