3 poemas de renato suttana – 3 imagens de m. almeida e sousa

série-pe13

Que tolice esta tarde,
com os cajados e os corvos,
com as surpresas da pedra
e o azul das distrações.

Que estúpida esta voz
que escutamos, devotos,
já quase acreditando
que há de chegar a carta.

(E são só engrenagens –
pássaros-engrenagens –
esses pássaros cegos
que vigiam o caos.)

Ai! Avanço e me lembro,
ergo os braços e apanho
uma fruta de vento
que sequer me ofereces –

eu, o irmão deserdado,
o filho de janeiro,
o fingido, o pirata
que as máquinas destroçam.

série-pe14

O sonho desse pássaro
é entender o teu nome,
é dizer o teu nome
mesmo entre os labirintos.

A ilusão desse pássaro
é pousar no teu ombro,
é levar-te, madura,
para um país de granito.

(As máquinas destroçam
meu inútil perfil:
e levam para longe
tua pele de seda.)

Ai! pudera – esse pássaro –
pronunciar o teu nome
à sombra de um carvalho,
sobre um galho do sol.

Mas não. É só dezembro.
É deserto em dezembro.
E, além do mais, tranquila,
lá puseste uma rosa.

série-pe15

Cego, porém atento,
através da janela,
é que perscruto, triste,
os sinais do verão:

suas ondas de fogo,
suas três mil janelas,
seus mares de silêncio,
sua musculatura.

É sozinho, num quarto,
que desenho, no verde,
o mapa do teu corpo
que doma a tempestade.

(Que sei eu de tudo isso,
assim, tão preso à pedra,
de onde não vens, não surges,
onde não plantas nada?)

É fechado entre muros
que avisto o teu perfil:
na paisagem de vidro
que um pássaro vigia.

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