2 poemas para 2 imagens

dois poemas de renato suttana para duas imagens de m. almeida e sousa

série-pe01

Sou de vidro, sou barro,
não tenho procedência:
venho do asco e da chama,
de um fundo precipício.

Venho do vento, da água
que te molha, sozinha,
no ato de desdenhares
surpresas e corais.

E te digo, de cima,
do alto do meu cansaço,
que não me importa ser
só o teu maltrapilho,

teu corvo de ametista,
tua velha moldura:
teu escultor, teu mago,
teu filho desprezado.

Nada disso me importa
sob o sol de dezembro,
que de mim sabe apenas
que não sou o teu anjo.
série-pe02

As máquinas do vento
(sempre desinformadas,
sempre emperradas, cegas,
sempre vãs e rombudas)

nunca chegam a tempo
e estão mal colocadas
sobre bases de areia
que uma criança sopra.

Se têm uma mensagem?
Se vieram do estrangeiro?
Se alguém entende o seu
magro funcionamento?

Se um engenheiro coxo
ajudou a construí-las,
ditando regras doidas
aos bandidos do vento? –

São nada. São de cera.
Não têm resposta alguma.
Não estão para assuntos.
Nada têm a dizer.

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