O que te consagra,
pássaro de asa torta
e sombra magra,
é o voo.
O que dá sentido
à tua tentativa
de alcançar a costa,
lançado por cima da onda
que não quer o teu bem,
pássaro de asa franzina
e voz-ninguém,
é o próprio esforço
de chegar à praia,
atravessando a chuva
e o vento de agosto,
que te empurra e atrasa.
O que te realiza,
pássaro cansado,
que atravessaste o canal
de lado a lado,
que atravessaste o mar,
lutando contra
os contratempos do ar
e as inconstâncias da nuvem,
pássaro de asa qualquer,
não é o pouso
nem a façanha de arder
como um fogo melhor
por cima de ti mesmo
(entre a meta e o valor),
sombra magra –
é o voo.
(RS)
