3 poemas de renato suttana – 3 imagens de m. almeida e sousa

série-pe10

Um abismo de conchas
e palavras insípidas
(que os ouvidos recusam)
tem ali seu início,

tem ali sua borda
e é ali que, começando,
tão perigosamente
convida à distração.

Mas tu não dás ouvidos
e segues adiante:
senhora do futuro
e do nácar do sono.

Ai! quebra-se a palavra!
Ai! minha boca, exangue,
meu estilhaço rubro,
meu doido acontecer –

que lentamente escorre
sobre coisas de não
e a raiva de ser noite
e de ser só verão.

série-pe11

O granito da sombra
modula o teu perfil,
escrevendo um aviso
sob o sol de dezembro:

e é ao longe que te vejo,
ajustada ao silêncio,
carregando o teu fardo
para um longe de cinzas.

Um silêncio devoto
no entanto te circunda
e forma ao teu redor
essa moldura preta,

onde cresce um lagarto,
onde cresce um carvalho,
onde cresce, entre espigas,
o segredo da noite.

Que sei eu de tudo isso?
Sei nada: estou aqui
parado, a meditar,
enquanto vais, fugindo.

série-pe12

Perdi o teu reflexo,
trocado por um grito,
quando, esmiuçando, cego,
a superfície da água

em que se refletia,
servindo-lhe de espelho,
minha voz se partia
sobre arestas de gelo.

E eras tão simples! Eras
anterior ao reflexo,
caminhando, segura,
à sombra dos rochedos.

Porém, na tarde cinza,
de longe é que eu te via,
levando para longe
teu nome e teus tesouros:

para um longe de cinzas
que o silêncio aprovava
e a noite já sabia
como petrificar.

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