6 poetas portugueses (estamos a falar de poetas)

1-bocage

Manuel Maria Barbosa du Bocage

(1765 / 1805)

Liberdade, onde estás? Quem te demora

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não Caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha… Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

2-pascoais

Teixeira de Pascoaes

(1877 /1952)

No Seu Túmulo

Sobre o seu frio berço sepulcral,
Meu espirito resa ajoelhado;
E sente-se perfeito e virginal
Na sua dôr divina concentrado.

Caí, gotas de orvalho matinal!
Astros, caí do céu todo estrelado!
Sêcas flôres do zéfiro outomnal,
Vinde enfeitar-lhe o tumulo sagrado!

Ó luar da meia noite, encantamento
De sombra, vem cobri-lo! Ó doido Vento,
Dorme com ele, em paz religiosa…

Sobre ele, ó terra, sê brandura apenas;
Faze-te luz, toma o calor das pennas;
Sê Mãe perfeita, bôa e carinhosa.

3-pessoa

Fernando Pessoa

(1888 / 1935)

O Objectivo da Arte não é Ser Compreensível

Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à cousa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar. 

Há ideias vulgares e ideias elevadas, há sensações simples e sensações complexas; e há criaturas que só têm ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes têm ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a expressão. Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível, porque a arte não é a propaganda política ou imoral. 

Fernando Pessoa, in ‘Sobre «Orpheu», Sensacionismo e Paùlismo’

 

4-sá carneiro

Mário de Sá-Carneiro

(1890 / 1916)

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

5-a-maria-lisboa

António Maria Lisboa

(1928 /1953)

Conjugação

Para o A. Cruzeiro Seixas 

A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio
             e coberta de bolor 
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente 

             fino 
Como Uma Agulha 

A construção dos poemas 
A CONS 
TRU 
ÇÃO DOS 
POEMAS 

é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul 
é como amar formigas brancas obsessivamente junto 
             ao peito 
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo 
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas 
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente 

                            NUM TÚMULO EXAUSTIVO. 

 

6-cesariny

Mário Cesariny de Vasconcelos

(1923 // 2006)

Uma Certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura 
de gente à procura duma certa quantidade 

Soma: 
uma paisagem extremamente à procura 
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha) 
e o problema do quarto-atelier-avião 

Entretanto 
e justamente quando 
já não eram precisos 
apareceram os poetas à procura 
e a querer multiplicar tudo por dez 
má raça que eles têm 

ou muito inteligentes ou muito estúpidos 
pois uma e outra coisa eles são 
Jesus Aristóteles Platão 
abrem o mapa: 
dói aqui 
dói acolá 

E resulta que também estes andavam à procura 
duma certa quantidade de gente 
que saía à procura mas por outras bandas 
bandas que por seu turno também procuravam imenso 
um jeito certo de andar à procura deles 
visto todos buscarem quem andasse 
incautamente por ali a procurar 

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse 
que certo se esse alguém fosse um adolescente 
como se é uma nuvem um atelier um astro 

 
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