ansiedade II

voo-aves

III

Ao longe o mensageiro
que tem parte com o vento
se aproxima do vento,
sem medo da distância.

É irmão de um camponês
que morreu em janeiro
e leva em sua bolsa
a encomenda mais cara,

e na boca a mensagem
que veio nos trazer
e se esqueceu, contando
nuvens, de nos contar.

Ao longe, como um longe
adeus que já não vemos,
como um aceno, um grito
que ao longe não ouvimos.

IV

As horas em setembro
são espadas rombudas,
são punhais cujo gume
se desgastou no vento.

Cobertas pelas nuvens
e pelo brilho morno
do céu primaveril,
da curva de setembro,

são águias em silêncio,
são leopardos ao sol;
e cantam, num sussurro
repleto de apreensão

(como conta um segredo
uma menina triste
à sua triste mãe)
uma história qualquer.

V

As horas em setembro
são ácidas e rudes,
como punhais ao vento,
como agulhas do sol.

Repletas de silêncio,
à luz de um céu cansado
(de um céu de primavera,
cuja curva é risível),

são águias em silêncio,
são leopardos ao sol,
falando, num sussurro
(como conta um segredo

uma menina absorta
à sua absorta mãe),
da visita de um anjo
que não valeu a pena.

in: ansiedade (renato suttana – brasil)

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