de “o rosbife.com e-se”

119558

Penso adaptar-me a esta nova situação com alguma facilidade.
Disseste tu.
– Foi no momento em que o comboio cruzou o espaço numa rapidez algo desesperante.
estavas obcecado
pela poesia das máquinas.
– Eu não disse nada.
Melhor: Disse pouco.
disse: – como foi possível!?…
e continuei: – segundo o novo paradigma, a consciência foi primeiro e a evolução depois
estamos perante uma situação que
sem dúvida
dará lugar a uma espécie de revolução
uma revolução de insuspeitas consequências
não só no mundo da ciência
mas também em todos os aspectos da vida.
– Estamos a bordo da Nova Era
a Era
do mundo aberto ao meio…
um mundo aberto a um Eu e
capaz de desempenhar o seu papel a nível superior.
Cada meta que a humanidade alcança é um novo começar
e
a totalidade da história, não é mais que…
uma máquina para gerar e gerir sonhos lúcidos.
– Uma máquina…
revela toda a complexidade, toda a riqueza.
Tantos conflitos…
secretos?
– Aos quinze anos éramos parcos em palavras…
durante largos períodos parecíamos mudos.
e
a tua poesia deslizava por caminhos de dupla identidade.
Uma identidade cruzada
indiciadora de um quase ajuste de contas.
– Escrevia-a, nessa altura, nas carruagens de 3ª classe. Resultava uma escrita trémula,
reveladora de um carinho profundo, umbilical…
disseste.
e
continuaste:
– Uma escrita forte. Tão forte como incomunicável, tão centripta como absorvente.
– Nunca pensei nisso. assim…
– Mas era.
– talvez…
– Uma escrita herdeira de mundos limitados…
enclausurados
domésticos
obscuros
o retrato da penumbra
de arquitecturas populares
a ruína
o mal passar nas fábricas
a sordidez que chega no limite da fuga…
– Os bancos da 3ª classe eram de pau. duros.
– Os poemas apresentavam-se de forma magnífica.
– Disse-os uma vez no café da estação.
– Estou lembrado.
– Disse: – O pensamento é contagioso, vicioso, viral.
– Ah!…
A magnífica forma de como a voz se transformava…
– Outras não.
– Outras vezes pode existir uma causa objectiva que afecte uma situação, mas a verdade
voluptuosa acentua os danos a partir do pensamento…
– Os arquétipos que se manipulam ultimamente em literatura interessam-me pouco.
– O pânico, sim.
– O pânico…?
– Claro, o pânico.
Ah!…
e o caos.
– Sim, o pânico e o…
– O pânico…
– O pânico produz-se tal como uma concupiscência gostosa na nossa própria carne.
O pânico reproduz-se no tumulto como uma substância primitiva.
É uma energia telúrica que nos envia às origens remotas da vida.
– O pânico é um aditivo extraordinariamente eficaz, determina condutas implacáveis e
momentos únicos…
deslumbrantes
uma enorme copulação terrorista!…

manuel almeida e sousa – in: “eu, tu e o comboio” – edições “escrituras”, S. Paulo, Brasil

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