ansiedades III

gripe-26-12-12

VI

Os corvos não estão
pousados sobre os muros.
Não estão lá pousados
sobre as telhas, ao sol:

não estão lá sequer
e por isso não podem,
não alcançam ser vistos
por quem passa na rua.

E cantam, entretanto,
fazendo estranhos círculos
no vento que os ignora
sob o teto das nuvens.

(São fantasmas de outrora
distribuindo prêmios.)
E cantam, esquisitos,
com uma quase voz.

VII

Lá estão os desvalidos,
com o seu núcleo bobo,
com a sua tristeza,
com o seu labirinto.

Lá estão os seus acenos,
seus óculos, seus lenços,
suas bandeiras rotas
de que o vento se ri.

Ao longe, como ovelhas,
como arbustos e troncos
de árvores abatidas
em nome de um princípio:

com seus lemas, seus dados,
suas doces palavras,
suas duras palavras
de que o vento se ri.

VIII

Infeliz de quem olha
e espera de setembro
a explicação, a cifra
da impossível mensagem.

Não há nada no vento,
nem no circo das nuvens,
nem sobre o verde agudo
das árvores de agora;

não há nada entre as velhas
arestas das esquinas,
ou entre as familiares
ranhuras das fachadas,

ou sobre o calçamento
das ruas de setembro
lavadas pela chuva,
que lembre uma palavra.

IX

A mensagem da qual
ninguém se encarregou
jaz ali, derrelita,
como um indescritível

cadáver de setembro:
como um torso, uma estátua
a que falta a cabeça.
A mensagem da qual

ninguém se encarregou
(e era a mais importante,
e era a mais esperada),
jaz ali, sobre a pilha

a que nada acrescenta:
como um trapo, uma fruta
podre, um resto, basura
de incômoda lembrança.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s